Membro da Academia de Letras da Bahia lança livro de contos

O Palacete Góes Calmon da Academia de Letras da Bahia recebeu convidados nesta terça-feira, 02/08, que prestigiaram o lançamento de mais um livro do escritor Aramis Ribeiro Costa. Retorno em tarde sem sol reúne quinze contos curtos do ex-presidente do Academia, que já lançou mais de dez obras, entre romance, poesia, contos, literatura infantil e crítica literária.

Em seu pronunciamento, o confrade Joaci Goés enalteceu as qualidades do autor, que para ele “nasceu vocacionado” à arte da escrita. “Aramis Ribeiro é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade e seu mais recente livro, certamente, acompanha este padrão que o eleva na admiração da vasta galeria dos seus leitores”.

Para o acadêmico Francisco Senna, as qualidades de Aramis extrapolam a produção literária. “Aramis é um grande escritor que traduz o sentimento da Bahia, com lirismo, poesia e de forma envolvente. Além de um ser humano elegante no trato e nas relações sociais, que dignifica nossa Academia, não só pela obra literária, como pela atuação administrativa na Casa”.

Ocupante da Cadeira nº12 da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa foi presidente da entidade por dois mandatos (2011-20015) e, este ano, pelos serviços prestados à Instituição, recebeu o título de membro benfeitor. Sobre os contos que integram Retorno em tarde sem sol, e são ambientados na cidade do Salvador, Aramis define como “pequenas aquarelas do cotidiano, carregadas, aqui e ali, nas tintas de algumas circunstâncias inusitadas”. O livro é mais uma publicação da editora baiana Kalango.

 

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Discurso do Rio Cefiso

arc(Na Instalação da Academia de Letras de Itabuna)

Aramis Ribeiro Costa

Senhores Fundadores da Academia de Letras de Itabuna:

Precisaríamos ir muito longe, uma excursão no espaço e no tempo, para encontrarmos as vertentes históricas desta solenidade que nos reúne para a fundação de uma nova academia de letras. Teríamos, antes de tudo, de percorrer vagarosamente os jardins que abrigavam o túmulo do herói ático Academo, às margens do Rio Cefiso, próximo de Atenas, nos quais Platão dialogava com seus peripatéticos discípulos, a perquirir questões do saber, nas tardes ensolaradas da Grécia esplêndida. E depois, quase quatro séculos atrás, transportando-nos de um momento luminoso da humanidade a outro, visitar a academia de Richelieu, nos tempos gloriosos da França de Luís XIII.

Não era a primeira academia dos tempos modernos. O poderoso cardeal e primeiro-ministro, com sua Académie Française, praticamente dava continuidade a duas outras, ambas criadas em Paris: a Académie de Poésie et de Musique, em 1570, e a Académie du Palais, em 1576, esta última para cuidar da língua e da literatura francesas. E houvera também, na Itália, entre 1582 e 1583, certa Accademia della Crusca, instituída por cinco florentinos para proteger e purificar o idioma italiano. Mas a iniciativa do Cardeal de Richelieu em 1635 seria tão importante e tão prestigiosa que passaria a inspirar as demais academias de letras, sempre com o objetivo de cultuar a língua e a literatura, além de definir o vocabulário.

Só após essas duas visitas, à Grécia de Platão e à França de Richelieu, é que voltaríamos ao Brasil, onde a inspiração da Académie Française foi decisiva para o sodalício que Machado, o admirável Bruxo do Cosme Velho, fundaria com seus ilustres pares no ofício de escrever e amar a cultura.

Era no apagar das luzes do século XIX, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, porém capital da República e referência cultural da nação brasileira. Fundada em 1897, quando a humanidade jamais poderia vislumbrar, nem mesmo com a exorbitante imaginação de um Jules Verne, os maravilhosos avanços da ciência e da tecnologia do século seguinte, a Academia Brasileira de Letras, longe de apagar-se no obsoletismo e no desprestígio, cresceu em importância e consideração, a ponto de tornar-se um objetivo glorioso dos que aspiram à imortalidade literária no Brasil.

Como na França a Académie Française, entretanto, não foi a ilustre Academia Brasileira a primeira a ser instituída em nosso país. Esse privilégio coube à Bahia. Chamou-se Academia Brasílica dos Esquecidos, e foi fundada em Salvador, em 7 de março de 1724, reunindo quarenta e quatro poetas e prosadores, uma iniciativa do vice-rei dom Vasco Fernandes César de Meneses, Conde de Sabugosa. A esta se seguiram a Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, em 1736, e a Academia dos Renascidos, outra vez em Salvador, em 1759, agora com quarenta acadêmicos, no modelo da Académie Française. Todas de vida curta. Como de vida curta, curtíssima, foi certa Academia Baiana de Letras, agremiação literária formada por vinte e cinco jovens escritores em nosso estado, pouco antes da fundação da Academia de Letras da Bahia.

A data de fundação da Academia de Letras da Bahia, 7 de março de 1917, não foi um acaso, porém propositadamente escolhida para lembrar a Academia Brasílica dos Esquecidos. Isso levou o quase perpétuo presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, que via na concordância das datas de fundação um propósito de continuidade, a nos recomendar que inscrevêssemos no brasão de nosso sodalício: “Primeira Academia de Letras do Brasil”. Não o fizemos, não o faríamos, preferindo a recomendação histórica e altamente louvável de nossos fundadores: “Servir à Pátria honrando as Letras”. E não fazemos mal, quando também honramos a Pátria, servindo às letras.

É justamente o que me parece tenham se transformado as modernas academias de letras, a começar pela nossa, a Academia de Letras da Bahia, uma instituição permanentemente a serviço das letras. A velha concepção de uma agremiação fechada, a reunir quase secretamente quarenta idosos acadêmicos, que entre um gole de chá e uma fatia de bolo discutem a chave de um soneto, ficou definitivamente no passado, se é que, em algum lugar e em alguma época, alguma academia de homens de letras tenha se resumido a tão inúteis reuniões. O fato é que, hoje, não se pode conceber uma academia de letras que não seja um núcleo disseminador de cultura, aberto ao público e muitas vezes voltado para esse público.

A Academia de Letras da Bahia possui uma intensa programação cultural, e por que não dizer educativa, que abrange cursos, seminários, colóquios e encontros de literatura, concursos literários, publicações, exposições, palestras, conferências, lançamentos de livros, além das atividades acadêmicas, como sessões ordinárias, reuniões de diretoria, eleições de novos membros, posses, sessões de saudade, comemorações de centenários e outras sessões especiais comemorativas. A nossa biblioteca, cada vez mais especializada no livro baiano, e nosso arquivo, que guarda a memória da instituição e de seus membros, encontram-se permanentemente à disposição dos pesquisadores, além de atuarem em programas educativos e re-socializantes, por meio do sistema de estágios com orientação e fiscalização de nossos funcionários. Nosso site e nossa sala de informática nos colocam na linha de frente na informação da cultura e na pesquisa.

Entendemos que já não cabem, e principalmente não cabem em nossa realidade baiana contemporânea, instituições culturais isoladas, que as iniciativas culturais se fortalecem com as parcerias, e hoje temos, na Academia de Letras da Bahia, parceiros importantes para as nossas realizações, como a Secretaria de Cultura da Bahia, a Fundação Pedro Calmon, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, a Fundação Casa de Jorge Amado, a Universidade Federal da Bahia, a Universidade Estadual da Bahia, a Universidade Estadual de Feira de Santana, a Brasken, a Eletrogóes, e o Goethe Institut.

Então, senhores fundadores da Academia de Letras de Itabuna, o que fazeis nesta noite solene, e esperamos todos que de fato assim seja, é inaugurar não uma agremiação reservada aos seus eleitos, mas instituir, por meio de vosso compromisso acadêmico, um poderoso instrumento de disseminação das letras, da literatura e da cultura em seu sentido mais amplo, a favorecer não apenas a vossa encantadora cidade de Itabuna, mas toda a vossa ampla, bela e fecunda Região do Cacau, a beneficiar a própria Bahia e o próprio Brasil, já tão enriquecidos ambos por vossa preciosíssima literatura.

A vossa academia — se me permitis, a nossa academia, já que me concedeis o privilégio e a honra de me tornar vosso membro correspondente — herda a tradição de uma literatura poderosa, tão poderosa que valeria, ela isolada, por toda uma literatura nacional. Bem mais que pelo poder econômico do cacau, tantas vezes assolado pela devastadora praga da vassoura-de-bruxa, terá sido a força impressionante e a excepcional qualidade da vossa literatura a inspirar Adonias a proclamar estas terras sul-baianas de Nação Grapiúna. Cedesse eu, neste momento, à tentação de citar, um por um, todos os grandes escritores e poetas, mortos e vivos, que nasceram nestas terras cacaueiras do Sul da Bahia, os chamados grapiúnas, e certamente transformaria estas breves palavras de abertura de vossa solenidade, numa interminável proclamação de nomes notáveis. Permiti-me, entretanto, citar apenas quatro dos que partiram e jamais partirão, e que se encontram entre os patronos desta nova academia: o próprio Adonias Filho, Jorge Amado, Sosígenes Costa e Jorge Medauar. Por meio deles, homenageio todos os outros, inclusive e principalmente os que estão vivos e produtivos, a nos surpreender a cada instante com o vigor do seu talento. Permiti também, e eu o reivindico como um favor pessoal, que eu agradeça à minha editora e amiga Maria Luiza Nora, e ao meu amigo e confrade, poeta e escritor Cyro de Mattos, e por extensão a todos vós por vossa generosa concordância, o privilégio do título que esta noite me é concedido.

Ditas estas palavras, só me resta vos desejar que vosso Rio Cachoeira vos inspire, como inspirava o Rio Cefiso a Platão e seus discípulos, e que possais realizar com vossa academia, com nossa academia, todos os altos desígnios que honram a vossa tradição literária.

Bráulio Xavier Filho

arcAramis Ribeiro Costa

Quando nasci tive um problema de saúde e fui levado às pressas ao Dr. Bráulio Xavier. O prognóstico era dos mais sombrios — ele foi muito franco a esse respeito —, mas conseguiu infundir, logo de saída, nos meus pais, uma confiança ilimitada. Formulou e, graças a essa fórmula — guardada durante muito tempo com muito carinho por meu pai —, eu me saí bem desse que poderia ter sido o primeiro e o último entrave da minha vida.

Depois disto, tornou-se o pediatra da família, meu e das minhas duas irmãs, procurado sempre com ansiedade todas as vezes que havia desde a menor suspeita de doença até os nossos mais graves problemas de saúde. Curioso que foi ele quem, sem querer, deu o nome à minha irmã mais moça. Na hora de escrever uma receita para Araíma, ainda de meses, por engano escreveu Arimaia. Cientificado do erro, ia corrigi-lo, quando meu pai teve a ideia:

— Deixe, Dr. Bráulio. Será o nome da próxima.

Dessa forma — coisa inédita —, a futura cliente teve o nome escrito numa receita pelo pediatra, antes mesmo de existir.

Para meus pais não havia nem podia haver outro médico para os filhos. A sua palavra era a definitiva e, fosse o que fosse que ele dissesse, era sagrado. O nome de Bráulio Xavier era pronunciado na minha casa, principalmente por meu pai, com um respeito, um carinho, uma admiração e uma gratidão que chegavam a ser comoventes.

Ele foi a primeira imagem de médico que tive diante de mim, curvado sobre o meu corpo a auscultar-me o coração e os pulmões, a percutir-me o tórax e o abdome, a me mandar abrir a boca bem grande com a língua para fora, para que ele pudesse ver lá dentro com a luzinha, a desvendar-me os segredos da saúde e da doença, procedimentos que, milhares e milhares de vezes na vida tive — e ainda tenho — de fazer, eu próprio, com outras crianças, ao me tornar também um pediatra.

Seu consultório era no Edifício Piedade, numa época em que, ao longo da comprida Avenida Sete, notadamente na Rua Chile, se concentravam os consultórios elegantes da cidade, e não apenas os consultórios médicos, também os odontológicos e os escritórios de advocacia. O dele, no mesmo andar do consultório de outro famoso pediatra, o Dr. Fernando Chagas, possuía três salas e era muito bem montado. Da janela da sala de espera, guardada por sua fiel atendente Lúcia, verdadeiro cão de guarda que não deixava passar um único paciente sem pagar a consulta, nem mesmo para entregar resultado de exame, eu me divertia em ver, lá embaixo, o bem cuidado jardim do Largo da Piedade, com suas estátuas e sua fonte, os prédios do Instituto Geográfico e Histórico, do antigo Senado, do Gabinete Português, da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, da Secretaria de Segurança Pública, da Escola de Música dos irmãos Jatobá, da Faculdade de Ciências Econômicas, da Igreja de São Pedro; e ver principalmente os carros e as pessoas que passavam, como se fossem carros e pessoas de brinquedo, de tão pequenos que me pareciam de lá do alto.

Um dia um amigo muito querido, que morreu prematuramente aos quarenta e sete anos de idade, e que também era cliente do Dr. Bráulio, jogou por brincadeira um pedaço pontiagudo de louça de vaso sanitário em minha direção e o objeto veio com sua ponta perigosa diretamente ao meu joelho esquerdo, fazendo uma ferida lácero-contusa profunda sob a rótula, que imediatamente me levou ao chão, banhado de sangue, transido de dor, sem poder movimentar a perna. Foi uma das maiores dores físicas que já senti. Parecia que a ponta da louça havia penetrado até o osso e afetado as estruturas ósseas. Não havia, naquele tempo, além do hospital público de emergência geral, o extinto Hospital Getúlio Vargas, sempre sobrecarregado, serviços de emergência pediátrica na Cidade do Salvador. Levado na mesma hora às pressas para o consultório do Dr. Bráulio Xavier, ele colocou sobre a minha perna atingida um radioscópio. Com aquele seu aparelho, o pediatra pôde, naquele momento, garantir aos meus pais pela integridade das estruturas ósseas do meu joelho, passando a cuidar unicamente da ferida. Isso, que aconteceu nos anos cinquenta do século passado, é algo notável, porque ainda hoje, com a enorme evolução técnica alcançada pela medicina, não sei de nenhum consultório pediátrico que possua um radioscópio, e possa fazer um diagnóstico tão imediato e tão preciso sobre uma contusão seguida de ferimento com a possibilidade de dano de estrutura óssea.

De outra feita, fui atingido por uma pedra na cabeça. Também levado ao consultório do Dr. Bráulio, lá mesmo ele fez o curativo necessário e deu um “ponto falso”, como se dizia na época, com esparadrapo, resolvendo a dramática situação sem necessidade de sutura. Estes exemplos, que talvez surpreendam os pediatras de hoje, que não costumam fazer tais procedimentos em seus consultórios, encaminhando essas ocorrências para os inúmeros serviços de emergência de pediatria da cidade, demonstram como era bem equipado o consultório do Dr. Bráulio Xavier, naqueles distantes anos cinquenta do século do século XX. Na terceira sala, que era a da enfermagem, ele fazia, com a ajuda de uma enfermeira de nome Mariá, alguns procedimentos que também hoje poucos pediatras realizam em seus consultórios, como nebulizações, aplicações de injeção, curativos e aplicações de infravermelho, esta última uma terapia que, naqueles tempos ainda muito empíricos e de menos recursos farmacológicos, era largamente empregada. Era, sem dúvida, um dos mais bem equipados senão o mais bem equipado consultório de pediatria da Cidade do Salvador. Não era à toa, portanto, que para ali acorresse grande parte da clientela rica da cidade, num tempo em que não havia planos de saúde, e todas as consultas eram particulares. Um dia, muito tempo depois, ele me disse:

— Eu posso não ter tido a maior clientela da Bahia. Mas tive, com certeza, a maior clientela pagante.

E me afirmou ter tido, no seu consultório, mais de cinquenta mil clientes, ainda hoje uma marca significativa para qualquer pediatra.

Tento vê-lo neste momento como eu o via quando menino. Guardo, por exemplo, a imagem das suas chegadas ao consultório, impecavelmente vestido em traje completo, em geral azul-marinho, logo cercado pelos representantes de laboratório, que um dia iriam lhe conferir uma placa em reconhecimento ao atendimento sempre cortês e amigo que ele lhes dispensava. Entrava com eles por uma porta do seu conjunto de salas sem passar pela sala de espera. Mas lembro principalmente dele dentro do consultório, de gravata e comprido jaleco branco, exercendo com atenção, competência e zelo as suas funções de pediatra.

Vou descrevê-lo como eu o via naquela época. Era alvo, um pouco avermelhado, de baixa estatura, atarracado, os ombros muito largos, os cabelos lisos alourados, os olhos muito vivos e penetrantes e a voz pausada, um pouco anasalada e forte, uma voz que, apesar de me parecer vir muito do nariz, me parecia também vir de longe, muito longe. Examinava com atenção e cuidado, sem nenhuma pressa, obedecendo rigorosamente a um método de exame que avaliava, parte por parte, a criança inteira. Depois, quando voltava para a sua mesa-secretária, dava as explicações necessárias sobre a doença com clareza e segurança e, antes mesmo de prescrever a receita, destrancava e abria as gavetas da mesa, onde guardava as amostras-grátis dos remédios, em busca do que pudesse oferecer ao cliente.

Era sempre muito educado e risonho. Gostava de rir e fazer rir. Contava casos. Ria inclusive do pai que, tendo sido rico, tinha sido também muito sovina, a ponto de mandar o empregado colher cajás assoviando, para, desta forma, ter certeza de que o molecote não o estava roubando, chupando as frutas às escondidas. Recordo que Dr. Bráulio contou isto ao meu pai no final de uma consulta e soltou a sua gargalhada sonora, de quem se divertia à larga com o episódio. Uma vez, também muito tempo depois, ele me disse, após um de seus ditos de espírito que, na verdade, não magoavam ninguém:

— Perco um amigo, mas não perco uma piada.

Lembro-me também que, certa vez, ele disse ao meu pai que praticara boxe quando jovem, daí a força dos seus músculos. Em seguida, após a declaração, arregaçou as mangas do jaleco e da camisa e exibiu o bíceps direito contraído, um braço efetivamente muito forte. Aliás, fazia questão de mostrar sua força nos apertos de mão, e divertia-se quando o cumprimentado — ou torturado — não suportava o aperto. Então vinha aquela gargalhada tão simpática e que era também um modo de ser diante da vida e das pessoas. Mas tinha um vício, do qual não conseguia se livrar: entre um cliente e outro, refugiava-se numa salinha secreta do consultório — seria uma quarta sala no complexo que ocupava — para fumar.

Mesmo não havendo emergências pediátricas disponíveis na cidade, não se costumava, naquele tempo, incomodar o pediatra em casa por qualquer motivo, nem mesmo havia o hábito de se telefonar — ah, os celulares! — com a frequência e a naturalidade dos dias atuais para o médico dos filhos. Pelo menos não se fazia isto na minha casa. Abaixava-se a temperatura, se fosse o caso, dava-se um analgésico, um antiespasmódico, um antiemético ou o que se julgasse necessário, medicações que eram do conhecimento de todos, e aguardava-se o horário do consultório. Gripe e diarréia, por exemplo, tratavam-se em casa. A gripe com aspirina e chá de eucalipto, a diarréia com chá de erva cidreira, torrada e canja de galinha. Hoje, ao primeiro espirro e ao primeiro cocô mole, corre-se à emergência. Mas, uma noite, já não me recordo o motivo, fui levado por meus pais à casa do Dr. Bráulio, um pequeno edifício de três ou quatro andares no meio de um enorme terreno no Politeama, todo ele ocupado pela família Xavier. Não foi fácil conseguir que alguém nos viesse atender ao portão de ferro, que ficava tão distante do pequeno edifício. Porém, vencida essa dificuldade, o Dr. Bráulio nos recebeu com a mesma simpatia, com a mesma atenção, com o mesmo riso simpático do consultório. Foi nesse dia, no apartamento dele, que eu vi pela primeira vez um televisor ligado e fiquei deslumbrado ao assistir, na telinha, as imagens em preto, branco e borrado do único canal de televisão que havia na Bahia. O que significa que isto deve ter ocorrido no final de 1960, quando eu tinha dez anos de idade e a TV Itapoá acabara de inaugurar o Canal 5, pois, logo depois, para enorme alegria da família e também dos televizinhos que abarrotavam as janelas da nossa casa, meu pai comprou o nosso televisor.

Verifico hoje, fazendo as contas, que o Dr. Bráulio Xavier ainda não havia completado quarenta e cinco anos de idade, quando fui levado a ele pela primeira vez. Mas era um experimentado profissional de vinte e três anos de formado, com vasta e fiel clientela, e um bom conceito entre os seus próprios colegas.

Seu nome completo era Bráulio Xavier da Silva Pereira Filho. O pai, o conselheiro e desembargador Bráulio Xavier da Silva Pereira, foi presidente do Tribunal de Apelação e Revista e assumiu o governo da Bahia em substituição a Aurélio Viana após o nefasto bombardeio da Cidade do Salvador, no início do século passado. Um homem famoso, poderoso e rico. Por isso mesmo, para diferenciar um do outro, enquanto o pai existiu, ele foi conhecido como Bráulio Xavier Filho ou simplesmente Braulito. Mas, foi como Dr. Bráulio Xavier que se tornou conhecido e respeitado na Bahia a partir da década de trinta, exercendo a sua especialidade, a pediatria, tornando-se um dos três ou quatro pediatras baianos de maior conceito da sua geração, uma geração de pediatras notáveis.

Bráulio Xavier Filho nasceu em 27 de outubro de 1905. Seguindo a própria vocação, sem se deixar influenciar pela atuação do pai na magistratura e na política, decidiu ser médico, entrando para a tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, já com a atenção direcionada para a pediatria que, naquele tempo, tinha, no professor Martagão Gesteira o nome baiano mais respeitado nessa especialidade. Formou-se em 1927 numa famosa turma de futuros médicos baianos célebres, como José Silveira, Hosannah de Oliveira, Alício Peltier de Queiroz, Thales de Azevedo, Jorge Valente e vários outros. Logo no ano seguinte, valendo-se da boa situação financeira do pai, partiu para estudar em Paris no Hospital des Enfants Malades com o professor Antoine Bernard-Jean Marfan, considerado à época a maior autoridade mundial em pediatria.

Era o tempo das primeiras experiências com a amidalectomia, e um caso de morte do paciente em pleno ato cirúrgico presenciado pelo jovem médico logo ao chegar, fizeram-no, para o resto da vida, extremamente cauteloso no recomendar a retirada das amídalas dos seus pequenos pacientes, fazendo tudo para tratá-las antes da condenação à cirurgia, exatamente como hoje, tanto tempo depois e passado o modismo da intervenção cirúrgica nas amídalas, costumam agir os pediatras.

Voltando ao Brasil, passou a trabalhar no Asilo dos Expostos, na Pupileira, sob o comando do professor Martagão Gesteira, tomando conta de uma enfermaria. Daí passou para o Hospital Santa Isabel e, nessa fase, dedicou-se mais à radiologia. Mas continuava tomando parte de congressos e simpósios médicos de pediatria, fazendo palestras e apresentando trabalhos na especialidade. Foi um dos fundadores da Sociedade de Pediatria da Bahia. Em 1934 fez concurso de docência em pediatria, pela Faculdade de Medicina da Bahia, sendo aprovado em primeiro lugar. Com a fundação da Escola Baiana de Medicina, tornou-se o seu titular de pediatria.

Tendo sido seu cliente, voltei a encontrar o Dr. Bráulio muitos anos depois, agora como estudante de medicina, participando do seu serviço de pediatria no Hospital Santa Isabel já a partir do terceiro ano, e sendo seu aluno de pediatria no quinto ano do curso médico da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública. Nessa fase, convivemos quase diariamente durante quatro anos, de 1971 a 1974, quando me formei. A idade e os percalços da vida haviam-no alquebrado bastante, mas era ainda o mesmo profissional dedicado e competente, o mesmo homem bem vestido, educado, cordial e, acima de tudo, bem-humorado, que continuava preferindo perder um amigo a perder uma piada. Sei que gostava de mim, tratava-me muito bem, com uma deferência muito especial, embora, uma certa feita, tivesse dado ouvidos à intriga de uma de suas assistentes, e me repreendido dura e injustamente. Embora eu estivesse coberto de razão, e nada houvesse, na realidade, que me recriminasse, o que tornava aquela reprimenda inaceitável, em respeito a ele, a tudo que representou na minha vida, e também em respeito à memória de meu pai, que tinha por ele uma verdadeira veneração, não revidei com o ímpeto que pedia a minha indignação pela injustiça, porém com comedimento, procurando mostrar a impropriedade da acusação que me fazia. Graças à minha atitude o episódio não foi adiante, e não interrompemos o nosso bom relacionamento.

Para ser fiel à verdade, não posso dizer que Bráulio Xavier fosse um professor brilhante, no sentido que se dava ainda no meu tempo de estudante a um determinado tipo de professor, aquele que conseguia arrancar aplausos dos alunos após suas aulas. Falava baixo, não explanava com grande fluência, não prendia a atenção da turma, na verdade não possuía nem o dom da oratória nem da didática de auditório. Mas sua atuação como professor de pediatria da Escola Baiana foi longa e eficiente. Cercou-se de auxiliares valiosos, como Antônio Carlos Barbosa, meu mestre e meu amigo — este sim, um didata e um orador brilhante —, Maria Alice Firpo, Maria Piedade e, mais adiante, seu próprio filho, no qual manteve a tradição do seu nome, Bráulio Xavier da Silva Pereira Júnior — conhecido por todos como Braulinho, também um pediatra de ampla clientela e uma extraordinária figura humana —, e a equipe era uma das mais atuantes e mais organizadas da escola de Nazaré, trabalhando principalmente nas enfermarias e nos ambulatórios do velho Hospital Santa Isabel. Longe das salas de aula, nas enfermarias, lidando diretamente com o paciente, é que o Dr. Bráulio mostrava o seu vasto conhecimento de pediatria e o muito que acumulara de experiência na prática diária na profissão. À cabeceira dos enfermos discorria com amplitude e profundidade sobre a doença do pequeno paciente, ensinando sem reservas a quem quisesse aprender, alertando para as situações equívocas e, sobretudo, chamando a atenção para o perigo da vaidade no exercício da medicina. Costumava dizer que um paciente pediátrico deve sempre ser examinado da cabeça aos pés, independentemente da queixa ou da doença, e que a experiência de um médico se avalia como a experiência de um piloto de avião. A do piloto pelas horas de vôo, a do médico pelas horas passadas diante dos leitos dos pacientes.

Possuidor de uma sólida cultura geral, de certa forma o Dr. Bráulio seguiu a tradição dos médicos baianos até a primeira metade do século XX, ao se dedicar também à literatura. Lia muito, gostava de conversar sobre literatura. O seu alentado romance Vidas em Tumulto, de quatrocentas e nove páginas, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro, em 1941, surpreende pelo estilo, pela fluência da narrativa, pela estrutura e pelo desenvolvimento, como se o seu autor fosse um escritor experimentado, e não alguém que estava realizando a sua única experiência de ficcionista.

O Dr. Bráulio Xavier da Silva Pereira Filho morreu em 1976, um ano após ser aposentado compulsoriamente da Escola Baiana de Medicina. Como se a vida tivesse perdido o sentido ao lhe tirar esse último vínculo com a pediatria. Foi, sem nenhuma dúvida, um dos grandes vultos da medicina baiana.

A crônica de Luís Henrique

arcAramis Ribeiro Costa

Surgida nas páginas dos jornais como um leve e despretensioso comentário do cotidiano, a crônica, no Brasil, adquiriu categoria de gênero literário por dois motivos fundamentais. O primeiro deles, o indiscutível talento dos seus principais cultores, a começar dos pioneiros José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio, seguindo por diante numa trajetória luminosa de nomes nacionais como Humberto de Campos, Antônio Maria, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros, vários outros, sem contar os cronistas diários de vasto público cativo em seus estados, como, na Bahia, Adroaldo Ribeiro Costa e Giovanni Guimarães. Os autores das crônicas que apareciam ocupando os espaços ociosos das nossas folhas diárias eram também, muitas vezes, respeitados ficcionistas, ou poetas, ou ambos, embora houvesse, aqui e ali, como no caso de Rubem Braga, os apenas cronistas, mas cujo estilo seguro, onde não faltavam correção gramatical, clareza e fluência, bem como o valor intelectual e a respeitabilidade do nome, tornavam-nos merecedores do crédito do imenso público para o qual a crônica habitualmente é dirigida.

 

O outro motivo foi a própria circunstância da crônica diária, um espaço que o cronista era obrigado a ocupar com o seu texto, tivesse ou não assunto, quisesse ou não tratar das sugestões que lhe apresentava o cotidiano. Não tendo outro compromisso além do preenchimento daquele espaço e o entretenimento dos leitores, era natural que usasse e abusasse de talento e imaginação, para ampliar ou dar colorido a episódios ou circunstâncias da realidade, ainda que insignificantes ou não merecedores de um registro. Daí para os textos de cunho ficcional ou poético, de memória ou de registro de costumes, com todos os ademanes de estilo a que a melhor literatura tem direito, foi um passo. Verdade que, escrevendo diariamente, o mais comum era a crônica malcuidada e descartável, que morria ao cair da noite, com o próprio jornal onde se estampava. Mas, lá um dia, com maior ou menor frequência, a depender dos pendores e da capacidade do cronista, surgia a página merecedora do recorte e da releitura. A página que transcendia o cotidiano, ganhando estofo de perenidade. É natural que os cronistas não quisessem que produções como estas, não raras vezes pequenas obras-primas, ficassem para sempre esparsas e perdidas no jornal. E passaram a selecioná-las, publicando-as em livros. Já o primeiro dos nossos cronistas, José de Alencar, assim procedeu, reunindo seus melhores folhetins, que desta forma eram chamadas as primitivas crônicas, no volume Ao Correr da Pena. Assim terá nascido o gênero literário, genuinamente brasileiro, porque sem similar no mundo, e tão do agrado do público do Brasil: a crônica brasileira. Um gênero que, a despeito do seu evidente declínio, decorrente da diminuição dos espaços nos jornais impressos e da extinção do cronista diário, ainda respira na imprensa, agora semanalmente, na habilidade de malabaristas do assunto, alguns reproduzidos por diversos jornais impressos em vários estados brasileiros, o que leva a crer numa permanência de um público leitor fiel a esses escritos. Por outro lado, não se pode esquecer que a mídia eletrônica, em especial os blogs, possibilitou o surgimento de uma infinidade de cronistas, amadores ou não, diários ou não, talentosos ou não, que têm no velho gênero do jornal impresso a forma preferida de expressão no movimentado e rapidamente renovado mundo digital.

 

Com tal liberdade de ação, com tão diversificada roupagem, era natural que a crônica se confundisse com a memória, a anedota e o artigo, mas, sobretudo, com os gêneros literários que, didaticamente, passaram a lhe fazer fronteira: de um lado a poesia, do outro o conto. A semelhança com a poesia deu-se por meio dos textos poéticos e das crônicas em versos. Já a semelhança com o conto deveu-se ao limitado, porém evidente núcleo ficcional de grande parte delas, um enredo onde pode haver de tudo, a pura narrativa, a narrativa entremeada com o diálogo, ou o puro diálogo, ser linear ou remissivo, narrado na primeira ou na terceira pessoa, enfim, utilizando-se de todos os recursos técnicos e narrativos do conto, em espaço reduzido.

 

No abrir das comportas do movimento modernista, evidenciou-se, com maior, menor ou nenhum talento, na literatura brasileira, um tipo de conto sem enredo algum, que apenas exibe linguagem e estilo, com leves tinturas poéticas e pálidas incursões filosóficas, quando não extensos diálogos de circunstância que não levam nem personagens nem leitor a parte alguma, ou ainda meras descrições de paisagens, ambientes ou estados de espírito, formas literárias que, se dentro de certos limites de espaço, bem poderiam, do ponto de vista estrito do tratamento e do tema, ser enquadradas no gênero crônica. Mais tarde ganha inesperado relevo um conto pequeníssimo que os autores passaram a denominar de miniconto, mas que igualmente poderia ser chamado de crônica. A partir dessas formas, as semelhanças entre conto e crônica ficcional demolem as tênues fronteiras que os separam, a ponto de, em certas circunstâncias, não ser possível uma classificação.

 

É preciso salientar ainda que a crônica semanal do jornal impresso, possibilitando ao cronista um texto melhor cuidado, e a escolha de temas menos inspirados nas notícias e circunstâncias do dia, o que vale dizer, teoricamente mais perenes, fez com que a crônica perdesse um pouco aquela sugestão de conversa íntima com o leitor, ou aquela outra de estar o cronista numa roda de amigos a contar descontraidamente os seus casos. Isso favoreceu ainda mais a prática da crônica literária, a que até já nasce com a intenção de um futuro livro. A crônica formalizou-se.

 

No tipo específico da crônica que se confunde com o chamado miniconto, coloca-se Luís Henrique, nome com o qual assina as suas ficções o conceituado historiador Luís Henrique Dias Tavares. Luís Henrique, a despeito das longas interrupções nessa atividade, tornou-se um dos principais cronistas baianos no século XX. Podemos acompanhar a sua trajetória no gênero por meio das coletâneas publicadas em livro, em número de cinco.

 

A primeira delas foi intitulada Moça Sozinha na Sala, (São Paulo, Martins,1961), setenta e seis crônicas publicadas no Jornal da Bahia de setembro de 1958 a janeiro de 1961. São páginas curtas, algumas, como “Despedida”, extraordinariamente curtas, como se o cronista apenas precisasse de alguns poucos parágrafos para pintar o seu cromo. Ali estão, nas páginas de Moça Sozinha, as características que iriam acompanhá-lo ao longo da sua atividade no gênero: a contenção, o olhar atento às pessoas e às circunstâncias, a capacidade de fazer uma ótima crônica a partir de quase nada, como em “Composição em Inglês”, e, sobretudo, a forte inclinação para a crônica ficcional. Há páginas, como a primeira da coletânea, “Um Homem no Mar”, e “A Professora, o Médico e o Padre”, que bem poderiam tornar-se embriões ficcionais de futuros contos, ou futuras novelas. Isso, aliás, ocorreu à crônica “O Senhor Capitão”, núcleo inspirador da sua admirável novela de mesmo nome, uma das obras-primas da novelística baiana. Viajante contumaz, a primeira seleta revela, igualmente, outra vertente do gênero que acompanharia esse cronista em toda a sua trajetória: a crônica de viagem. Moça Sozinha na Sala mereceu o prêmio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras.

 

A essa coletânea segue Menino Pegando Passarinho, (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1964), dessa feita reunindo oitenta e cinco crônicas, também originalmente publicadas no Jornal da Bahia. Nessa seleta vê-se um Luís Henrique mais cronista que ficcionista, na acepção da crônica como registro do cotidiano. Naturalmente que as páginas de nítido colorido ficcional lá estão, como “Uma Caçada”, com linguagem, tratamento e estrutura de conto, porém há um número maior de crônicas que não sugerem ficção nem com ela se confundem. Como, por exemplo, “A Gata e os Gatos”, motivada por uma gata persa premiada em Paris; ou “A Mulher”, um puro devaneio que, embora sugerindo a fala de um personagem não identificado, apenas divaga sobre a mulher, suas qualidades e defeitos; ou “Dou o Rio ao Meu Bem”, um texto poético, quase lírico. É igualmente marcante a presença do eu-narrador, onde o cronista se põe, participativo e íntimo. Exemplo, a divertida “A Vez que Pousei na Casa do Burza”. Por fim registram-se, nessa seleta, diálogos, uma crônica epistolar e outra em versos. Ou seja: uma variedade maior de tipos de crônica, como se essa fosse uma fase de deliberada experimentação e utilização dos recursos do gênero.

 

O livro a seguir intitulou-se Homem Deitado na Rede, (Rio de Janeiro, Organização Simões, 1969), reunião de quarenta crônicas publicadas em A Tarde. Talvez esse seja, como conjunto, o mais encantador dos seus livros de crônicas. Como no anterior, aqui elas também são, em sua maioria, verdadeiramente crônicas, naquele sentido do registro do cotidiano acima referido. Mas igualmente não falta a crônica ficcional, a confundir-se com o atual miniconto. Encontramos, por exemplo, outra “História de Caçada”, essa melhor que a do livro anterior, e “Homem Bêbado de Amor” que, com um pouco mais de enredo, deixaria de ser uma bela crônica para transformar-se num ótimo conto. Sem dúvida o ficcionista está presente nesse livro, como nos demais, evidenciando-se até mesmo no simples esboço de um personagem, como “O Poeta Mastiga o Luar”, personagem tão interessante e tão rico que bem merecia a sua retomada, no contexto de uma ficção mais longa. Mas, na sua maioria, nessa coletânea como na outra, são crônicas que se esgotam e se completam como crônicas: saborosas e bem humoradas, como “A Mulher Parada”; poéticas, como “Conversa no Vento e na Areia”; intrigantes, como “O Rapaz que Olhava o Relógio”; ou descritivas com acento de melancolia, como “Mistério da Moça na Madrugada”. E, claro, a presença — quase indispensável nesse cronista —, das crônicas de viagem, marcadas, como também do seu feitio, pela valorização do pitoresco dos episódios e das circunstâncias, em detrimento da paisagem.

 

A coletânea seguinte, Almoço Posto na Mesa, (Salvador, Empresa Gráfica da Bahia, 1990), veio não apenas confirmar como definir a tendência forte do cronista para a crônica ficcional, a começar pela conjugação, num mesmo livro, de contos e crônicas, a saber, dez contos e vinte e quatro crônicas, com algumas páginas que bem poderiam pertencer a um ou outro gênero. O exemplo mais evidente é o texto-título, que abre o volume, uma fábula surrealista e metafórica escrita nos anos mais duros da ditadura militar, quando, na visão do autor, o Brasil almoçava a si próprio, autodestruindo-se. A página, dramática, irônica, terrível, tem a extensão de uma crônica, porém estofo e densidade de conto. Tanto que, entre tantos bons contos do autor, foi escolhida para figurar na antologia baiana de contos, O Conto em Vinte e Cinco Baianos, organizada por Cyro de Mattos, (Ilhéus, Editus, 2000). Mas as crônicas dessa coletânea em geral “contam”, narram algo, mesmo quando fortemente inclinadas para o lirismo, como “Outubro das Acácias”, e “Conversa para Despertar Mulher”.

 

Dessa forma, não surpreendeu o último desses livros, Sete Cães Derrubados, 59 crônicas e o conto O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel, (Salvador, EDUFBA / Casa De Palavras, 2000). É uma seleta da produção do cronista Luís Henrique no jornal A Tarde, às segundas-feiras, de 1985 a 1994. Já o conto teve a sua primeira publicação na Revista da Academia de Letras da Bahia nº 38.

 

O que vemos em Sete Cães Derrubados é o mesmo cronista das coletâneas anteriores, com a mesma capacidade de construir ótimas crônicas a partir de episódios ou circunstâncias insignificantes, com uma narrativa clara e fluente alicerçada numa linguagem correta, porém de fácil acesso ao grande público, atributos que lhe norteiam o estilo encantador que o gênero exige. Como nas outras coletâneas, representativas de outras fases da sua atividade de cronista, as suas crônicas fixam, descrevem, poetizam, recriam ficcionalmente, mas, sobretudo, contam algo: um caso, como “O Budião Azul”; uma cena cotidianamente repetida, seguida de uma impressão pessoal, como “A Moça das 7:45”; um encontro insólito, como “Uma Senhora Aparentada”; uma contemplação de paisagem, como “Penha”; uma aventura da infância, como “Campeonato de Futebol”. São fragmentos de vida, como a comovente “Pão-de-ló de Sinhá”; são instantâneos humanos em sua humana condição, como em “Procissão”; são registros de momentos pungentes e quase históricos, como “A Morte do Poeta”, onde o poeta Godofredo Filho despede-se da vida. E de repente o texto ficcionalmente melhor trabalhado, a confundir os que anseiam por classificações — crônica ou conto? Difícil dizer: “Miguel” é, acima de tudo, uma bela página.

 

O volume Sete Cães Derrubados apresenta uma produção madura e variada desse cronista que optou pela crônica ficcional, e que, em geral, nos conta algo. Um livro precioso encerrado com um conto que talvez seja o melhor do contista Luís Henrique, “O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel”. E que também demonstra algo curioso: se na crônica o cronista conta, no conto registra a cidade, as pessoas, os tipos, os costumes, como um cronista. O que é mais uma justificativa para andarem assim confundidos, na obra desse escritor maior da Bahia, as crônicas e os contos.

O conto de Herberto Sales

arcAramis Ribeiro Costa

O contista Herberto Sales já encontrou o romancista Herberto Sales a meio caminho. Vinha de romances consagrados, entre os quais o primeiro, o famoso Cascalho, epopeia de garimpeiros nas lavras e grunas de Andaraí, obra que, rapidamente, lhe granjeara renome nacional. Cascalho fora dado a público em 1944, no Rio de Janeiro, pelas Edições O Cruzeiro, e foram romances também os dois livros seguintes, Além dos Marimbus (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1961) e Dados Biográficos do Finado Marcelino (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1965). O contista só aconteceria em 1966, ou seja, vinte e dois anos após a publicação do livro de estreia. Para participar de um concurso, Herberto escreveu três contos: “Quando o Homem Ama”, “O Paciente” e “Cachaça”, três relatos curtos e dialogados que, se não lograram os prêmios do certame obtiveram outro maior, que foi o de estimularem o autor a prosseguir no gênero. E, em pouco tempo, estava concluído o conjunto dos dezessete textos que seriam publicados sob o título de Histórias Ordinárias (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1966). Mas por que o contista tardara tanto, quando tantos outros ficcionistas iniciam-se justamente pela página de pequeno fôlego, antes de aventurar-se no vôo mais largo do romance? É o próprio escritor quem explica, no seu SubsiDiário/ Confissões, Memórias & Histórias (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1988):

“Sempre achei muito difícil escrever um conto. Tentava, tentava, tentava, e acabava rasgando e jogando fora. Por intuição, e depois, sentindo sem exagero na carne a experiência, cheguei à conclusão, embora não à novidade — esta: só escreve um bom conto quem sabe realmente escrever. Quer dizer: quem tem o domínio da língua. Quem tem — escrevendo — o senso da medida. Ou melhor: o senso clássico e tomístico da medida. O arpejo certo. Sem uma nota a mais ou uma nota a menos. O buraco da agulha e a linha. Quase que a conta matemática da escrita.”

Foi essa conta matemática da escrita, acertada nos três contos já citados, a nota dominante das suas Histórias Ordinárias, um título sugerido pelo dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, com a aprovação imediata do autor, e, sobre o qual, há também que se questionar, principalmente pelas conotações da palavra ordinárias. O fato é que, de ordinárias nada tinham aquelas histórias no sentido da má qualidade, enquanto que, pelos costumes da época e dos lugares onde várias delas se passam, bem poderiam ser ordinárias na acepção de ocorrência ordinária, habitual, comum, como o episódio de “Emboscada”, que encerra o volume, um dos seus contos mais antologiados, e tão magistral quanto a passagem de Cascalho, onde o jagunço Zé do Peixoto é, também, emboscado e morto.

Seria quase impossível recontar, oralmente, o conto “Emboscada”. Ou melhor, poderia ser contado em pouquíssimas palavras, mas deixaria a impressão, em quem ouvisse, de se tratar de um conto pobre e sem nenhum interesse. Dois homens, um mais velho, Patuá, e um mais moço, Guido, caminham para emboscar o fazendeiro Pedro Neves. O mais velho está calmo, o mais moço nervoso. Todo o conto é o diálogo dos dois sobre a emboscada. Enquanto conversam, preparam-se e esperam. Finalmente surge a vítima, e eles atiram. Não há nada de interessante nisto. Entretanto a narrativa torna-se interessantíssima exatamente em função do diálogo, da descrição do ambiente e, sobretudo, do clima de expectativa e nervosismo durante o período da espera.

A reincidência do tema “emboscada”, primeiro no romance Cascalho e depois neste conto, indicaria a frequência da situação na época e nas terras em que tais histórias se passam. Mas, ainda assim, seria uma ocorrência ordinária apenas para aquela gente habituada à violência do garimpo daqueles tempos dos coronéis, e sua ilimitada sede de poder. O leitor contemporâneo, particularmente o urbano, não verá o ordinário desses episódios, nem mesmo neste outro sentido da palavra, surpreendendo-se, pelo contrário, com o inusitado e, às vezes, absurdo dos relatos. O mesmo se pode dizer das ocorrências urbanas. Embora uma ou outra, como em “Generoso, Generoso” — um mero encontro de amigos em diferentes condições financeiras —, o acontecimento possa ser considerado efetivamente comum ou ordinário, será difícil rotular desta forma, por exemplo, a história de “O Automóvel”, seu conto mais longo, cuja extensão e estrutura de trama beiram a novela, uma obra-prima de observação e sutilezas, capaz de fazer rir e pensar.

Maupassant, para condenar o recurso do acaso na ficção, dizia que não se deve deixar cair uma telha na cabeça de um personagem central. A exemplo de Monteiro Lobato, em seu famoso conto “O Comprador de Fazendas”, onde o vigarista Pedro Trancoso tira a sorte grande na loteria, Herberto, neste “O Automóvel”, ousando contrariar o mestre francês, deixa cair a telha na cabeça do personagem. Melhor: supera Lobato, e faz cair a telha duas vezes, ou, se quiserem, faz caírem duas telhas seguidas. Como em “Emboscada”, é possível resumir, em poucas palavras, o fio condutor deste enredo. Seu Raul é um modesto funcionário público, morador em Olaria com a família, a mulher e cinco filhos. Vivem de apertos quando, um dia, ele ganha um automóvel num sorteio — primeira telha. A vida da família passa a girar em torno do automóvel, com todos os problemas, mudanças, alegrias e decepções que ele proporciona, até que, pouco tempo depois, o veículo é destroçado na porta de casa, por um caminhão — segunda telha. Assim resumido, não se pode imaginar o quanto de riqueza narrativa possui este conto, o quanto ele desperta de interesse no leitor. Torna-se rico e interessante, em particular, pelo registro de pormenores do cotidiano, pela espontaneidade e procedência dos diálogos, e pela autenticidade dos personagens, extraordinariamente vivos e humanos em suas fraquezas e esperanças. Porém como se considerar ordinária ou comum a singularidade de alguém ganhar um automóvel num sorteio e perder, logo em seguida, esse mesmo automóvel, diante da própria casa, destroçado por um caminhão? Não fosse o extraordinário da circunstância, ou das circunstâncias, já que há mais de uma excepcional — o ganho e a perda do veículo —, não fossem, afinal, as duas telhas de Maupassant, e, certamente, este conto não aconteceria. Ocorre, portanto, nesse primeiro livro, o oposto do que acreditou o autor quando, em nota no início do volume, glosou o título geral dos seus escritos:

“Não se lerá aqui, nas histórias que estas páginas registram, nada de extraordinário. Nem a tanto poderiam elas aspirar, por lhes faltarem para isso engenho e fantasia. São simples casos. Coisas comuns. Histórias ordinárias.”

Está visto que não eram. Ou, se eram, deixaram de ser, pela distância do tempo e do ambiente, mas, sobretudo, pela perícia narrativa do mestre contista.

Encontrando o romancista Herberto Sales já pronto, senhor e mestre do seu ofício, o contista Herberto Sales tomou-lhe o estilo e, com ele, a linguagem seca, quase sem adjetivos, porém de amplas modulações, indo do escorreito e do erudito ao coloquial e costumeiro na região recriada. Sendo um observador sagaz do cotidiano, os seus contos, como os seus romances, tornam-se um registro quase obsessivo de quanto acontece à sua volta, como se o autor fosse um repórter que tivesse por missão documentar tudo sem distorcer a verdade, sem aumentá-la, sem diminuí-la, sem enfeitá-la com cores mais belas ou piorá-la com tintas ainda mais sombrias. Em Herberto o cinza não é azul disfarçado, mas cinza mesmo, o negro não é ausência de cor nem o branco é alvo. Cada coisa no seu lugar, na sua medida exata, ainda mais contido no conto do que no romance, contido em cada frase, em cada palavra nua e crua. Apesar disto tira humor de tragédias, como no originalíssimo “Duas Versões”, com seus dois tão inesperados desfechos. E também não esconde a sensibilidade nem a indignação, tampouco a emoção diante das injustiças ou dos sofrimentos, fazendo do seu trabalho, além de arte literária de altíssimo nível, um instrumento poderoso de denúncia. Se fosse repórter, as suas observações resultariam em duras reportagens. Sendo um ficcionista, recria a realidade na literatura, inserindo nela o registro dos costumes, fazendo-a documento de época e de lugar, reveladora da condição humana em seus mais íntimos, ínfimos e também maiores anseios e conflitos.

Diante de tais abordagens, seria lícito acreditar-se não se preocupar este contista demasiadamente com a urdidura do seu conto. Porém isto não é verdadeiro. Há tramas que resultam de cuidadoso artesanato, cujos elementos narrativos são peças que se encaixam e se completam, obtendo, no final, o efeito desejado. Veja-se este “Duas Versões”, aqui citado. O conto inicia com uma pergunta: “Finalmente, como teria João Sapucaia matado a mulher?” Note-se que o autor não põe em dúvida o assassinato, como não porá em dúvida, no corpo da narrativa, o motivo do crime. João Sapucaia, “garimpeiro, residente no povoado de Piranhas”, matou a mulher, D. Luzia, por ciúme dela com Coriolano, “um homem de dente de ouro, conhecido tocador de harmônica”. É um fato. E matou a facadas, também isto não é posto em dúvida. O que não se sabe é de que forma, exatamente, se deu o homicídio. Há a versão de Jorjão, e esta é a primeira a ser contada, onde João Sapucaia esfaqueia a mulher dentro de casa, enquanto recebe o seu compadre Isidro, que trazia um peru, para a festa de São João. João Sapucaia fica alternando entre ir lá dentro dar mais uma facada na mulher, até a derradeira, na goela, e a atenção ao seu compadre, na sala. O conto podia acabar aí, com a morte da mulher e o pedido para que Isidro o levasse para a cadeia. E estaria muito bem. Mas seria apenas o curioso relato de um crime passional, pouco mais trabalhado que uma notícia jornalística em página policial, ou o pormenorizado registro de um inquérito, numa delegacia de polícia. Então o autor, inesperadamente, conta a outra versão do assassinato, onde a mulher sai de casa correndo, já esfaqueada, e a última facada é dada em plena rua, diante de várias pessoas, inclusive do compadre Isidro, que vai chegando naquele momento. E o pequeno conto, que seria apenas divertido se permanecesse na primeira versão, cresce extraordinariamente em originalidade e interesse.

O que mais surpreende a quem estuda as páginas de ficção curta de Herberto Sales, das quais esta “Duas Versões” é uma das mais expressivas, é como ele consegue armar um conto com tão poucos incidentes narrativos, e ainda consegue tirar das circunstâncias — aparentemente pobres — o mais perseguido dos efeitos neste gênero literário: a surpresa.

Ainda em relação aos contos de Histórias Ordinárias, narrados, todos eles, na terceira pessoa e, indiscutivelmente, páginas de ficção e não simples relatos de experiências e sensações ou registros de acontecimentos reais, não se poderia esquecer a matéria-prima autobiográfica, sobretudo porque confessada no SubsiDiário, e não raro identificada — como em “Ordem de Pagamento”, as atribulações de um escritor para receber direitos autorais vindos da Bulgária, e “Memórias”, onde o personagem tenta, desesperadamente, ser um contista, sem êxito.

O livro de contos seguinte, intitulado pelo autor de Contos Folclóricos e modificado, pela editora, para O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos (Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1970), representa um trabalho singular na obra de Herberto Sales, pois permuta a recriação da realidade pessoal e circundante pela recriação de temas do imaginário popular, de raízes índias, negras e portuguesas, transmitidas através de gerações, pela oralidade, como Lobisomem, Caapora, Saci, Mãe-D’Água, Mula-Sem-Cabeça e outros. As histórias aproveitam-se, principalmente, das lendas dos encantados que lhes servem de protagonistas, daí a sua natureza folclórica. Não há, no entanto, como excluir este livro da sua contística, desde quando as suas páginas são verdadeiramente contos, nascidos da habilidade ficcional do autor, e não apenas transcrições da tradição oral. A nota inserida na primeira página do volume explica isto:

“Não são variantes, na acepção da pesquisa e da ciência; mas versões pessoais de ficcionista, literatura com motivações folclóricas, só: bichos, crendices, povo. Reinvenção do inventado; conto do contado, recontado sob outra forma, por outra boca: acrescentos do homem à obra que o povo faz. Como diz o próprio povo e reconhece: “Quem conta um conto aumenta um ponto”.”

São quinze contos vivos, movimentados, cheios de suspense, impregnados dos mistérios dos encantados, como em “Flor-do-Mato”, a caapora fêmea, que seduz e atrai, para o interior da mata, o solitário menino Janjão, roubando-o para sempre do seu avô, ou como em “O Mistério das Sete Estrelas”, onde sete indiazinhas são transformadas no Sete-Estrelo pela estrela Ueré. Embora também autor de literatura infantil, Herberto Sales não dirigiu estas páginas à infância, como fez Monteiro Lobato, quando tratou de temas semelhantes, em O Saci e Histórias de Tia Nastácia. Mas deu-lhes um especial colorido num estilo que lembra o contador do povo contando histórias, “realizando uma adequação de linguagem em que o clássico se funde com o popular”, como observa um comentário na primeira edição do livro.

A recriação da realidade na ficção de pequeno fôlego, quase com as mesmas características das Histórias Ordinárias, teria o seu retorno, no mesmo ano da publicação de O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos, em Uma Telha de Menos (Rio de Janeiro, Editorial Tormes, 1970), um conjunto de dezoito contos curtos, cujo título geral, apesar de sugestivo e instigante, não pertence, como no primeiro livro, a nenhum deles. A linguagem, marca do autor, permanece a mesma em seu rigor e precisão, bem como a fluência narrativa e a estrutura e o desenvolvimento das tramas. Permanece, igualmente, a alternância de cenário entre o rural e o urbano.

Exemplo, neste livro, de conto rural, é o excelente “O Morrinho”, que abre o volume e rivaliza, com “Emboscada”, na preferência dos organizadores de antologia. Os dois primeiros parágrafos, concisos, precisos e curtos, definem os rumos do episódio:

“Coisas de terras; uma cerca que não devia passar por onde passava. O rumo era outro, pela escritura; mas a cerca de Militão acabou entrando nos terrenos de Apolônio, e pegou de viés um morrinho que não era lá grande coisa.

Apolônio chamou dois crioulos e mudou a cerca de lugar, recuando-a para o rumo indicado na escritura: o morrinho inteiro tinha de ficar dentro do seu terreno. Era assim que estava na escritura.”

Desta forma começa o conto, e começa a disputa entre Militão e Apolônio pelo morrinho, disputa que acaba na morte de um deles, baleado pelo outro. Aqui, mais uma vez, Herberto surpreende, extraindo, de uma controvérsia banal de divisa de terras, um episódio tragicômico primoroso. Por suas peculiaridades, “O Morrinho” talvez melhor estivesse em Histórias Ordinárias, ao lado de “Emboscada” e “Duas Versões”.

Demonstrativo de conto urbano em Uma Telha de Menos é “Fim de Semana”, um interessante caso de excessivo ciúme conjugal, onde o personagem Leovigildo prefere pedir o desquite a ter de explicar à ciumentíssima Célia, sua esposa, a circunstância verídica e inocente, que o envolve num acidente com outra mulher.

De um modo geral, em Uma Telha de Menos, as narrativas tornam-se mais breves e mais leves, algumas chegando à fronteira de um território que se poderia creditar à crônica ficcional, na forma e no tratamento. Apresentam-se, também, esses contos, em seu conjunto, com uma menor densidade dramática, e já não é tão evidente o registro obsessivo dos costumes, embora permaneça a anotação cuidadosa dos fatos e das circunstâncias. Como em Histórias Ordinárias, são narrados na terceira pessoa, com exceção de “Uma Questão de Tranquilidade”, as desventuras de um proprietário de apartamento que é solicitado para ser avalista, e conservam, ainda que, algumas vezes, em esboços, a estrutura clássica do princípio, meio e fim, com especial atenção para o desfecho. Mas, neste livro, o contista dá a impressão de um narrador mais descontraído, menos formal, como se estivesse a contar casos numa roda de amigos, com o intuito de interessá-los e distraí-los. É oportuno transcrever, do SubsiDiário, um comentário do autor sobre Uma Telha de Menos:

“Confesso que nesse tempo, tendo já de alguma maneira conquistado a forma, quer dizer: a forma que tenho de ser mais claro comigo mesmo e com os outros, não me era difícil escrever um conto. Porque o resto — isto é o recheio da forma — para mim não era e talvez ainda não seja o problema. Para escrever um conto, basta-me a mim escrever um dos mil e um desimportantes episódios com que ao longo do tempo venho compondo sem querer a minha autobiografia, imiscuídas nelas as gentes que conheci e que recordo, entre a piedade de meu ódio e o arrependimento de minha simpatia. O que tem de autobiográfico nesse livro não está no mapa. Enfim o escrevi.”

Histórias Ordinárias e Uma Telha de Menos tiveram, também, edição conjunta, sob o título geral de Transcontos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974).

O quarto e último livro de contos de Herberto Sales foi Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980).

Escrito em função do último conto da coletânea, “Edgarzinho ou Atos que não se Praticam”, onde o autor coloca a sua revolta contra demissões arbitrárias, particularmente no serviço público, o conjunto das narrativas mantém a característica de crítica e sátira social e de costumes. Seus heróis, os tão conhecidos anti-heróis contemporâneos, massificados e não raro esmagados pela grande máquina da sociedade, são criaturas do nosso convívio diário e com as quais, muitas vezes, nos identificamos, como em “O Vôo da Fantasia” — onde um personagem sonha com viagens de avião sem a habitual perturbação das mamães, dos papais, dos vovôs, das vovós e, acima de tudo, das crianças —, ou como em “Sede de Vingança” — onde um funcionário pensa em matar o chefe que não o valoriza. Criaturas insatisfeitas e rebeldes, de alguma maneira, nesses episódios, manifestam o seu inconformismo, às vezes de forma bastante insólita, como em “O Estilete” — no qual um cidadão aparentemente normal manda fabricar um estilete com trinta centímetros para espetar, através do estofado, o primeiro passageiro que, na poltrona da frente do avião, reclina-se a ponto de incomodá-lo.

Pontuando esses contos com uma boa dose de humor, mas, sobretudo, com uma grande carga de ironia e indignação, Herberto Sales apresenta-se, na coletânea Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro, quase um contista novo, imprimindo uma maior velocidade ao seu estilo, com uma linguagem mais solta e uma maior liberdade narrativa, como é exemplo a história que serve de título ao volume. Este conto, “Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro”, reafirma o pendor irresistível do contista Herberto Sales para a tragicomédia. Comédia fina, irônica, inglesa, extraída dos costumes ou — como queria Wilson Lins — dos maus costumes. E tragédia rápida, cortante, de causar impacto no leitor e deixá-lo estático, mudo, pensativo, a “ouvir uma mosca voar”, como dizia Lobato de Maupassant e de Kipling, e como desejava que fossem os seus próprios contos. O garotão louro, de compridos e escorridos cabelos louros, repartidos ao meio, parte cavalgando a sua moto possante, armado cavaleiro, na liça do asfalto. Vem o ônibus, vem a tragédia. Tudo muito rápido, numa velocidade de tirar o fôlego, levando o leitor, no curto espaço de tempo da leitura do conto, do sorriso inicial pelo tom irônico do contista, à perplexidade pela morte brutal do personagem. Nesta página há um absoluto domínio da técnica narrativa na ficção de pequeno fôlego. Uma página de mestre. Lamentável que, justamente quando este nível de qualidade indiscutível é atingido, Herberto abandona o conto para sempre, jamais a ele retornando.

A ficção curta de Herberto Sales foi reunida ainda, em livro, nas seguintes antologias: Seleta, Organizada por Ivan Cavalcanti Proença, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1974; Vamos Ler Herberto Sales, Seleção e nota introdutória de Fernando Sales, Rio de Janeiro, Cátedra, 1984; Os Melhores Contos de Herberto Sales, Seleção e estudo introdutório de Judith Grossmann, São Paulo, Global, 1984; e Herberto Sales — 10 Contos Escolhidos, Estudo introdutório de Maurício Salles Vasconcelos, Brasília, Horizonte, 1985. Participa, ainda, de inúmeras antologias nacionais e estrangeiras, tendo sido os livros traduzidos para diversos idiomas.

Sem a continuidade do romancista Herberto Sales, o contista Herberto Sales, com páginas como “Duas Versões”, “Emboscada”, “O Morrinho”, “Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro”, e, sobretudo, “O Automóvel”, colocou-se, no conto, como já o fizera, no romance, o romancista, entre os maiores da literatura nacional.

O Escritor Wilson Lins

arcAramis Ribeiro Costa

A obra publicada de Wilson Lins, mesmo excetuando-se as crônicas que permaneceram esparsas nos jornais, é ampla e diversificada, incluindo coletâneas de crônicas, ensaios, uma novela e seis romances, além de um precioso volume de memórias. Ao chegar a esta Casa, em setembro de 1967, com quarenta e oito anos de idade e uma respeitável experiência de vida, para tomar posse na Cadeira número 38, Wilson trazia uma obra em andamento, porém com o principal realizado, uma obra já definida e consagrada, ao menos no cenário não pouco exigente da literatura baiana. Verdade que seu maior prestígio vinha da militância política. Mas vinha também em grande parte do jornalismo, e não apenas em decorrência do seu destacado papel no combativo O Imparcial, onde ele era, além de filho do proprietário, o redator-chefe, mas também da repercussão das suas crônicas, críticas literárias e artigos assinados.

N’O Imparcial escreve crônicas diárias políticas bem-humoradas com o pseudônimo Quincas Borba, e rodapés semanais de crítica literária com o próprio nome. A partir de 1951, já no Diário de Notícias, inicia o pseudônimo Rubião Braz que, não sendo o Rubião de Quincas Borba nem o Braz Cubas das Memórias póstumas, trazia algo da aguda observação e da fina ironia machadianas, conquistando de imediato um público cativo. Foi o prestígio de Rubião Braz que o levou, em 1952, do Diário de Notícias ao Diário da Bahia e depois para A Tarde, onde, mais adiante, foi também o editor da página literária semanal, aos sábados. Exercidas em três jornais sucessivos ao longo de oito anos, de 51 a 59, essas crônicas do cotidiano, irônicas, mordazes, bem-humoradas, mas sobretudo inteligentes, tinham como alvo principal a política e os políticos, atirando, como uma implacável metralhadora giratória, rajadas certeiras, que atingiam seus objetivos com a irreverência e o riso no lugar do chumbo e da pólvora. Uma pequena amostra das crônicas de Rubião Braz pode ser encontrada na coletânea Os outros, editada em 1955 pela Empresa Gráfica da Bahia.

A vertente do ensaio, gênero dos afetos, das admirações e das afinidades, mas também do espírito especulador e investigativo, acompanhou-o ao longo de toda a vida. 12 ensaios de Nietzsche, de 1945, A infância do mundo, de 46, e Tempos escatológicos, de 1959, registram seu entusiasmo pelas idéias do filósofo alemão, suas descrenças, suas inquietações e, finalmente, sua volta definitiva à crença religiosa. São reflexões centradas em questões políticas, existenciais e transcendentais, quase sempre insolúveis, mas necessárias e instigantes, que nos apresentam, ainda hoje, uma surpreendente vocação do autor para a filosofia.

Já em O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de 1952, com mais duas edições posteriores, em 60 e 83, o enfoque é a região ribeirinha da sua infância, hoje inteiramente submersa nas águas sem memória da Represa de Sobradinho. O filósofo cede lugar ao historiador, ao antropólogo, ao sociólogo, ao folclorista, enfim, ao estudioso da sociedade, na investigação e no registro criteriosos da sua gênese, da sua política, da sua economia, dos seus costumes, das suas artes populares, das suas peculiaridades. Mais do que um simples estudo, mais do que um livro de leitura agradável, o ensaio sobre o Vale do Médio São Francisco é um documento, a fazer parte obrigatória da galeria das obras fundamentais, que estudam e explicam as diversas regiões da Bahia.

Otávio Mangabeira e sua circunstância, volume editado pelo Conselho Estadual de Cultura no ano de 1986, em comemoração ao centenário de nascimento de Otávio Mangabeira, é uma seleta de homenagem, que bem poderia, por suas análises e percepções, mas também pela intenção do conjunto, ser considerada igualmente um ensaio. Cronista e memorialista, com o domínio narrativo dos dois gêneros, tendo acompanhado, por muitos anos, de longe e de perto, o carismático governador, senador e tribuno baiano, tanto em sua trajetória política quanto em sua vida particular, Wilson reúne, nesse livro, páginas diversas no tempo e nas circunstâncias, mas que se tornam harmônicas no tema e na forma encantadora de escrever. O resultado dessa coletânea é um depoimento também fundamental para o conhecimento de Otávio Mangabeira, que foi, ao que parece, sua maior admiração política, depois da figura quase lendária e mítica do pai coronel.

Ainda na vertente do ensaio, outra afinidade-eletiva, como diria Goethe: o epigrama. Musa vingadora — crônicas do epigrama na Bahia, editado em 1999 pela Edufba, trata-se não apenas de uma preciosa coleta do que melhor se tem feito na Bahia, na tantas vezes malvista e malquista especialidade poética. Fosse apenas isso e já teria o seu valor, por resgatar e resguardar do esquecimento uma seara fértil e curiosa, mas de destino efêmero, da nossa cultura e do nosso espírito. Mas, vai além. Ao rastrear o epigrama, de Gregório de Mattos aos epigramistas mais recentes, que tanto incomodaram e divertiram e continuam incomodando e divertindo, mais incomodando do que divertindo os contemporâneos, Wilson Lins segue biografando, historiando, ambientando, esclarecendo, comparando e analisando os epigramistas baianos de todas as épocas e estilos, dos mais finos, inteligentes e sutis aos mais grosseiros, sem esquecer um injusto epigrama feito para ele próprio e seus romances. Realiza, dessa forma, mais um ensaio erudito, de extraordinária importância para os estudiosos da nossa cultura. A exemplo de Alberto de Oliveira, ao elaborar a célebre antologia de sonetos, e de Graciliano, ao organizar uma antologia de contos, não se incluiu entre os cultores do gênero. Mas é sabido que ele próprio foi também um competente e temido epigramista, tendo revezado com o incomparável mestre do epigrama, Lafaiete Spínola, na coluna “O Epigrama do Dia”, que existiu durante dois anos n’O Imparcial.

Finalmente digno de registro, na área da não-ficção, é o seu curioso livro de memórias, Aprendizagem do absurdo — uma casa após a outra, entregue ao público em 1997, graças ao valioso concurso do presidente do Conselho Estadual de Cultura à época, o acadêmico Waldir Freitas Oliveira. São recordações e depoimentos, tecidos e entretecidos a partir de cada residência do autor, resultando, também esse livro, numa fonte importante para a memória baiana do século XX.

Essas obras, até aqui ligeiramente citadas, já fariam a nomeada e o respeito do escritor que hoje recordamos. Particularmente o excelente ensaio sobre o Médio São Francisco. Porém, o maior legado literário de Wilson Lins, aquele que faz dele um dos grandes das nossas letras, creio ser a sua obra de romancista. Há uma unanimidade entre os seus amigos intelectuais mais próximos e mais antigos, entre os quais os já citados Jorge Amado e Jorge Calmon, em considerar esta a sua verdadeira vocação, acima até mesmo da política e do jornalismo. E parece que, de fato, o romance foi o seu maior objetivo, aquele ponto luminoso que perseguimos para justificar a vida, ou, pelo menos, as dificuldades e os desencantos da vida. Nas confissões do seu discurso de posse nesta Casa, vamos encontrá-lo menino de calças curtas e pés descalços, a ouvir com enlevo os relatos dos combates e das valentias dos jagunços do pai, e a recriá-los nas brincadeiras com os pequenos companheiros na beira do rio. Ali, já era o ficcionista, que não escrevia, mas punha a imaginação a funcionar, nas situações de perigo e violência que, mais tarde, seriam os enredos dos seus movimentados romances. Confessadamente mau aluno, por não se interessar pelas matérias formais da escola, deixa-se fascinar pela vasta biblioteca do Ginásio Carneiro Ribeiro, tornando-se leitor apaixonado de romances, devorando um após outro e, não contente com isso, escrevendo a continuação deles, muitas vezes acrescidas de novos personagens, como fez ao volumoso As minas de prata, de Alencar.

O conhecimento de Friedrich Nietzsche, iniciado com a leitura de Assim falava Zaratustra, ampliado no aprofundamento de toda a obra do professor e filósofo alemão, iria desviá-lo por um tempo daquele mundo rude e pragmático da sua infância, impregnando-o de um espírito filosófico e dialético até então inexistente. Mas, não iria desviá-lo da sua vocação de romancista. A prova é que, desse mergulho fundo nas águas densas e fundas de Nietzsche, emerge com o seu primeiro romance, Zaratustra me contou, escrito aos dezessete anos de idade, e que teve, em 39, uma edição de mil exemplares, impressa na Tipografia Naval e patrocinada pelo pai coronel.

É curioso que um primeiro romance, surrealista e pretensamente filosófico, escrito por um quase menino de dezessete anos de idade e impresso numa tipografia da província, tenha merecido um comentário em jornal, no Sul do País, de um tão renomado crítico literário como foi Alceu Amoroso Lima. Mas isso aconteceu, e essa crítica de Tristão de Ataíde, arrasadora, embora concluísse que o livro tinha todos os defeitos menos a mediocridade, iria determinar o seu comportamento como romancista a partir daí. Nos vinte e cinco anos seguintes, escreveu e destruiu quinze romances e só em 55 publicou uma deliciosa novela de sátira política, Os Segredos do herói cauteloso, satirizando os governos de Otávio Mangabeira, Régis Pacheco e Antônio Balbino — respectivamente Octaviano Manga, Lélis Pereira e Antônio Sabidino —, merecidamente assinada por Rubião Braz. Mas o romance permanecia travado pelo impacto da crítica negativa do doutor Alceu.

Talvez tudo isso fosse necessário, para que o romancista Wilson Lins encontrasse o seu veio definitivo, e pudesse enfrentar com segurança a navegação ficcional de fôlego no grande rio da sua infância, construindo, em cinco romances magníficos, a saga do São Francisco. Essa nova e vigorosa etapa da sua ficção inicia-se em 1964, com Os cabras do coronel, romance editado pela GRD, e logo se desdobra numa trilogia, com O reduto, em 65, e Remanso da valentia, em 67, ambos pela Martins Editora, de São Paulo.

É impressionante e quase inacreditável essa realidade medonha ocorrida fora das capitais, em quase todo o território nacional num certo período da nossa história recente, e que nos chega bem mais através da ficção, particularmente do romance, do que da própria história, embora nos venha também por meio de grandes ensaios, como, na Bahia, o próprio O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de Wilson Lins, e Jagunços e heróis, de Walfrido Moraes. Essa realidade detona em todo o Brasil, de Norte a Sul, um romance rico em peripécias, aparentado com as grandes epopéias clássicas, com os romances de cavalaria do século XVIII e até mesmo com os romances de folhetim do século XIX, onde heroísmo e banditismo se confundem, pondo a vida humana com a maior naturalidade na mira impiedosa de um fuzil ou na lâmina traiçoeira de um punhal. Falando especificamente da Bahia, para não me estender demasiadamente nessa homenagem à memória do nosso querido Wilson, a saga épica dos coronéis e dos jagunços, nas guerras, escaramuças, crimes e falcatruas cartoriais e políticas pela conquista da terra e do poder na região, é um dos veios mais poderosos da nossa literatura.

Podemos traçar um mapa baiano desse romance de sociedade patriarcal e feudal que estabelece o binômio coronel-jagunço, ou apenas concentra no jagunço a figura destemida e trágica do herói-bandido, um romance que ganha vulto com Jorge Amado, com Terras do sem fim, São Jorge dos Ilhéus e Tocaia Grande, segue magistral com Adonias Filho e Herberto Sales, com Corpo vivo e Cascalho, e chega, como uma fórmula testada e vitoriosa, a Wilson Lins.

O cacau, o diamante e o gado, fontes de riqueza nas diversas regiões do solo baiano, são motivações econômicas para os grandes interesses que são o poder e o prestígio político dos coronéis, poder e prestígio alicerçados basicamente no poder econômico, mas também na valentia e na fidelidade dos cabras ou jagunços. Nessa estrutura social, econômica, familiar e política imperam a violência, o crime, a crueldade, a arbitrariedade, a exploração da mão de obra em troca de proteção, e uma espantosa impunidade, como se a lei e a justiça simplesmente não existissem, ou existissem apenas ao sabor da conveniência dos coronéis, que acabam detendo o poder absoluto, inclusive de vida e de morte, diante do qual nem os poderes constituídos da república ousam interferir. É o próprio Wilson Lins quem diz, n’Os cabras do coronel:

…a verdade é que todo o sertão estava armado, e não era só na Bahia, mas em todo o Brasil, onde os coronéis mantinham verdadeiros exércitos, que em muitos casos eram mais bem armados e municiados que as polícias estaduais, e, constantemente, eram chamados a ajudar os governos dos Estados e o próprio governo federal a debelar revoluções e levantes militares.

Mais adiante, num dos capítulos d’O reduto, reafirma Wilson:

Naqueles duros tempos, as pequenas vilas e cidades do Vale do São Francisco, isoladas do resto do país, viviam entregues ao arbítrio dos coronéis, que eram os senhores da vida e da morte, especialmente da morte, de quantos ali habitassem. Os governos estaduais não tinham como fazer chegar às suas populações os efeitos da autoridade pública e dos mandamentos da lei. A justiça era distribuída pelos chefes locais, que dominavam os juízes e promotores, que, só em um ou outro caso isolado, reagiam à prepotência dos rudes senhores, e os poucos magistrados que ensaiavam reagir eram quase sempre transferidos, uma vez que os governadores dos estados procuravam de todo modo evitar choques com os governantes virtuais do sertão, cujos aguerridos exércitos mantinham aqueles ermos inteiramente fora do controle de outra autoridade que não fosse a deles.

Prossegue Wilson, em sua preciosa análise:

As grandes formações de forças de linha não podiam enfrentar com êxito as numerosas tropas de guerrilhas dos donos do agreste, que, operando em pequenos grupos de combate, imobilizavam com facilidade as forças regulares, nas bocainas e nos tabuleiros, razão por que os governos estaduais eram condenados a dividir sua autoridade com os chefes sertanejos. Para fazer face a um coronel que se rebelasse contra a política oficial, os governos dos estados lançavam mão do recurso de armar um coronel contra o outro, sob a promessa de que, uma vez dominado o insurgente, o município por ele dirigido passaria a ser seu. Daí a constância com que municípios vizinhos se engalfinhavam em guerras intermináveis.

Nessas considerações do romancista, encontram-se o cenário e a motivação dos seus romances, auferidos largamente na infância em Pilão Arcado, tendo como herói maior dessa epopéia sertaneja a figura do pai, o coronel Franklin Lins de Albuquerque, e plasmados na maturidade do homem, em pleno domínio da linguagem, da técnica e do estilo do escritor.

Embora formem uma trilogia, os três primeiros romances desse ciclo não se submetem a um título comum, e podem ser lidos separadamente, sem prejuízo do entendimento ou do encanto narrativo do enredo, que se faz por meio de capítulos curtos, de forma linear e concisa, com discretas retrospectivas. A escrita é vazada numa linguagem simples, direta, quase coloquial e fartamente enriquecida de regionalismos, num tom sério e quase rude, que nada lembra o irônico, satírico e bem-humorado Rubião Braz, mas que não deixa escapar, sem um ótimo aproveitamento, a comicidade de determinados tipos e circunstâncias, como o furor sexual de Doninha Calango, a assumida preguiça de Chiquinho Calça-Frouxa ou a divertida relação do coronel Torquato Thebas com a empregada Naninha, que ele desvirgina e que, supremo desaforo, logo em seguida o trai com um sobrinho dele. Resguardado nos bastidores da terceira pessoa onipresente, o autor vai narrando como se narram, na tradição oral da gente do povo, as histórias e os feitos dos heróis e dos bandidos, porém sem prescindir do olhar lúcido e esclarecedor do homem culto, a elucidar, a conferir perspectiva e profundidade às situações narradas, erguendo, dessa maneira, os romances à altura das obras cultas, como amplamente demonstrado nas citações aqui consignadas.

A trilogia tem início de forma bastante movimentada, com Os cabras do coronel, cujo enredo é basicamente a fuga e a perseguição de Domingos Amarra Couro, um dos homens da prostituta Doninha Calango. Enlouquecido de amor, o cabra decide trair o coronel e abandonar a vida de jagunço, para viver em paz com  a sedutora Doninha. Perseguido implacavelmente pelos ex-companheiros, ferido, maltratado, o jagunço se arrepende e tenta voltar, mas acaba morto. Fuga e perseguição servem de pretexto para a apresentação das desavenças dos coronéis no ambiente violento e rude, onde o combate e a morte são o cotidiano dos cabras, e onde a figura do coronel de Pilão Arcado, que outro não é senão o coronel Franklin, é onipresente e onipotente, embora, nesse romance, não apareça diretamente uma única vez, e não tenha nome, sendo apenas denominado de “o Coronel”, ou “o Vermelhão”. Também aí se encontra a gênese da Vila de Santo Antônio de Pilão Arcado, o “velho burgo nascido de uma feitoria colonial’, “plantado na encosta de um morro de brancas pedras soltas”, impondo-se “como um baluarte natural, dominando o vale”, e cujo nome significa “Pilão em Baixo do Arco”, numa referência aos arcos dos guerreiros e ao grande pilão da tribo em que era pisada a mandioca para fazer o cauim. Iniciada de modo truculento e movimentado, a trilogia arrefece o ímpeto no livro seguinte, O reduto.

Se o ritmo da ação diminui, reduzindo também a violência, à semelhança de São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado, após a violência e a movimentação de Terras do sem fim, esse segundo romance da trilogia cresce em linguagem, em elaboração, em qualidade literária. O “reduto”, que é Pilão Arcado, espera o coronel que partiu para a luta armada, e que já não é chamado apenas de “o Coronel” ou “o Vermelhão”, como ocorre no romance anterior, mas de “coronel Franco”. Agora, ele aparece em cenas muito rápidas, bastando isso para manter a sua presença forte no desenrolar dos acontecimentos. Encarregado pelo governo federal de perseguir a Coluna Prestes, o coronel Franco cobre-se de glória na guerra, como um rei Artur nas Cruzadas, enquanto comanda o seu povo à distância por meio de dona Bonina, recriação ficcional de dona Sofia, a mãe de Wilson. Há uma espécie de trégua na guerra interminável entre os coronéis vizinhos, particularmente com o maior inimigo do coronel Franco, o coronel Torquato Thebas, de Remanso. Vemos a gênese do poder do coronel Franco e o início das inimizades entre ele e os demais coronéis. Vemos também, com riqueza de pormenores, a própria vida ribeirinha do São Francisco, com seus tipos, seus costumes, suas toadas e cantigas, sua forma peculiar de viver e sobreviver. O reduto ilustra e completa, com o calor e o atrativo da ficção, todo o exposto no ensaio d’O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros.

Na linha previsível dos acontecimentos, a volta do coronel Franco a Pilão Arcado reaviva as antigas desavenças entre os coronéis, particularmente entre ele e Torquato Thebas, e o confronto final se faz inevitável em Remanso da valentia, a terceira parte dessa trilogia consagradora, recrudescendo a brutalidade, a violência, a crueldade dos combates entre os jagunços. Perpassam os três volumes as figuras engrandecidas dos coronéis, de alguns jagunços, mas também de Doninha Calango e de Pedro Velho, o vidente afilhado da morte. Esse último personagem é o único e discreto matiz fantástico nas cores realistas desses romances, construídos sobre os alicerces da dura verdade sertaneja. Ao conversar com a morte, a sua Dindinha, visível apenas aos seus olhos cansados, e que é descrita como uma velha senhora coberta de trapos, Pedro Velho transcende a realidade da narrativa. Mas, ainda assim, para adentrar na esfera da realidade última e fatal da própria vida.

Deixando o ambiente e os personagens da trilogia, o imaginoso autor desloca a ação romanesca de Pilão Arcado, Remanso e Sento-Sé, praças-fortes de acirrada disputa política, para a cidade-santuário de Bom Jesus da Lapa, com sua Gruta dos Milagres, suas procissões, suas velas votivas, suas beatas, seus doentes, seus pedintes, suas cantorias arrastadas. “Uma atrás da outra, caravanas de devotos” vão “pagar promessas ao crucificado da Gruta”, e “a pequena cidade” é “convertida num agitado formigueiro humano, com os romeiros enchendo a gruta e as ruas, e os negociantes de quinquilharias enchendo os bolsos às custas dos romeiros”. Trata-se também de um cenário marcante da infância de Wilson. Aos seis anos de idade, recuperado de enfermidade grave, fora levado pelos pais em romaria à gruta do Bom Jesus, e ficara impressionado com as “andrajosas multidões de cegos e aleijados, cantando benditos súplices”. Responso das almas, que é esse o romance, editado em 1970, pela Martins, teria também uma edição em Portugal. O principal personagem dessa narrativa de extraordinária velocidade, pontuada igualmente por luta armada, truculência e morte, é Otílio, o menino órfão e pobre transformado em Rotílio, o jagunço valente que se faz bandido e depois coronel. Dessa forma, torna-se uma síntese do binômio mais representativo do sertão épico de Wilson Lins, todo ele marcado pelas figuras simbiônticas do coronel e do jagunço. É também o único romance onde o coronel Franklin é mencionado com o próprio nome.

O último romance, Militão sem remorso, de 1980, pela Editora Record em convênio com INL/MEC, completa o vasto painel ficcional da terra e da gente do São Francisco. Retorna a Pilão Arcado, o reduto familiar, mas recua no tempo, à época do império, quando o velho burgo dos arcos dos guerreiros era dominado pelo caudilho Militão Plácido de França Antunes. História de amor, de adultério e de morte, sempre a morte banhada de sangue a perpassar as tramas, nela desponta a figura forte da fazendeira Otávia, tão volúvel, sedenta de sexo e incapaz de resistir à sedução de um homem, quanto a prostituta Doninha Calango, a extraordinária personagem da trilogia. Militão sem remorso é também um retorno às origens das lutas armadas, na disputa aguerrida das terras e da supremacia política na região.

Essa obra tão rica e variada, em particular os romances do São Francisco, é o grande legado de Wilson Lins. Uma obra para ser reeditada, lida, estudada e propagada para o resto do país, para que venha a ocupar o seu merecido lugar de destaque no cenário da literatura nacional.