Estudo revela a diversidade do português brasileiro

Foram mais de 250 mil quilômetros percorridos ao longo de 20 anos. O equivalente a sete voltas ao redor da terra. Os números correspondem ao projeto Atlas Linguístico do Brasil, estudo pioneiro que descreve a realidade linguística brasileira no que tange a língua portuguesa. Conduzido pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) – através do seu Instituto de Letras – em parceira com outras 12 universidades brasileiras, os resultados da pesquisa, iniciada em 1996, foram apresentados na última terça-feira (31.10), na sede da Academia de Letras da Bahia, pelas professoras Suzana Alice Marcelino Cardoso, Jacyra Andrade Mota, Silvana Ribeiro e Marcela Paim.

Com mais de 3.500 horas de gravações documentadas ao longo de 250 localidades visitadas por todo o país, “do Oiapoque ao Chuí”, como avalia a coordenadora do projeto Suzana Alice Marcelino, o Atlas Linguístico do Brasil chega à sua segunda publicação dialogando com questões ligadas à fonética, morfossintaxe, léxico, pragmática, metalinguística, dentre outras tantas áreas da nossa língua materna. “Um questionário padrão – seguindo a descrição e interpretação linguística – foi utilizado com homens e mulheres de diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade. Essa perguntas levaram ao perfil honesto da nossa língua”, destacou.

Ela explicou que todo o trabalho é focado na geossociolinguística, que centraliza aspectos que vão desde a variação geográfica até a variação social do investigado. “Entendemos que a língua se diferencia conforme o espaço que ela é falada e conforme as características social do falante que dela fazem uso”, apontou. A definição dos locais estudados, que incluiu 25 capitais, seguiu critérios como a densidade demográfica do lugar.

Nossa língua

A professora emérita da Ufba e imortal da ALB acentuou em sua fala quatro aspectos que definem a língua portuguesa. “Primeiro, toda língua é um instrumento oral de comunicação. Um segundo ponto: o papel primordial dela é a intercomunicação; oferecer a possibilidade do entendimento entre os interlocutores. O terceiro parâmetro é que a língua se desenvolve no curso da história. E, por fim, a língua é um sistema; ou seja, um conjunto de possibilidades que oferece para que o seus usuários possam fazer uso dela, e cada coletividade vai configurar a sua modalidade de uso”, disse.

O volume três do Atlas já encontra-se em fase de editoração e, apesar dos 20 anos de pesquisa, a ideia é dar continuidade ao projeto com a concepção de mais três volumes. “A variação da língua está em curso e vem revelando a diversidade do português brasileiro. O Atlas nos indica a unidade do português brasileiro. Tem para isso uma função social muito grande, sobretudo para auxiliar na configuração do ensino e aprendizagem da língua materna”, concluiu.

 

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