Academia de Letras da Bahia discute arquitetura e urbanismo na cidade de Salvador

O atual cenário arquitetônico e urbanístico da cidade de Salvador foi palco de críticas por arquitetos da capital baiana. Reunidos nesta terça-feira (15.08), na sede da Academia de Letras da Bahia, a palestra foi mediada pelo imortal e professor titular da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o arquiteto Paulo Ormindo, com a presença de profissionais como Fernando Peixoto, Ana Fernandes e Ângelo Serpa. A acadêmica e crítica literária Gerana Damulakis também participou do debate, trazendo à tona aspectos que conectam a literatura e arquitetura baiana.

Reconhecido pelas cores fortes, contrastes e grafismos encontrados nos seus trabalhos, o arquiteto baiano Fernando Peixoto reprovou o que ele chama de “indústria da construção”, a exemplo do que aconteceu nos últimos anos na Avenida Paralela, com o ‘boom’ da construção civil, que resultou no desaparecimento de uma enorme área verde na região. “A Paralela foi destruída e acabada; está errada em todas as direções. Eu me sinto um retirante na minha cidade. Existem pontos de contatos filosóficos que podem ser muito mais amplos para que a gente se reconheça pelo que nós somos e não tentar ser nova- iorquinos ou de Dallas”, disse ele.

O “turbilhão metropolitano”, como revelou a docente titular da Ufba, a também arquiteta Ana Fernandes, acontece, segundo ela, de forma descompromissada com o território da cidade. “Hoje temos as cidades franquias, como é o caso do Le Parc, Horto Bela Vista, Alpha Ville, Greenville, onde o projeto não tem pregnância com o lugar. Ele chega e se implanta em função de uma lógica financeira, de valorização global, que muito pouco tem a ver com esses locais. Esse é um elemento importante para entendermos como a cidade vem sendo produzida hoje. Temos princípios globalizantes de políticas urbanas corporativas, implementados para atração de investimentos, não importando como ele vai se assentar neste território”, avaliou.

Por sua vez, o professor Ângelo Serpa apontou que a crítica à arquitetura e urbanismo feito nas grandes cidades contemporâneas deveria ser analisada de modo concomitante e dialético tanto em termos estéticos quanto políticos. “Se a gente foca a crítica em conteúdo, aspectos políticos, devemos estar atentos aos conteúdos que não queremos. Neste momento, sabemos o que não queremos. Hierarquização, segregação, periferização, fragmentação, todos esses processos que condicionam e são condicionados por práticas de arquitetura e urbanismo em um contexto de desigualdade e reprodução das relações capitalistas nas cidades contemporâneas”, observou. De acordo com Serpa, para fazer frente a esses processos, que propagam e perpetuam as desigualdades e injustiças, é preciso pregar o que queremos. “Autonomia, participação e solidariedade. Conteúdos que gostaríamos de ver expressos na arquitetura e urbanismo de Salvador”, afirmou.

Literatura

A partir da leitura do livro “A Memória das Pedras”, do autor Paulo Ormindo, a imortal Gerana Damulakis fez uma passeio entre o trabalho desenvolvido pelo autor como arquiteto e urbanista e a sua mais recente paixão, as letras. “Esta casa apesar do nome ser Academia de Letras da Bahia, abarca pessoas de várias outras áreas, de várias outras artes. No caso de Paulo Ormindo, ele ficou “contaminado” com as letras a ponto fazer a crônica com literaliedade, com um valor literário. Através de contos e crônicas, conduziu a arquitetura por meio dos seus textos. Esse livro merece a eternidade”, destacou a crítica literária. A obra reúne textos com reflexões que foram resultado de viagens pelo escritor a diversas cidades do mundo.

 

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