ALB completa 100 anos reafirmando o seu papel de cuidadora das letras

10 de abril de 2017. Uma data que será “imortalizada” pela Academia de Letras da Bahia. O termo imortal é utilizado pelos acadêmicos da instituição literária para eternizar – perpetuar – a obra pessoal, acadêmica e profissional de um membro já falecido. Desta vez, a expressão foi utilizada sob uma ótica diferente: a celebração do centenário de nascimento da ALB, ocorrida na noite da última segunda-feira (10.04) no Solar Góes Calmon, sede da agremiação no bairro de Nazaré. O evento reuniu autoridades culturais, escritores e os amantes do universo das letras para uma revisitação à memória desta que é uma das entidades culturais mais respeitadas do Estado.

Fundada no dia 07 de março de 1917 pelo engenheiro baiano Arlindo Coelho Fragoso, a Academia chega aos 100 anos mostrando ser, de fato, uma organização prestante da cultura. “Reconheçamos que uma instituição de 100 anos, com tantos expoentes da cultura e da literatura, com o acervo de mais de 30 mil volumes e de documentos, é um constante convite à pesquisa. Não vamos ser, já somos um centro de documentação bem procurado”, disse Edivaldo Machado Boaventura, um dos oradores da noite. Ele é um dos membros mais antigos da agremiação, com 46 anos à frente da Cadeira nº 39. Sua entrada ao sodalício se deu em 1971, à época com 37 anos.

O intelectual, que dirigiu a casa de cultura de 2007 a 2010, se junta a galeria de outros 16 presidentes que estiverem à frente do cargo ao longo do século. São eles: Ernesto Carneiro Ribeiro, Braz do Amaral, J. J. Seabra, Carlos Ribeiro, João Garcez Fróis, Luiz Pinto de Carvalho, Aloysio de Carvalho Filho, Thales de Azevedo, José Calasans, monsenhor Manuel Aquino Barbosa, Estácio de Lima, Jorge Calmon, Hélio Simões, Cláudio Veiga, Aramis Ribeiro Costa e Evelina Hoisel.

Ao longo de sua história, já passaram pelas cadeiras da Academia de Letras da Bahia mais de 200 nomes, dentre elas diversas personalidades cujos trabalhos tiveram importância para a Bahia e para o país, a exemplo do ex-governador Otávio Mangabeira, os escritores João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado e Zélia Gattai, além do jornalista Jorge Calmon.

No seleto grupo de ex-presidentes está também Aramis Ribeiro Costa (2011-2015), médico e escritor, e um dos responsáveis por homenagear o centenário da instituição. Em sua fala, o acadêmico fez questão de relembrar um pouco do passado da ALB, recapitulando os motivos que levaram à sua fundação.
“A data de sete de março não foi escolhida ao acaso. Foi para homenagear uma iniciativa semelhante ocorrida em Salvador, 193 anos antes. A Academia Brasílica dos Esquecidos, fundada na mesma data do ano de 1724 por determinação do vice-rei Vasco Fernandes Cezar de Menezes, Conde de Sabugosa, trigésimo nono governador da Bahia. Foi a primeira academia de letras do Brasil, a significar a independência intelectual dos aqui nascidos, e que se julgavam postergados ou esquecidos pela Academia Real da História Portuguesa, de 1720”, contou Ribeiro Costa. A ela seguiu-se a Academia dos Renascidos, em 1759, que pretendia, como sugere o nome, fazer renascer os esquecidos, restabelecer a interrompida iniciativa.
“Porém, como a antecessora, durou pouquíssimo. O que aqueles homens, aqueles notáveis da Bahia do século passado, fizeram no dia 7 de março de 1917, data da fundação da ALB, foi justamente reacender mais uma vez a chama extinta, reatar a ideia de uma sociedade inteligente voltada para as letras, a história, o conhecimento, a produção intelectual — o mais amplo e destemido universo da cultura”, acrescentou. Os personagens notáveis da época a qual se refere Aramis Ribeiro Costa eram políticos, advogados e médicos, responsáveis por estimular o cenário cultural baiano.

Primeira mulher da historia a assumir a presidência da Academia, Evelina Hoisel, que atualmente está no seu segundo mandato, afirma que o centenário chega para revigorar os princípios da Casa, inscritos no lema que já aparece gravado no seu estatuto, desde o momento da fundação: servir à Pátria, honrando as Letras. “Celebramos a sua história com a convicção de que, desde a sua origem, ela é a guardiã de um precioso instrumento que torna possível a aventura humana ao longo dos tempos e que constrói a própria história: a língua, e, de maneira mais específica, a língua revitalizada pela literatura, pelo pensamento criativo, materializado nas manifestações artísticas e culturais. E estas se constituem como espaço de liberdade, é onde o poder gregário da língua encontra resistência, não se instala”, exprimiu.

Ela ainda falou sobre a importância da circulação dos saberes, especialmente relacionado às publicações e projetos desenvolvidos pela ALB ao longo do século. “O cuidar das Letras nesta Instituição não significa simplesmente guardar um acervo, mas colocá-los também à disposição do público. Trata-se principalmente de fazer germinar, circular os saberes. A palavra inscrita no estatuto da Academia de Letras da Bahia é a palavra cultivo, de cultivar, etimologicamente a mesma da palavra cultura, e traz uma conotação de vida, de semeadura, de inseminação e de disseminação. Remete-nos, portanto, a um organismo vivo”, completou. Ao longo de 2017, a Academia realizará seminários e publicações em homenagem ao centenário.

Está previsto para o segundo semestre deste ano o lançamento de um livro que conta a história da Academia. O material será composto por textos de imortais. Ao todo, são quarenta cadeiras numeradas, cada uma com o respectivo patrono permanente e imutável, sendo quarenta membros efetivos e vinte correspondentes, todos vitalícios. A Academia de Letras da Bahia está aberta ao público de segunda a sexta, sempre das 13:30h às 17:30h.

Fotos: Kin Guerra

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