Sonata Arbórea Número 9 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 9

Por Ordep Serra

A baraúna surpreende que nem um beijo inesperado, com um belo verdor que rasga a secura. Impõe profundo respeito no campo raso da caatinga. Tem o jeito de uma capela erguida no ermo. Sente-se à vontade no tabuleiro de escasso tapete. No centro de uma clareira, faz que pareça recém-chegado o mato humilde do qual se rodeia. Arbustos reverentes então se inclinam para a saudar. Mas ela gosta de solidão. Prefere o descampado. Embora nem sempre abrigue a ave sábia, tem com sua raça um parentesco secreto: de espírito glauco, sem garras nem olhos forma sua própria coruja, toda grave, meditativa. E plácida.

A ataraxia da baraúna contrasta fortemente com a paixão da umburana, que quando moça insinua danças caprichosas com os galhos esguios, usa de modo sedutor o véu da folhagem, mas toda se despe e retorce em sua velhice trágica. É uma atriz inspirada. Os escultores do sertão tiram de sua carne imagens estranhamente serenas, ex-votos impassíveis.

Sim, ela também amamenta implacáveis marimbondos.

É benévola com todos.

Sertanejo sabe: Umburana de Cheiro, bela dama perfumada, acode com sua farmácia os pobres das terras secas. Suas sementes caridosas prodigam xarope santo, oferecem chá milagroso, tiram febre, aquietam dores humanas, curam moléstias de muitos bichos. Destaca-se a vermelha, com o rubor discreto de sua pele e os frutos sanguíneos que comunicam energia, irrigam as veias dos enfermos.

Também médica é a aroeira de flamantes frutos, sagrada casca de jacaré.

A catingueira, em geral loura de flores, mas às vezes roxa, fornece o feijão das cabras. Guarda-o com carinho em suas vagens pastoris.

Me inclino diante do soberano jatobá. Eu o conheci no sertão baiano, onde sua altura me espantou. Depois o vi em terras amazônicas, três vezes maior, um soberbo rompe-nuvens. Mas como o sertanejo marcou minha primeira admiração, ficou sendo, para mim, o pai de todos, o máximo. É que ainda o vejo com os olhos da infância. Doulhe o título merecido: Doutor Jatobá. Aprendi com os cientistas matutos que ele dá remédio à anemia, tal como a benta aroeira. Os marceneiros o veneram, dele retiram farta mobília.

Um contraste se impõe. Os jatobás e as baraúnas são parmenídeos, assim como a linda mangueira que conheci em menino e a cada encontro me afirmava estar ali desde o princípio do mundo. Já o luminoso canjoão que eu gostava de ver no mato do Jequi sempre me parecia recente, surgido de novo, nascido para ilustrar o dia, o puro momento em que eu o contemplava: declarava-se, a cada manhã, recém-surgido da noite feito uma aurora vegetal, de louras tranças. Com artes secretas, tomava o lugar do irmão gêmeo que a sombra escondera.

É feiticeiro, o canjoão. Por mais que o juízo nos aguilhoe, a gente acaba acreditando no seu discurso. Por isso torno ao jatobá. A imagem de firmeza essencial que ele comunica hoje me traz à lembrança — não sei por que estranhas veredas — versos de um poeta de muito longe. À luz das palavras de que me aproprio, mostro o firme tronco e a mim mesmo dou certeza:

— Veja, as árvores são.

Na língua do poeta, a frase tem um áureo zunido: — Sie, die Bäume sind — e por conta do belo zunir já a imagino pronunciada por uma abelha experta em zês. Mas cismo: troco o som de ouro besouro por um cicio, na nova tradução que me ocorre. Ela distorce um pouco o sentido literal da sentença, mas lhe acrescenta o vento na folhagem:

— Sim, as árvores são.

Daí volto à fonte alemã e no som que o trema impõe a Bäume enxergo um galho recurvo.

Bendito seja Rilke por sua Segunda Elegia, em que plantei um jatobá. (Às margens do Duíno, vejam que loucura! Mas creio que ele gostaria do intruso).

Torno ao sertão, recorro a letras brasileiras. Euclides da Cunha prestou grande atenção às árvores da caatinga. Fez uma espécie de ode em prosa aos juazeiros, assim no plural. Celebrou o esplendor que ostentam em meio ao “depauperamento geral da vida”, na dura agrura das terras áridas. É que eles ignoram a canícula, desafiam a seca com suas ramagens virentes em plena soalheira, “salpintando o deserto com as flores cor de ouro, álacres, esbatidas no pardo dos restolhos”. Na caatinga, diz Euclides, juazeiros figuram “oásis verdejantes e festivos”.

O grande escritor não foi menos justo com o umbuzeiro, “a árvore sagrada do sertão”: evocou suas dádivas generosas, os ricos momentos de alegria que dispensa ao sertanejo preso à labuta em meio a terrível secura. O cronista de Canudos retratou ainda outras belas plantas do deserto e descreveu com maestria o milagre da caatinga, sua espantosa ressurreição à primeira chuva. Confirmo: quem já contemplou essa primavera instantânea nunca mais a pode esquecer. Vai apaixonar-se para sempre por uma flora rude e fantástica.

Enquanto me disponho a acompanhar o mestre Euclides na reverência ao mandacaru, me assalta uma lembrança irresistível: vejo o cacto de Manuel Bandeira, “belo, áspero, intratável”. Citadino embora, ele me lembra magníficos guerreiros de sua espécie que encontrei no sertão calcinado, desafiando o sol com seus verdes candelabros, ferozmente ouriçados.

Grandes e pequenos, todos os cactos me encantam. Guardo na memória o sabor do cortado de palmas, a graça dos quipás de coroa festiva, a religiosa admiração que sempre me comunica o rubro fervor das cabeças-de-frade, capazes de aninhar-se angelicamente até em côncavos de lajedo.

Ainda na trilha euclidiana, homenajeio tremendos arbustos: unhas-de-gato, favelas, xiquexiques. Saúdo a falange feroz, armada de garras agudas que prendem e laceram. Mas feito o louvor, eu prudentemente me afasto; volto-me para os mulungus generosos, de cujo feijão vermelho também já me alimentei. E por fim me socorro da beleza de touças amáveis a que agora rezo:

Senhora Jurema sábia Cabocla, na forma branca, na forma preta, na forma mimosa, dá-me tua luz.

Teu amor me envolveu com o ritmo forte do toré, com o batuque divino que acompanha teus múltiplos ritos de encantaria. Vinho puro de tuas veias delicadas me trouxe aos lábios a melodia do sagrado, junto com o mel de celestes abelhas, quando te vi dançar em terreiros festivos.

Bela rainha de seios floridos, a caatinga mágica, o mistério dos campos gerais e a selva dos começos se escondem na ondulação do arbusto que guarda teu sangue. A bênção, Mãe Índia, Espírito Santo do sertão, sonhadora amável. Envolve meu coração com tuas folhas de poesia.

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