Academia de Letras da Bahia discute os 120 anos da Guerra de Canudos

“O que hoje se comemora é uma data triste. À época, o arraial de Canudos foi totalmente destruído pelo Exército brasileiro, com uma mortandade incrível. Não há o que celebrar, mas sim lamentar que este fato histórico tenha ocorrido”. A queixa é do acadêmico e poeta Fernando da Rocha Peres que, na última quinta-feira (5.10), na sede da Academia de Letras da Bahia, falou sobre as comemorações aos 120 anos do fim desta que foi uma das batalhas (1896 a 1987) mais sangrentas da história brasileira, a Guerra de Canudos, no sertão baiano.
“Um conflito muito mal administrado pelo Poder daquela época, que resultou no massacre de crianças, idosos e mulheres”, descreve o imortal da ALB. Estimam-se ao menos 25 mil mortos, muitos deles integrantes do movimento religioso liderado por Antônio Conselheiro.

Peres é autor do breviário que, em parceria com a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, homenageia a publicação “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e o estudioso do tema José Calasans. O documento – lançado em 2002 – revela fragmentos do manuscrito (1895) pertencente a Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. “Contém ‘prédicas’ – discursos religiosos – ao povo de Canudos. É um documento para ser estudado por especialistas das diversas áreas”, sugere.

Ele conta que no romance de Euclides da Cunha, o autor trata Antônio Conselheiro como um “doente grave; gnóstico bronco; paranoico desequilibrado; anacoreta sombrio; retrógrado do sertão; desnorteado apóstolo; um transloucado”. “Esta era a mentalidade do tempo com relação a Canudos. A população brasileira estava com medo. O Exército estava sendo desmoralizado, e Euclides da Cunha não foge a regra de como tratava o assunto”, afirma ele, em alusão às derrotas das tropas nas primeiras três expedições – num total de quatro – contra o povoado, que sofria os efeitos da seca e desemprego, sendo taxados pela sociedade da época como “fanáticos religiosos monarquistas” que buscavam derrubar a recém-instaurada República.

Apesar dos adjetivos negativos a Antônio Conselheiro, Fernando da Rocha Peres defende o peregrino religioso. “Ele tinha conhecimentos muito pessoais, do tempo em que ele estudou e andou com a religião católica. Esta pregação, diante das injustiças que ele via no sertão, simplesmente levantou uma população de míseros jagunços, oriundos da escravidão e seus descendentes”, conclui.

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