Escapando do carnaval

consueloConsuelo Pondé de Sena
Não pensem que sempre fui avessa ao Carnaval da Bahia. Muito ao contrário, era foliã animada. Foliã comedida, porque, pertencendo à Antiguidade Clássica, meu pai e, depois, meu marido, não me permitiam dar vazão ao espírito carnavalesco. Além do mais, fazendo parte de uma geração de mulheres “reprimidas” pela educação, não me ficava bem assumir atitudes incompatíveis com as condutas impostas ao meu gênero. Nem eu mesma me permitiria transgredir, como toda mulher capricorniana que se preze.

Bem, ditas essas palavras introdutórias, não há como evitar o confronto entre o passado e o presente. O Carnaval da Bahia, aquele que frequentei quando criança e nos dias da mocidade, era um Carnaval voltado para a diversão, mas também recomendável às famílias.

Quando menina, ia com meus pais e irmãos para a Rua Chile, de onde assistíamos, das janelas do Edifício Montepio, dos consultórios de meu pai e do seu primo, Osvaldo Mendes, a passagem dos blocos. Dalí também aplaudíamos os carros alegóricos dos Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso. Na calçada do mesmo edifício, hoje sede da Fundação Gregório de Mattos, meu pai providenciava a locação de cadeiras para que admirássemos de perto a folia. Também costumávamos observar a festa das janelas e da varanda do IGHB, espaço disputado pela diretoria e sócios mais assíduos. Já mocinha, daquele lugar “paquerei” ou, melhor, fui “paquerada”, por meu futuro esposo, em determinado Carnaval dos anos 1950. Ele, como os demais colegas (lembro-me bem de Maia Tavares), trajando branco ou ternos claros, posicionavam-se na Av. Sete para “cortejar” as mocinhas, que por ali passavam, durante os intervalos dos desfiles dos blocos dos fantasiados e dos caretas. Em certo Carnaval, Plínio, de luto da avó materna, D. Sinhazinha Garcez, bem em frente do Instituto, conversava com os amigos, indiferente, como sempre, ao festejo. Quando por ele eu passava, tomava de repente emprestado o lança-perfume de Maia Tavares para galantear-me. Achei estranhíssimo o fato de ele estar de “fumo”na lapela, assistindo ao Carnaval, mas ele, muito mais tarde, confessou-me não ter havido mal algum em apreciar a movimentação da rua.

Tempo bom aquele, em que as mulheres se respeitavam e eram respeitadas pelos moços. É verdade que existiam aquelas senhoritas da “pá virada”, pois cada pai de família educava os filhos de acordo com suas regras, ou tinha autoridade para conter–lhes os “desatinos”. Mais reprimidas do que nós eram as filhas de Abelardo Parente, não me constando que Zilma e irmãs jamais houvessem desfrutado das alegrias das “batalhas de confetes”, muito menos dos bailes momescos, realizadas nos tradicionais Clubes de Salvador.

Também testemunhei e aplaudi, freneticamente, o primeiro desfile da “fubica” de Dodô e Osmar, uma inovação sem igual para aqueles tempos, novidade que fez o povo vibrar de animação. Pena que tenha inspirado essa máquina possante, o atual trio elétrico, a divulgar músicas “bobocas” e sons estridentes. Pior de tudo é contemplar, de longe, os que nela podem embarcar, enquanto os “cordeiros” padecem e o folião “pipoca” disputa espaço, no asfalto imundo das avenidas, tendo o máximo cuidado para não ser agredido, esfaqueado ou pisoteado.

Por isso, por ter a festa se tornado mais um espaço de “exclusão” social na minha cidade, além da grande violência que grassa por todo canto, procuro sair dela neste período. Desta vez, viajo para Fortaleza, a fim de descansar de Salvador, com seu intolerável índice de poluição sonora e a sujeira amontoada pelas ruas. Na bela capital cearense, vou ter a alegria de rever queridas amigas, além de curtir as tentadoras “compras” na Monsenhor Tabosa, Aldeota, Mercado Central e outros pontos de comércio.

O Carnaval da Bahia passou a ser o Carnaval dos turistas, dos visitantes que se empolgam diante dos apelos da mídia e vêm gastar seu dinheirinho numa das mais caras capitais brasileiras. São pessoas sedentas de “alegria”, que a compram, a peso de ouro, ao adquirirem indefectíveis abadás e terem acesso aos blocos “empreitados” por quem sabe ganhar dinheiro na Bahia. O mesmo digo em relação aos que se reúnem nos camarotes Vips e desfrutam das requintadas mordomias negociadas pelos empresários “da maior festa do planeta“.

Enfim, há gosto para tudo! Quanto a mim, quando a festa estridente e discricionária estiver rolando em Salvador, estarei bem longe, participando do cotidiano tranqüilo de um dos mais atrativos pontos turísticos do país e da convivência com sua simpática gente.

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Onde está Cristo no Natal dos nossos dias?

consueloConsuelo Pondé de Sena

Procuro-o na esperança de reencontrá-lo, cada vez mais ausente na Festa da Natividade. Busco-o, sofregamente, nos corações dos homens, nas manifestações de fraternidade universal, no cenário afetivo das famílias bem constituídas. Encontro-o e apaziguo o meu coração.

Querem-no muitos, porém, nas visíveis e comerciais demonstrações de preponderância do estranho mundo de hoje. E, em nome dessa mensagem distante dos seus ensinamentos revertem suas lições de solidariedade e de caridade cristãs numa banca de negócios, desvirtuando o sentido do Natal.

Diante dos meus olhos contaminados pelos bombardeios midiáticos, por mais que o evite, só enxergo: consumismo, endividamento, desarmonia, violência, descontrole e falta do verdadeiro amor. Percebo, contristada, diante da lamentável realidade dos tempos atuais, que o menino Jesus não mais se encontra na manjedoura humilde de Belém.

Alijaram-no do modesto e santificado espaço onde nasceu para iluminar o mundo e pretendem conduzi-lo, principalmente, para os centros de negócios e de consumo, onde reinam o gosto pelas coisas materiais e predomina a ambição do lucro. Onde quem comanda é o vil metal que corrompe os homens.

Retiraram-lhe a exígua veste que encobria seu corpinho recém-nascido, para tentar adorná-lo com as suntuosidades e as pompas fabricadas pelos indutores do consumo, pelo apetite desenfreado dos gananciosos, dos vendedores de ilusões passageiras, dos corruptores de todas as feições.

Substituíram a luz da estrela guia, que orientou os passos dos Reis Magos até a Sagrada Família, pelas artificiosas, artificiais e feéricas luminosidades, nutridoras dos desvarios dos fabricantes e consumidores de quinquilharias.

Dessacralizaram o Natal de Jesus Cristo. Esqueceram-se da Natividade, da mensagem maior da grande da sua peregrinação pelo mundo. Desconhecem ou olvidaram suas palavras: “Eu vim para que tenham vida, e tenham-na em abundância” (João, 10: 10). Baniram da maior festa da Cristandade as lições de humanidade e compaixão, os sentimentos de piedade e comunhão com o divino.

Durante anos e anos “fabricaram” guerras assassinas, desfalcaram inúmeros lares de vidas preciosas, sob o disfarce criminoso da luta contra o terrorismo, rotulando-a de defesa da Democracia. Promoveram discórdias, espalharam medo, derrubaram torres, sacrificaram e aprisionaram inocentes, movidos, principalmente, pela disputa do poder e do domínio econômico.

Desconsideram a profundidade dessas palavras: “Amai vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam“ (Mateus, 5:44).
Desconhecem ou se esqueceram do que está escrito em João, 14:27: “Deixo-vos a paz, a Minha Paz vos dou: não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize“.

Que é feito da Paz? Da pregação de Jesus Cristo e dos Apóstolos, seus seguidores, das lições que repassaram, para todo mundo? Que é feita, hoje, da missão Salvadora para a qual Jesus assumiu a condição humana?

Por que jamais se praticaram tantos crimes e tanta violência? Por que substituíram o presépio pela árvore de Natal, o primeiro símbolo de um instante significativo para a história da humanidade, o segundo, uma bela e, cada vez mais, sofisticada sedução comercial para enfeitar, com bolas e cores, o Natal de todo o mundo?

Trocaram o ódio pelo amor, a generosidade pelo egoísmo? O Bem pelo Mal? Não, não é isso que desejamos. Muito ao contrário. Esperamos que a festa do nascimento do Senhor reencontre a pureza e a simplicidade dos tempos que se foram.

Reajamos todos, os que têm e vivem na Fé, a toda essa “onda” consumista e desespiritualizada. Vivamos alegremente, pois, “O coração alegre é bom remédio” (Provérbios, 17: 22).
Natal é nascimento e crença na vida. É amor e compreensão. Tolerância e caridade. Que renasçam, pois, em nossos corações as mensagens de concórdia e que, neste mundo dominado pelo imediatismo e pela ambição, pela discórdia e pela malquerença, ainda possa germinar, nos abençoados pela Fé, a excelsa luz da Esperança.

Dr. Antônio Jesuíno Neto, humanitário e bom

consueloConsuelo Pondé de Sena

Causou comoção em todo o Estado da Bahia o inesperado falecimento do médico e professor, Antônio Jesuíno Neto, homem de ação e de trabalho, que, como poucos profissionais da área da saúde, dignificou a profissão, à qual serviu com devotamento.

Sobre ele muito se escreverá, tenho certeza, tal era o prestígio de que desfrutava em vários círculos profissionais e sociais da Bahia.
Morreu como desejava, em plena sala de aula, em meio aos que escutavam sua última e inacabada preleção.

À sua despedida, no Jardim da Saudade, na tarde de sexta-feira, dia dois de setembro, acorreram os familiares, amigos, clientes e admiradores do médico humanitário e bom. Dr. Jesuíno era uma personalidade cativante. Um cidadão honrado, ético e digno, que fez da sua vida um modelo de solidariedade e correção, como poucos nestes tempos adversos.

Antônio Jesuíno dos Santos Neto desapareceu no mesmo mês em que veio ao mundo, no dia 18 de setembro de 1920. Diplomou-se médico no dia 13 de dezembro de 1944. Realizou, ao longo da extensa carreira, inúmeros cursos de especialização, confirmando com a realização desses aprendizados o interesse que mantinha pela profissão que escolhera desde criança. Viveu intensamente a sua escolha, tendo participado de centenas de eventos profissionais, nos âmbitos: estadual, nacional e internacional. A par dessa presença nesses eventos, atuou no Instituto Nacional de Previdência Social, nas Chefias de Aperfeiçoamento das Equipes de Saúde, além de examinador do concurso de seleção de cirurgiões.

Teve intensa atividade na Santa Casa de Misericórdia da Bahia, no Hospital Santa Izabel e na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. No Hospital Santa Izabel desempenhou-se como cirurgião, mas também foi Chefe do Departamento de Cirurgia e Diretor Interino. Na mesma escola foi Assistente de Propedêutica Cirúrgica, Professor Titular de Clínica Cirúrgica e Coordenador do Internato Médico.

Não se recusava a colaborar em outros setores universitários, a exemplo da Universidade Católica do Salvador, onde na qual foi professor de Socorros de Urgência, do Curso de Especialização em Didática do Ensino Superior, e de Engenharia e Segurança do Trabalho.

Não consigo entender como Dr. Jesuíno se multiplicava por mil e um afazeres e sempre mantinha o ânimo para incursionar em outras esferas. Bom humor e simpatia eram as marcas da sua personalidade.

Sempre me intrigou a extraordinária vitalidade daquele cavalheiro de 90 anos, sempre presente aos eventos das associações a que pertencia.
No IGHB, de onde era sócio há muitos anos, não só comparecia frequentemente, como fazia questão de contribuir pecuniariamente. De igual modo conciliava a participação ativa nas diversas academias a que pertencia, sem demonstrar cansaço ou desânimo.
Foi sempre muito ativo em relação ao Conselho Regional de Medicina, dele recebendo o título de “Alto Mérito-Grande Honra ao Médico”, em reconhecimento por essa eficiente participação.

Era membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, do American College of Surgeons e da Academia de Medicina da Bahia.
Pertencia à Academia Bahiana de Educação e ao Instituto Geográfico da Bahia, sempre a postos na vida diária e nas solenidades dessas instituições.

Amigo presente e dedicado, sabia ser estimado por todos que o conheciam. Era simples e correto a toda prova e seu rosto sereno transmitia a grandeza do seu caráter.

Posso dizer, sem receio de estar cometendo equívoco, que foi um homem feliz e realizado. Formou uma família harmoniosa e equilibrada. Casou-se com uma notável educadora baiana, professora Leda Jesuíno dos Santos, de quem tinha, como parceiro e cúmplice, compreensível orgulho.

Como todo ser humano, morador deste planeta de expiação, teve algumas amarguras. Sofreu muito, mas soube superar os desencantos da existência. Homem de fé sabia que seu espírito não se extinguiria com a falência das forças vitais.

Em outra dimensão, tinha certeza, sua alma de escol encontraria a felicidade eterna, a morada da imortalidade. Felizes os que têm fé, essa chama divina que jamais se apaga, sejam quais forem os percalços da existência.

Por tudo em que acreditava, pela bondade que semeou indistintamente durante a vida, tenho certeza que um bom lugar lhe foi sendo preparado pelo Deus que nos criou e que, do alto de sua munificiência, saberia recompensá-lo, como bem o merecia.

Edivaldo Boaventura, presidente exemplar

consueloConsuelo Pondé de Sena

Há determinados cargos que exigem raras qualidades pessoais dos ocupantes. É o caso da Academia de Letras da Bahia que reúne quarenta Acadêmicos, a bem dizer, uma elite intelectual, sob a presidência de um deles, escolhido por seus pares.

Edivaldo Machado Boaventura concluiu, dia 24 de março de 2011, o seu mandato de dois biênios à frente da Casa de Arlindo Fragoso, deixando atrás de si a marca indelével da sua personalidade e as virtudes do seu temperamento.

Cumpriu, primorosamente, o seu dever e todo aquele que cumpre fielmente as tarefas que lhe são destinadas reafirma a grandeza do seu caráter. Por isso, permanecerá na memória da instituição como um dos seus mais dinâmicos, amáveis e compreensivos dirigentes.

Cavalheiro delicado, culto e competente, com larga experiência em comandar instituições respeitáveis, Edivaldo é uma referência de homem público na Bahia e no Brasil. Tendo ocupado em dois governos: Luiz Viana Filho e João Durval Carneiro a nobilitante função de Secretário de Educação do Estado da Bahia, houve-se em ambas ocasiões de maneira irrepreensível e competente.

Educador por excelência, é um homem de ação e de trabalho, cabendo-lhe como uma luva o pensamento de Smiles: “Na sociedade os homens de gênio estão em relação à inteligência, assim como os homens de caráter estão em relação à consciência; se admiram os primeiros, os segundos imitam-se”.

Deixou a presidência da Academia de Letras da Bahia por força de dispositivo legal, tendo completado dois biênios, nos quais se realizou dinâmica e excelente administração, graças ao seu prestígio pessoal, representação social e fácil comunicabilidade.

Trata a todos com lhaneza, espelhando sua conduta nas lições aprendidas com sua família e com seus mestres jesuítas, em cujo conceituado Colégio Antônio Vieira, hoje centenário, completou sua formação para ingressar na Faculdade de Direito da Ufba.

Apesar de ter-se diplomado nessa tradicional unidade de ensino, de ter exercido alguns cargos relacionados com o Direito, sua vocação de educador se sobrepôs às demais tendências, realizando-se como um dos mais qualificados Mestres da Bahia.

Sempre próximo dos alunos esmera-se em orientá-los, em avaliá-los, ciente de que, como escreveu Kant, “O objeto da educação é desenvolver no indivíduo toda a perfeição do que é suscetível”.

Tendo nascido em Feira de Santana, terra que não se esquece de mencionar em quase todos seus pronunciamentos, sempre exalta as belezas e as riquezas do seu município, sem esquecer a capacidade de trabalho e a inteligência dos conterrâneos.

Foi eleito para a ALB em 8 de julho de 1971, bem jovem ainda, tendo sido saudado por D. Edith Mendes da Gama e Abreu, feirense como o atual ocupante da cadeira número 39, cujo patrono é Francisco de Castro e o fundador Clementino Rocha Fraga Junior, baiano de Muritiba, médico e humanista, um dos criadores da instituição, falecido no Rio de Janeiro, para onde se transferiu, em 8 de janeiro de 1971.

Alma de educador, Edivaldo Boaventura é, antes de tudo, um professor que ama a sala e o convívio com seus alunos. Mestre de excepcional formação acadêmica é muito admirado por colegas e discentes.

Na sala de aula procede como um verdadeiro transmissor de informações. Anima debates, suscita questionamentos e, sobretudo, transmite conhecimentos, fomenta a pesquisa, orienta trabalhos, tudo realizando com competência e dedicação.

Após ter ocupado a Vice-Presidência da ALB, Edivaldo assumiu a presidência da agremiação, realizando, como anteriormente assinalado, profícua e dinâmica gestão, assinaladas na leitura do seu relatório e na brilhante oração de improviso, proferida pelo Acadêmico Joaci Góes, oração espontânea, nascida do sentimento de um sertanejo de talento, capaz de emocionar a assistência embevecida diante do seu verbo fluente, como só os tribunos de escol são capazes de produzir. Nas referências a Solange, Edivaldo e filhos, Joaci Góes tocou nas dobras mais íntimas do coração do ex-presidente, levando-o às lágrimas sorrateiras, que tentou em vão dissimular.

Homem moderado, capaz de escutar com sensibilidade os problemas alheios, sabe ser solidário, contornar situações, além de possuir o que se chama “jogo de cintura”. Vale aqui lembrado belo conceito de Bishop Hall sobre essa rara qualidade que Edivaldo possui: “A moderação é o fio de seda que corre pelo colar de pérolas de todas as virtudes”.

Ao que acrescento enfática: graças à convivência com Solange Fortes do Rego Boaventura, sua incomparável e bela mulher, agregou Edivaldo virtudes de excelência, assimiladas ao longo do relacionamento de amor, parceria e cumplicidade como uma das mais refinadas Damas da sociedade baiana.

Volúpias do colchão

consueloConsuelo Pondé de Sena

Certo dia, Marisa se deu conta de que tinha necessidade de comprar um colchão. Estava perto de uma loja na Boca do Rio, que vendia colchões de qualidade. Acercou-se do vendedor, belo e corpulento, moreno e sensual, como é do seu agrado.

Ficou deslumbrada com tamanha simpatia e arriscou saber o preço das mercadorias expostas. Não que estivesse tão necessitada de adquirir bens de consumo, pois a “crise financeira” está deixando a classe média sem sono. A compra poderia ser protelada para ocasião mais conveniente. Afinal, não se tratava de “sangria desatada”. Todavia, como há muito, não sentia o hálito abafado de um homem, o cheiro de corpo de um macho, não recebia carícias estimulantes, pensou que aquele galante vendedor poderia representar uma saída para a sua insatisfação.  Há muito tempo estava sem “assistência técnica”, “sem manutenção” de qualquer natureza.

Assim imaginando, fantasiou um encontro amoroso com o sedutor cavalheiro. Estimulada pela lábia do “finório”, decidiu endividar-se e adquirir um colchão às pressas.  Pensou assim: mais vale um gosto do que dois vinténs.

Continuava embalada pelos elogios do galã, que ressaltou a beleza e o aspecto jovial do seu rosto, sua aparência jovem e distinta e partiu para cometer um desatino. Seu único objetivo era conquistar Alfredo, de olhos mornos e sedutores, que a fizera arder de desejo e incrementara a vontade de saciar-se.

Por sua vez, o astuto vendedor soube “dourar a pílula”, elogiando a não mais poder a qualidade do produto que a nova freguesa queria adquirir. A conversa transcorreu tão animada que, a certa altura, tomado de entusiasmo, declarou à nova cliente: “se a madame comprar o colchão, faço questão de levá-lo pessoalmente, colocá-lo sobre a sua cama solitária e vê-la  saciada, vaporosa e bela.

Não dispondo de talão de cheque, no momento, Marisa argumentou que preferia comprar o colchão em vários pagamentos, pois adquiri-lo de uma vez onerava o seu modesto orçamento.  O que está me dizendo, D. Marisa?  Nem pense num disparate desse. Faço-lhe um abatimento razoável e a senhora não fica nessa agonia de todo mês pagar o débito. Aconselho-a a ir logo adiante, onde há um caixa rápido, sacar o dinheiro e  efetuar o pagamento à vista, aproveitando o grande  desconto que lhe concedi.

Convencida de que estava “curtindo uma nice”,  ansiosa compradora, animada com a “promessa”, dirigiu-se ao tal  caixa eletrônico, dele retirando  R$650,00  em dinheiro.  Compra que seria acrescida de umas boas horas de amor, de deleite para o seu insaciado coração.

Sr Alfredo, galante conhecedor de mulheres, continuou a dizer-lhe palavras amáveis, elogiando-lhe a “frescura da pele” e a aparência juvenil.  Apesar de já contar com 60 anos, ouviu do vendedor, que lhe fizera a indiscrição de saber quanto janeiro tinha,  que parecia ter apenas 40 anos. Diante de tal afirmativa, foi aumentando sua auto-estima, convencendo-se dos seus reais atrativos e da possibilidade de entreter um tórrido romance dali por diante.

O vendedor que, por sinal, era proprietário da loja, ofereceu-se para ele próprio fazer a entrega da compra, na  residência da cliente,  porque desejava vê-la, deitar-se no colchão, com roupas leves e confortáveis .Declarou, sestroso, que queria  vê-la  delirar nas  suas  fantasias de mulher romântica e carente de amor.

No dia seguinte, Marisa faltou ao trabalho, ansiosa para receber a visita do galante vendedor. Convocou a diarista para preparar a sua casa, como se fora para um dia de noivado. Foi a salão de beleza, onde se preparou caprichosamente, fazendo escova no cabelo, burilando as unhas de esmalte cintilante, depilando-se totalmente, na expectativa do desejado encontro. Afinal, a aquisição do colchão tinha tudo para  transformar o seu destino solitário.

Para sua surpresa e frustração no dia seguinte à compra, eis que chega um estranho à sua porta, abraçado ao colchão.  Era um esquálido ancião, desdentado e maltrapilho o encarregado da “sonhada” entrega.

– Estou aqui a mando de Sr. Alfredo, para fazer a entrega do colchão de D. Marisa. Faço pequenos “selviços “ para o  Sr. Alfredo, que me deu  “dez real” para eu vir aqui. Oh! disse Marisa insatisfeita: por que ele mesmo não venho trazer o colchão? Prometeu que ele mesmo colocaria a mercadoria na minha cama! Ao que o ancião respondeu categórico: ele disse que eu não entrasse para conversar. Disse que não me demorasse muito, pois a “velha “  é muito depressiva e gosta de encompridar a conversa.

Diante desse veredicto, Marisa explodiu num choro convulso, percebendo que se esvaiam suas esperanças de manter um caso amoroso com o Sr. Alfredo.

Ludibriada nos seus anseios de mulher, revoltada com a própria ingenuidade, ainda assim, teve coragem de telefonar para o sedutor, a fim de manifestar-lhe a sua grande indignação! .

Afinal colchões como aquele, que adquirira à vista, são vendidos em muitas parcelas, sem juros, nas casas que negociam como esses artigos. Mas o que mais a revoltou foi ter sido chamada de “velha”. No telefone, altiva e inconformada declarou aos gritos: Caí no “esparro”, mas o senhor se vendeu por muito pouco. E, atônita, bateu violentamente o telefone.

Bahia, 1798

consueloConsuelo Pondé de Sena

Mais uma vez, o historiador Luís Henrique Dias Tavares edita livro sobre o tema a Sedição de 1798, também conhecida como: Conjuração Baiana, Revolução dos Alfaiates, fonte do seu maior interesse como pesquisador. Refiro-me à Sedição Baiana, também conhecida como Inconfidência Baiana, Levante de 1798 e Revolução dos Búzios.

Embora apoiado nos fatos históricos, Luís Henrique se permite caminhar sobre as veredas da ficção, entremeando a suavidade da narrativa romântica com a veracidade da história pungente. Cria personagens de ficção e as coloca no curso da narrativa para melhor comunicar a mensagem dos sediciosos.

Desce das alturas da consagração universitária para falar a todos sem restrição, com a simplicidade dos espíritos superiores e a prudência das almas nobres.

Este novo livro de Luís Henrique, Mestre de todos nós, dos que lhe reconhecem os méritos e valoriza os seus conselhos, é um presente para a juventude, cada vez mais afastada das leituras e obcecadas pelos ensinamentos, nem sempre seguros, da virtualidade.

Por meio desta leitura leve, fácil de ser captada na sua transparente mensagem, muitos aprenderão as verdades desconhecidas ou sonegadas. É que a própria apresentação do trabalho é um convite à leitura.

Patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia e publicado na Empresa Gráfica da Bahia, a publicação foi lançada no dia 12 de agosto, na sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (www.ighb.org.br).

As belas ilustrações contidas no livro são de autoria do artista premiado Cau Gomez, natural de Minas Gerais, residente na capital baiana, de onde é Cidadão, por título outorgado pela Câmara da Cidade do Salvador, em 2009.

Esta é uma oportunidade de homenagear o lente baiano, que lecionou história em vários estabelecimentos de ensino de Salvador, fez Pós-doutorado em London University (1978-1986), é Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia e Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia.

Apesar de o conhecido historiador ser um homem pacífico, tem gosto especial pelas rebeliões. É assim com a Sedição Baiana e com a Guerra da Independência da Bahia, temas sobre os quais sempre retorna. É como se desejasse reavivar o espírito do povo baiano e valorizar seu espírito de luta com a rememoração desses episódios.

Como mestre do ofício, sabe que o historiador não pode escapar à voz do documento. Os documentos que pesquisa para suas obras conferem autenticidade aos fatos narrados com pertinência.

O livro em questão é um depoimento de natureza didática, que informa e instrui de maneira atraente. Nele, o autor recorda os protagonistas da insurreição debelada, em número de onze escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociante, um bordador, um pedreiro, um professor, um cirurgião e um carpinteiro.

Todos esses 33 homens foram processados porque aspiravam a libertação da Bahia do jugo português e a proclamação da república federativa. Como é fácil supor, as ideias da Revolução Francesa, que acabara com o absolutismo na França, haviam se propagado com celeridade. Apesar das dificuldades de comunicação naquele tempo, esses ideais foram assimilados e veiculados pelos letrados, que os repassavam para os insatisfeitos com a dominação portuguesa.

Era de descontentamento a situação dos brasileiros, às voltas com a cobrança dos altos impostos e a falta absoluta de liberdade comercial.
Ao grupo inicial da insurreição juntaram-se outros insatisfeitos, constituídos de escravos, soldados e artesãos, regra geral negros e mestiços, excluídos da sociedade em face dos preconceitos racial e social, verdadeiros párias, banidos de todas as benesses que desfrutavam os favorecidos.

Para arrematar, devo dizer, como testemunha presencial dos pronunciamentos do Prof. Luís Henrique sobre este tema, que, ao comentá-lo, o Mestre se agiganta, revelando o seu repúdio visceral aos executores das mortes dos mártires: João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, com 18 anos de idade, e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, que foram cruelmente imolados aqui, ao lado do IGHB, na Praça da Piedade.

Lembranças de Afrânio Coutinho

consueloConsuelo Pondé de Sena

A primeira vez que vi Afrânio Coutinho, foi como examinador de concurso de Docência Livre de Literatura Brasileira, a que se submeteu Herón de Alencar, na Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras  da Bahia, em agosto de 1953.

 

Defrontavam-se, num inesquecível torneio de inteligência, um médico baiano e outro cearense, ambos direcionados para os estudos da literatura brasileira, conseqüentemente, desviados da profissão que haviam trilhado.

 

Afrânio Coutinho era filho do engenheiro Eurico da Costa o e de Adalgisa Pinheiro dos Santos Coutinho.  Nasceu em Salvador a 15 de março de 1911, e faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia, no dia 5 de agosto de 2000.

 

Sócio, desde jovem, do Instituto Geográfico Histórico da Bahia freqüentava-o assiduamente. Atuava na imprensa e lecionava História no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora:” uma escola normal da professora Anfrísia Santiago, que me encaminhou no magistério. Ensinei também nos Maristas de Salvador, onde tinha – onde tinha feito o curso secundário – História,Literatura e um pouco de Filosofia. “  Por seu turno , são suas as palavras sobre o acesso à  imprensa baiana: “Minha carreira jornalística começou nessa fase , quando fui chamado por Ernesto Simões Filho para colaborar com A TARDE. “ Graças ao jornalista Simões Filho, tornou-se conhecido, recebendo convite para  escrever em  outro jornal de grande circulação  sobre Literatura, Política Internacional, Artes e outros assuntos. Contava apenas vinte anos. Passado algum tempo, em 1940, recebeu o convite de Dário Magalhães, sócio dos Diários Associados no Rio de Janeiro, para colaborar com o Estado da Bahia, em cuja redação esteve durante dois anos, escrevendo sobre a guerra contra o fascismo, o nazismo e o comunismo.

 

Sua escolha profissional decorrera da falta de opção nos anos 20, em que, salvo a carreira religiosa, os moços só se encaminhavam para as faculdades de direito, engenharia e medicina, sendo essa última era a mais prestigiada em nosso meio, não apenas por ter sido a primeira do Brasil como pelo renome que adquirira. Ingressou na Faculdade de Medicina aos vinte anos, tendo que aumentar a idade para cursá-la.”Mas , apesar de jovem, era muito maduro e cursei os primeiros quatro anos com grande élan “ Professor por vocação, Afrânio ensinou história e literatura antes de diplomar-se, dando aulas no curso secundário. Nunca exerceu a medicina, foi bibliotecário da sua Faculdade e lecionou na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

 

Indagado sobre sua paixão pela Literatura declarou ter sido por intermédio da leitura de um trecho de Quincas Borba, publicado na Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Lair, adotada em quase todos colégios  naqueles tempos. Fascinado pelo estilo do autor, passou a ler toda sua obra.

Em 1932, já diplomado médico e diretor da biblioteca da Faculdade de Medicina, saía pelo Terreiro de Jesus e a extinta rua do Colégio , àquela altura com a Igreja da Sé  criminosamente destruída e parava na pequenina livraria “Progresso para inteirar-se das novidades.

 

Certo dia encontrou uma obra que o interessou. Tratava-se  de uma edição do centenário de Almeida Garret , que mandou reservar para si. No outro dia, passou para buscar a encomenda, tendo sido informado de que um poeta baiano, Eugênio Gomes, quis adquirir o livro, tendo  manifestado interesse em saber   quem o havia adquirido. Esse encontro propiciou-lhe uma grande amizade literária, firme até os últimos dias de E.Gomes, que lhe abriu os olhos para a crítica inglesa, vez que lhe disse Afrânio Coutinho só conhecer a francesa. Foi Eugênio Gomes seu grande orientador naquele instante de definição profissional.

 

Heron de Alencar era, para mim, uma figura familiar porque, sendo um jovem médico, convivia com meu pai, Edistío Pondé, àquela altura assistente do Prof Alfredo Brito, na Clinica Neurológica, além de à noitinha namorar com Wanda Amorim, filha do Dr. Alfredo Amorim. Era o Dr.Amorim, conceituado advogado baiano, residente na mesma rua do Desterro, onde morávamos. Cearense do Crato, Heron nasceu em 1921, vindo estudar na Bahia, tendo se formado na mesma faculdade em que se diplomara Coutinho.

 

Impossível esquecer as provas públicas de Herón, tanto a leitura da escrita quanto a defesa de tese.  Eram Herón e Coutinho eram dois “gigantes” a se defrontar diante de uma assistência atenta e entusiasmada.

 

Afrânio Coutinho era um espírito combativo, um temperamento instigador e argüiu, com vigor, o jovem estreante. Não menos vibrante foi a defesa de Alencar. Duelo de titãs.

 

Minhas lembranças são as de uma jovem estudante do Curso de Geografia e História, deslumbrada com os debates acirrados ocorridos no Salão Nobre do velho sobrado onde funcionara a Escola Normal da Bahia, ao Caquende. Concurso memorável , assistido por uma assistência seleta, constituída  de professores, alunos e amigos do candidato, que  apresentava  uma tese de título instigante: “Literatura , um conceito em crise “.  A certa altura, lembro-me bem, o examinador baiano dirigiu-se a Heron de Alencar, dizendo-lhe, mais ou menos, assim: “não se preocupe com a literatura, senhor candidato, ela não está em crise, aliás, vai muito bem, obrigado”. E os presentes sorriram com a tirada do mestre irreverente.

 

Numa das vezes em que com ele estive, declarou-me que resolvera deixar a Bahia quando percebeu que aqui não cresceria, a cidade era muito acanhada para as suas pretensões: Para gracejar comigo, disse-me: sabe por que fui morar no Rio?   Respondendo à própria indagação, declarou sorrindo: “fui embora, porque a diretoria do IGHB me incumbiu de fazer o discurso do Dois de Julho, no Panteón da Lapinha. Aquela tarefa era demais para mim.”

Brincadeira à parte, o ambiente baiano era muito limitado para as aspirações do futuro crítico literário. Ademais disso, a rivalidade profissional entre os médicos era tão acirrada  que somente os “apadrinhados” tinham condição  de vencer na cidade da Bahia.

 

Afrânio descortinou a possibilidade de sair para a capital da República. Foi-se para o Rio de Janeiro e, de lá, seguiu para os Estados Unidos, onde seu padrinho de casamento, Otávio Mangabeira, arranjou-lhe serviço no Readers Digest, sendo-lhe possível viajar para os Estados Unidos e estudar, de 1942 a 1947, na Universidade de Columbia, onde completou seus estudos literários .

 

A.Coutinho é considerado o renovador da crítica literária no Brasil. Homem independente, jamais participou das “panelinhas literárias do Distrito Federal, tendo defendido, ardorosamente, a independência   da   “língua brasileira”.

 

Entrevistado pela jornalista, Beatriz Marinho, “sobre a critica ao crítico”, declarou: “Ressentimento pelo que desestabilizei e também ao fato de que no Brasil ninguém analisa nada e, ainda, ao fato do brasileiro ser um homem de breves críticas, de não haver profundidade em nada do que se faz aqui”.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras passou a ocupar a cadeira número 33, no dia 17 de abril de 1962.

 

Estive com Afrânio Coutinho mais algumas vezes. Visitei-o em sua residência no Leblon , quando , muito gentilmente, levou-me conhecer e apreciar sua extraordinária biblioteca.  Biblioteca que se constituiu no germe da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), local onde se reuniam estudiosos da nossa literatura, realizavam-se cursos, debates, e hoje pertence à UFRJ.

 

Quando aqui esteve no Natal de 1900, para uma permanência de alguns dias, ofereci-lhe e à sua segunda esposa, Sonia, um cozido baiano, em minha casa, um almoço no sítio de Maryvonne e Jorge Malbouisson de Mello, além de ter coordenado um almoço em sua homenagem no Hotel da Bahia, do qual participaram inúmeros intelectuais amigos.

 

Ao comentar sobre a Bahia, dizia que a cidade não perdera suas características antigas, que velhos “esquemas” continuavam a funcionar e que os conterrâneos, não se conformavam com o sucesso alheio, confirmando o que o governador Otávio Mangabeira sabiamente dizia: “o baiano deixa de ganhar 200 mil reis para o outro não receber cem.”. Com efeito, a Bahia é uma terra de muito ciúme, para se vencer é necessário   atravessar a fronteira do Estado.