Dom Emanuel aborda relação da Ordem de São Bento com a cultura

O acadêmico Dom Emanuel D’Able do Amaral, arquiabade do Mosteiro de São Bento,  fez uma palestra na Academia de Letras da Bahia sobre o tema “ A Ordem de São Bento e a Cultura”, quando destacou a importância da ordem beneditina no mundo e a sua contribuição para a cultura de diversos países, entre os quais o Brasil. A palestra ocorreu no dia 13 de setembro, às 17 horas.

Veja a síntese da palestra:

 

 

A Ordem de São Bento e a Cultura

São Bento, fundador dos monges beneditinos, nasceu em Núrsia, na Úmbria, Itália em 480 e faleceu no Mosteiro de Montecassino no ano de 547.

A Regra escrita por São Bento conquistou todo o monaquismo ocidental.  Qual foi a contribuição desta Regra e dos monges beneditinos à cultura?

Embora as atividades de um mosteiro na época de São Bento fossem simples com trabalhos dentro do mosteiro e da agricultura ao redor da abadia, percebemos pela Regra que São Bento deu grande importância à leitura da Sagrada Escritura e aos Santos Padres. Os monges deveriam ser alfabetizados. Temos na Regra momentos de leitura em comum no oratório e no refeitório. Temos também muito tempo para a leitura individual. Todos os mosteiros tinham sua “biblioteca”, local onde eram guardados os códices. Cada mosteiro possuía também seus monges “copistas” que tinham a função de copiar textos para a liturgia e  a leitura dos irmãos. Com o tempo os copistas passaram a copiar tudo que lhes caía nas mãos e os monges ampliaram seu universo, lendo esses textos.

Com a destruição de Montecassino pelos lombardos em 590, os monges passaram a habitar em Roma, iniciado a experiência do monaquismo urbano, com serviços litúrgicos celebrados nas basílicas romanas. É nesta época que o canto gregoriano começou a ser organizado pelo Papa Gregório Magno (540-604).

Segundo a tradição São Mauro (Santo Amaro) levou a Regra à Gália e Plácido a levou para a Sicília, tornando-se o protomártir da Ordem. Gregório Magno se tornou papa em 590 e confiou a evangelização das ilhas britânicas a Santo Agostinho de Cantuária e a seus 40 confrades, monges beneditinos. Os monges levaram às ilhas britânicas educação e cultura. Das ilhas britânicas se voltaram para o continente europeu. Começando pela Alemanha e subindo para o norte da Europa e depois para o leste e para o oeste, levando a liturgia romana, costumes, e divulgando a língua latina.

A arquitetura monástica assumiu o românico.  A partir do século VII, essa arquitetura romanica passou a ser acolhida pelos “arquitetos beneditinos” e foi levada a toda Europa, começando pela Inglaterra, através de São Wilfrido e São Bento Biscop. Mais tarde apareceram os estilos  gótico e barroco.

As igrejas passaram a ser decoradas com pinturas murais e mais tarde vitrais. A arte se colocou a serviço da fé: cálices, cruzes, evangeliários com pedras preciosas… Nesse período encontramos os famosos “iluminuristas” que com ouro e outras tintas coloridas compunham os textos para a liturgia.

A educação das crianças e dos jovens teve grande apreço nos mosteiros de monges e de monjas na Idade Média. Os pais levavam os filhos para serem educados nas abadias. A Regra de São Bento e os Diálogos de São Gregório Magno já relatavam isso.

Em 787 o Imperador Carlos Magno, fundou as escolas claustrais. Toda abadia devia ter uma escola para acolher os jovens e educá-los. Com quinze anos o jovem ou deveria permanecer e se tornar monge ou deveria sair livremente. As monjas beneditinas foram as grandes mestras das jovens na Alemanha medieval.

O canto gregoriano se desenvolveu muito, com muitas peças compostas pelos monges para a liturgia, sobretudo dos séculos IX ao XII.

Também a função dos “copistas” se desenvolveu muito na Idade Média. Eles copiaram e transmitiram os textos antigos. Os códices mais antigos são do período de Carlos Magno e de seus sucessores. Toda a cultura clássica antiga chegou até nós graças a esses anônimos copistas.

As bibliotecas cresceram muito com a cópia de novos códices. Os monges-copistas circulavam por toda a Europa, copiando textos. Era o orgulho de uma abadia ter uma rica biblioteca com códices raros. É famosa a frase: “Clastrum sine armário, castrum sine armentario”, “O mosteiro sem livros é como um exército sem armas”.

A Ordem de São Bento teve grandes mestres como Beda, o Venerável (673-735), pai da historiografia inglesa, São Alcuíno de Iork (735-804), mestre de gerações, fundador da Biblioteca e da Escola de York, que foi um centro notável de cultura. Foi chamado por Carlos Magno para instruir a corte e o clero; Santo Anselmo de Cantuária, também chamado Anselmo d’Aosta (1033-1109). Filósofo fundador do escolasticismo. Era discípulo de Lanfranco.

Mais tarde apareceram os monges cirtercienses (uma reforma dos beneditinos) que também deram uma grande contribuição na organização da produção agrícola e na administração, tendo também escritores monásticos.

Com o surgimento das ordens dos frades dominicanos e franciscanos e das Universidades, a educação e a cultura deixaram de ser um monopólio dos monges beneditinos.

No século XVII os maurinos (monges beneditinos da Congregação de São Mauro, na França) tinham como missão os estudos históricos. Por isso se tornaram conhecidos na história da França, por sua cultura e pela produção de muitos talentos como Dom Luc d’Archery, Dom Mabillon e Dom Montfaucon.  Jean de Mabillon (1632-1700), considerado o maior historiador da França na época é o pai da história científica medieval e da paleografia, e seus “Anales” e “Vidas de Santos Beneditinos” colocaram os fundamentos da crítica histórica da Baixa Idade Média e do surgimento religioso do século XI.

Além destes testemunhos citados também sabemos que antes de existirem hospitais, os doentes eram tratados e curados nas enfermarias monásticas. Muitos monges estudaram medicina e farmácia para cuidarem dos confrades e dos leigos. Muitos mosteiros além da enfermaria interna tinham uma enfermaria externa e uma farmácia com um horto para a produção de remédios.

Na Idade Média raramente se encontrava uma “pousada”. Em geral as pessoas se hospedavam nos mosteiros e recebiam os cuidados dos monges.

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