Livro associa obra da cantora Maria Bethânia a do poeta José Inácio Vieira de Melo

O poeta e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Igor Fagundes, proferiu, na última quinta-feira (27.10), na sede da Academia e Letras da Bahia (ALB), uma palestra sobre o seu recém lançado livro Poética na Incorporação. O trabalho é resultado da defesa de tese de doutorado do autor, tendo como premissa as obras da cantora baiana Maria Bethânia e do poeta José Inácio Vieira de Melo acerca da cultura ocidental, refletindo sobre as dialéticas entre arte e o sagrado, fugindo de paradigmas do pensamento ocidental.

Adepto à religião de matriz africana, o escritor revela que a sua crença na Umbanda foi um dos motivos que o levaram a escrever a publicação. “A arte, a ciência e a religião novamente se emanam em espécie de pensamento arcaico, onde nós, hoje em dia, não estaríamos mergulhados, uma vez que o nosso discurso sobre o sagrado ou é religioso ou é cientifico, da mesma maneira que o nosso discurso sobre o poético é estético ou teórico”, explica.
Nesse sentido, a ligação com a cantora Maria Bethânia foi fundamental para o encontro desta “dimensão arcaica do saber”. “Vi em Bethânia uma pensadora como artista”, destaca ele, que teve seu primeiro contato mais próximo com a artista a partir do álbum “Mar de Sophia”, de 2005. “É também uma história oracular, mitológica, que se confunde com a minha própria biografia”, acrescenta.

Por outro lado, a presença de José Inácio Vieira de Melo na obra se deu em função do reconhecimento ao trabalho do poeta alagoano, radicado na Bahia, com o livro A infância do Centauro. “O livro Poética na Incorporação é um trabalho de desconstrução da cultura ocidental, da filosofia, que gerou leituras viciadas sobre o sagrado, e também em torno dos mitos de matrizes africanas. Jose Inácio é uma espécie de personagem à minha historia de iniciação a esses mitos de matrizes africanas”, conta Igor, em alusão aos temas trabalhados pelo artista nordestino, que constantemente evoca o sertão nos seus poemas.

Outro ponto levantado pelo poeta carioca à obra de José Inácio é o fato de ele possuir forças para nortear a sua literatura, tornando ainda mais forte o seu elo com Maria Bethânia. “As sereias. Tanto José Inácio quanto Bethânia possuem uma relação com elas que não é simplesmente metafórica. Eles estão “trepado” um no outro. Eu falo “trepado” mesmo porque é erótico, no final das contas o que vai se narrar aqui, com o pensamento e história, porque ao mesmo tempo em que se pensa se conta uma história, é uma história de amor entre José Inácio e Bethânia, alegoricamente entre sertão e água e outras figuras alegóricas míticas”, afirma.

Presente à solenidade, José Inácio falou sobre as suas impressões do livro. “Não achava que a minha poesia tivesse um desdobramento dessa natureza, porque o trabalho do Igor não é sobre a minha poesia, mas sim a junção dela e a musica da Maria Bethânia para fazer essa desconstrução, de pensar o ocidente, e resinificar”, ressalta.

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