Encontro literário enfatiza semelhanças e diferenças entre as literaturas do Brasil e da Espanha

Ignacio Peyró lembrou fascínio de Vargas Llosa por Euclides da Cunha

Há mais semelhanças entre as literaturas do Brasil e Espanha do que possa parecer à primeira vista. Identificando os pontos em comuns, e acentuando também algumas diferenças, os escritores Santiago Roncagliolo e Ignácio Peyró, ambos de língua espanhola, participaram ontem, dia 1 de outubro, na Academia de Letras da Bahia, no bairro de Nazaré, do 1o Encontro Literário Brasil-Espanha. O evento foi uma iniciativa conjunta da ALB com o Consulado Geral da Espanha no Nordeste/Embaixada da Espanha no Brasil.

Natural do Peru, Santiago Roncagliolo contextualizou a influência da literatura brasileira em sua obra a partir da convivência com a cultura brasileira, nos anos 1970, e a leitura de autores como Jorge Amado e Joao Ubaldo Ribeiro. “Num determinado momento, os autores latinos, entre eles os brasileiros, falavam de coisas que países como a Espanha não podiam falar por causa do regime politico”, lembrou, ressaltando o seu envolvimento pela cultura baiana. “Adorei o livro A Morte e a Morte de Quincas Berro d`Água”, de Amado, observou, dizendo que autores como Jorge Amado e Ubaldo Ribeiro “ fazem uma literatura que fala com o corpo e isso é muito especial”.

Como jornalista, Roncagliolo é autor de uma trilogia de histórias reais sobre o século XX hispano: “La Cuarta Espada”, “El Amante Uruguayo” e “Memorias de una Dama”, este considerado o último livro censurado da América Latina. Além disso, o seu livro “Abril Rojo” foi considerado pelo jornal inglês The Guardian como uma das grandes novelas escritas sobre o Peru.

Já o escritor espanhol Ignacio Peyró, que é autor de “Pompa y circunstancia – Diccionario sentimental de la cultura inglesa”, e de “La vista desde aqui – Una conversación con Valentí Puig”, destacou alguns pontos de intersecção entre as literaturas brasileira e espanhola, lembrando, por exemplo, o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, escrito pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa tendo como motivação a Guerra de Canudos, ocorrida na Bahia. Peyró disse que Lhosa absorveu a realidade brasileira a partir do fanatismo representado por Canudos e da leitura de “Os Sertões”, obra de Euclides da Cunha que exerceu grande fascínio sobre ele.

Tradutor de obras de Evelyn Waugh, Louis Auchincloss, J. K. Huysmans, Rudyard Kipling, Valle-Inclán o Augusto Assía, entre outros, Peyró dirigiu e coordenou a edição de “Lo mejor de Ambos Mundos”. É ainda autor de diversas monografias sobre arte, e participou de obras coletivas como o “Atlas de literatura universal”. Atualmente, dirige em Londres o Instituto Cervantes, que difunde a cultura espanhola no mundo.

A presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel, finalizou o encontro destacando a importância do diálogo entre os mundos literários do Brasil e Espanha, demonstrando ainda o interesse que outros eventos do tipo venham a acontecer na ALB, no que foi apoiada pelo cônsul da Espanha para o Nordeste, Gonzalo Fournier, também muito satisfeito com os resultados do evento.

Anúncios