Edivaldo Boaventura receberá honraria do Presidente da República Portuguesa

Foto: Fábio Marconi

No dia 15 de junho (sexta-feira), às 14:30h, o vice presidente da Academia de Letras da Bahia Edivaldo M. Boaventura será condecorado (confira o folder do evento) com a Ordem da Instrução Pública no grau de Comendador pelo Consulado Geral de Portugal na Bahia. Concedida pelo Presidente da República Portuguesa, Boaventura receberá a honraria das mãos do embaixador português no Brasil, Jorge Cabral, pelos serviços prestados à educação e cultura nos dois países de língua portuguesa. A cerimônia acontece no Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), na Universidade Federal da Bahia, localizado no Largo Dois de Julho, centro de Salvador (BA). A apresentação será do também acadêmico Joaci Góes.

Em 2016, Edivaldo M. Boaventura foi empossado como membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, uma das mais antigas instituições científicas do País, fundada em 1779. A homenagem integra o projeto multicultural Bahia-Portugal: pontos que nos unem, que será realizado entre os dias 16 de maio a 19 de junho na capital baiana. As discussões se estenderão por diversas instituições (programação em anexo) em comemoração ao Dia de Portugal, do poeta lusitano Luís de Camões e das comunidades portugueses. Nos debates, haverá destaque para a literatura, música e artes plásticas. A programação é aberta ao público.

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A liderança da educação em Feira de Santana

ebEdivaldo Boaventura

Em linha direta, gerações de professores foram responsáveis pelo crescimento da educação em Feira de Santana. Certamente que muito favoreceu a proximidade de Salvador, que concentrava não somente quase toda a educação superior como também  o  ensino médio. Feira está para Salvador, urbana e educacionalmente,  como Campinas para a cidade de São Paulo.  Haja vista o número de professores que ensina na metrópole soteropolitana e na cidade princesa.

Sucessivas iniciativas  conduziram à criação da Universidade. Destacam-se  a Escola Normal, o  Colégio Santanópolis,  Faculdade de Formação de Professores. Na  década de trinta, fixa-se  a liderança  do professor Áureo  de Oliveira Filho, na educação secundária,. O  pioneirismo do  Colégio Santanópolis educou  a juventude de Feira  e atraiu jovens da região e  de toda a Bahia.Se o ensino superior demorou a se interiorizar, começando a partir dos anos sessenta,  por sua vez,  a então educação secundária, ginásios e colégios,  progrediu muito lentamente. O Santanópolis de Feira, o Colégio Taylor Egídio de Jaguaquara, o Ginásio Municipal de Ilhéus  e o Clemente Caldas de Nazaré das Farinhas, foram, pontualmente,os estabelecimentos pioneiros  do ensino secundário no  interior da Bahia.

O ensino médio público se concentrou em Salvador. De 1836, quando se criou o Liceu Provincial,  até 1947, com o surgimento dos ginásios de bairro, cantávamos apenas com um único  colégio  público  secundário,  o Colégio Central, além das escolas normais.

Antes do Santanópolis, o governo Góes Calmon instituiu a Escola Normal, em 1925, em Feira. Contribuição importante para a formação de professores primários , era prefeito Arnold  Silva. A dissertação Mestras do Sertão,  de Antônio Roberto Seixas Cruz  ( Uefs) demonstra o desempenho profissional  das primeiras normalistas.

Todavia, bem antes da Escola Normal e do Santanópolis, tivemos as escolas públicas de primeiras letras e do fundamental, no final do século XIX e início do XX., demonstração  da política educacional da República positivista.A imponência dos prédios escolares, como  o Grupo Escolar J.J. Seabra, onde hoje funciona o Centro Universitário de Cultura e Arte ( Cuca), atesta a importância  que foi dada á educação primária da classe média, pela administração municipal,  do mesmo modo os edifícios das escolas Maria Quitéria  e João Florêncio Gomes.

O Colégio Santanópolis elevou o nível intelectual da cidade e quebrou a monotonia  urbana  com a presença agitada e irrequieta dos ginasianos. Para tanto, Áureo Filho congregou  médicos e advogados, a elite profissional Com a última reforma Capanema passou de ginásio a colégio. Inovou no ensino e estimulou a cultura de diversos modos.

Poucos fizeram tanto pela educação de Feira  como o professor Áureo Filho, estendendo  a sua luta  pelo ensino onde estivesse, em nossa Feira, em Salvador, na Assembléia Legislativa da Bahia, na presidência do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino e, principalmente, na criação da Universidade Estadual..

Uma  outra geração de professores se manifesta  com a  criação da Faculdade de Formação de Professores, a partir de 1968, com cursos de Letras, Estudos Sociais e Ciências. Destaca-se a bióloga  Marinita de Oliveira Menezes, filha do professor Áureo,   coordenadora do  primeiro Curso de Ciências fora da capital. Formada em História Natural, especializou-se em Zoologia Animal Comparada, instalou moderno e completo Laboratório de Ciências,  adquirido em uma fundação ( Fundbec) de equipamentos  para o ensino científico apoiada peal  UNESCO. Dentre os alunos formados na primeira turma, sobressaiu–se   José Raimundo de Azevedo,orador da turma, ex-prefeito de Feira e  atual secretário de Educação.

A etapa seguinte foi o da Universidade, quando surgem novas lideranças, como a do  professor Gil Mário de Oliveira Menezes, neto do professor Áureo, duplamente graduado em Educação Física e em Artes  Plásticas. Na linha direta, é a terceira geração da família  consagrada  à  educação e à cultura de Feira, cada vez mais enriquecida com as suas obras de arte: monumentos ao Caminhoneiro e a Georgina Erismann.

Da Galiléia à Judéia

ebEdivaldo Boaventura

Os objetivos para conhecer Israel são bem diversos.O debate acerca  da sua situação, no  Oriente Próximo,   não elimina  a vontade de visitar  o Santo Sepulcro e as  estações da via dolorosa. Os Santos Lugares e a modernidade de Israel  são os  polos de maior atração.  Compreenda-se, assim, porque 93% do turismo para Israel é impulsionado pelos cristãos. Acrescente-se a curiosidade arqueológica e histórica e o conhecimento das inovações que impactam bastante o visitante. É notório o interesse pelo gotejamento como técnica de irrigação.

Desde a chegada ao aeroporto Ben Gurion que senti a inovação: a identificação pelas digitais e pelas pupilas. Digitalização aplicada à identificação.

Todavia, uma vez instalado no hotel em Tel Aviv, surgiu  um probleminha tecnológico o  que não é peculiar somente  a Israel. É o adaptador de tomadas (plug) para quem usa notebook.. A tomada brasileira é diferente da israelense, da portuguesa e da chinesa. Há, pelo menos, seis tipos de adaptadores !   A tecnologia tem os seus caprichos nacionais .

O primeiro contacto com a cidade  foi no jantar à beira-mar, em um  tablado de restaurantes.Como centro comercial, financeiro e cultural, Tel Aviv lidera a vida do país.  Daí saímos em direção ao norte para conhecermos as ruínas e o parque de Cesarea. Cesarea foi uma magnífica cidade, construída pelo rei Herodes para recepcionar os romanos, composta de  porto,  teatro, palácio, hipódromo, aqueduto  e banhos.

Em direção à Galileia, que é bem verde, em evidente contraste com o sul, onde se encontram os desertos da Judeia  e de Negrev, chegamos à cidade de Haifa,. É  o principal porto do  país e  de grande calado  que movimenta o comércio internacional. Em Haifa, a comunidade Baha´i tem o seu centro mundial  com magníficos  jardins  que convidam à  completa   meditação,  com  paz e segurança. Para o almoço, fizemos uma pausa em uma  aldeia drusa, Deliat El Carmel. Os drusos, minoria árabe, separada do ponto de vista cultural e religioso, mantêm seus costumes e tradições. Encontram-se ao norte de Israel, no sul do Líbano e da Síria. Nas refeições, os drusos cultivam o colorido da mesa  com a sua deliciosa culinária. Há uma aspecto conhecido de sua filosofia de vida: pregação da completa lealdade ao governo do país onde vive  e trabalha É o conceito de  taquiia.

Aos poucos íamos nos aproximando da evangélica cidade de Nazaré, centro do maior interesse religioso com  a   basílica da Anunciação.  É a maior cidade árabe de Israel com intensa presença de turistas e com cerca de 30% de árabes cristãos. A cidade está  associada  à infância e aos primeiros anos do ministério de  Jesus. Além da enorme basílica, há outros monumentos, como a igreja grega do Arcanjo Gabriel,construída  em cima de  “ O poço de Maria”, a sinagoga onde Cristo recebeu ensinamentos e depois pregou e a igreja franciscana de São José, construída em uma caverna, onde teria sido a sua oficina.Há ainda  muito a ser conhecido no norte. A exemplo de Gamla, que lembra a revolta dos judeus contra os romanos, e as montanhas de Golan com a produção moderna de vinhos.

Indo de Tel Aviv em direção ao sul, encontra-se a antiga cidade de Yafo (Jaffa), que Napoleão visitou e não gostou.   Deixando Jerusalém à esquerda, seguimos a rota do bom samaritano para Jericó, que fica na West Bank, considerada a cidade mais antiga do mundo. Começa, então, a aparecer  o deserto rochoso, com manchas verdes de  tamareiras onde avistamos alguns beduínos. O ambiente lembra por demais os cenários  bíblicos do jovem e ungido David, escondendo-se nas  cavernas de Ein Gedi, perseguido pelo  rei Saul,  e  recorda ainda o  nosso pai  Abrahão com os seus rebanhos  e tribos.

Rumamos para Massada, fortaleza que os romanos cercaram e finalmente tomaram com o sacrifício pelo suicídio coletivo dos judeus. Salvaram-se duas mulheres com crianças, que depois testemunharam o fato, conforme nos conta o historiador  Flávio Josefo. Bem perto, o Mar Morto – Mar Salgado ou Mar de Asfalto para os judeus antigos – nos aguardava para o  banho medicinal de lama em águas  densamente salgadas. Era chegado o momento de subir à Jerusalém.

Academia de Ciências da Bahia

ebEdivaldo Boaventura

Em primeiro de junho de 2011, o professor Roberto Santos instala a Academia de Ciências da Bahia (ACB). Agremiação que idealizou e criou como suporte ao conhecimento básico. Compreenda-se a fundação da Academia de Ciências, na sua trajetória científica e acadêmica, iniciada como professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Como reitor,  liderou a  reforma modernizadora desta Universidade. Prosseguindo, presidiu o Conselho Nacional de Educação e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Como líder político, voltado para o serviço das causas sociais, em boa hora, governou o Estado da Bahia, desenvolveu a agricultura, criou hospitais, escolas e, pioneiramente; concebeu e construiu  o Museu de Ciência e Tecnologia, dentre muitas outras iniciativas. Foi ministro da Saúde e deputado federal. Todos estes cargos e encargos os exerceu com o interesse maior voltado para a Bahia.No seu ímpeto criador, agora, é  a vez da  Academia de Ciências da Bahia.

Como seu antigo auxiliar, reputo sumamente importante a sua crença em nosso povo. Ele sempre achou que os baianos poderiam muito realizar pelo conhecimento e pela cultura, para tanto se esforçou em formar recursos humanos. É muito do seu proceder agregar companheiros para estimular a investigação científica. Dentro dessa diretriz, modernizou o ensino médico a partir da sua experiência de professor e pesquisador da saúde e criou os primeiros mestrados e doutorados da Ufba.

Concebeu a Academia  como  suporte  à ciência que se desenvolve entre nós. Juntou,  inicialmente, antigos alunos, como a reitora Eliane Azevedo e o médico  Armênio Guimarães, e convocou professores e pesquisadores  a exemplo de Antônio Ferreira da Silva (Física), Bernardo Galvão Filho (Medicina), Dante Galeffi (Filosofia/Educação), Enaldo Vergasta (Matemática), José Carlos Barreto Santana (Geologia/reitor da Uefs), Nádia Hage Fialho (Educação). Como sempre procedeu, começou, muito democraticamente, a discutir os propósitos de uma Academia de Ciências para a Bahia.

Para o projeto da Academia, ampliou a discussão com outros  lideres da comunidade científica como Antônio Celso Spínola Costa,  Robert Verhine, Carlos Marcílio, Jailson de Andrade, Aroldo Misi, Manuel Barral Netto,  Edgard Marcelino Netto, Zilton de Araújo Andrade,  Maurício Barreto, Mitermayer Galvão dos Reis, Naomar Monteiro, Olival Freire Júnior.

Vem bem a propósito a maturidade alcançada e os resultados obtidos pela criação dos institutos do conhecimento básico, quando reformou a UFBA, de 1967-1971 Como reitor, dirigiu a  criação dos Institutos de Matemática, Física, Química, Biologia, Geociências, Ciências da Saúde, Letras,  Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Além do aporte   financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que possibilitou construir e equipar o campus da Federação,  a UNESCO  e outras entidades internacionais contribuíram com  a  vinda de  cientistas estrangeiros. Formou-se, assim, pela primeira  vez, entre nós, uma estrutura responsável pelo  desenvolvimento da ciência.

Para a criação da agremiação científica, doutor Roberto procurou a participação dos organismos interessados na ciência e tecnologia. Destaquem-se a cooperação  da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação. O espírito gregário do fundador da Academia, desde o início, apelou para a participação  destas entidades que  responderam  positivamente. Ressalte-se a acolhida  do diretor-geral da Fapesb, professor Roberto Paulo Machado Lopes.

Ademais a Academia, voltando-se  para  a diretriz  Ciência e Tecnologia (C&T), tem contado  com a cooperação  do presidente da Federação das Indústrias da Bahia (FIEB), José Mascarenhas, que acolheu com entusiasmo os propósitos da Academia. Aliás, os objetivos da Academia  coincidem com as  atuais   políticas  de C&T da FIEBA,  razão pela qual a sessão de instalação se realiza em sua sede.

A Academia das Ciências nasce no momento em que a Bahia enfrenta desafios científicos e tecnológicos, na expansão de  novos investimentos liderados pelo governo de Jacques Wagner.

A volta de Góes Calmon

ebEdivaldo Boaventura

Passado o Carnaval, quando tudo recomeça em Salvador, reabrem-se as escolas, alunos e alunas povoam as ruas e o mar fica mais alto. É a Quaresma que prepara a Páscoa. Em março, três lideranças baianas são evocadas: Pinto de Aguiar, economista, é biografado por Consuelo Novais Sampaio; Arlindo Fragoso, criador da Escola Politécnica e da Academia de Letras, patrocina a Medalha do Fundador; e Góes Calmon retorna à sua casa, em bronze. Para São Paulo, a imortalidade “é o poder de uma vida que não tem fim.” Góes Calmon de corpo inteiro compõe o conjunto do nosso sculptural garden, juntamente com os bronzes de Jorge Amado, Octávio Mangabeira, Cervantes, Arlindo Fragoso, Pedro Calmon e, mais recentemente, Jorge Calmon. Com a estátua de Góes Calmon, nos jardins da Academia, o governador volta ao seu solar. O trabalho é do escultor Pachoale de Chirico. A transferência e restauração de José Dirson Argolo, que concretizou o desejo da Academia e da família, à frente o seu neto, ministro Ângelo Calmon de Sá. Por proposta do acadêmico Paulo Ormindo Azevedo, postou-se o bronze bem à esquerda de quem entra na Academia.

O governador continuará a receber os que chegam, como recepcionou outrora o presidente Afono Pena, os pioneiros Gago Coutinho e Sacadura Cabral e o príncipe Umberto de Sabóia. É longa a tradição de cultura da casa do Caquende.

Poder contar com a imagem de Góes Calmon torna-se um significativo enriquecimento para a Academia. Aumenta-lhe o patrimônio moral e material com a figura do criador da casa e estimulador do serviço às artes.

Francisco Marques de Góes Calmon, nascido em 6 de novembro de 1874, faleceu em 29 de janeiro de 1931. Advogado comercialista, banqueiro, nunca foi político partidário, porém indicado para o governo por Seabra, a manobra política deu certo. Homem de prestígio, diversas classes aderiram à sua candidatura que o elegeram para o governo da Bahia (1924-1928). Assim, Seabra, com a vitória de Góes Calmon, perdeu o controle político do Estado.

Na geração dos Calmon que fez a independência, destaque-se o marquês de Abrantes, Miguel Calmon Du Pin e Almeida (I). Com a República, outra geração dos Calmon domina a cena baiana. Miguel Calmon Du Pin e Almeida (II ) assumiu o Ministério da Agricultura com 27 anos e elegeu-se senador.

Antônio Calmon, líder popular, dominou Salvador; por fim, o irmão Francisco Marques de Góes Calmon elegeu-se governador.

Este começou como advogado voltado para o direito comercial, incluindo interesse pela administração bancária. Presidiu o Instituto dos Advogados da Bahia.

Depois, dirigiu o Banco Econômico, notabilizando-se como financista. Dentre as várias obras, destacam-se os seus estudos sobre a vida comercial da Bahia.

No governo, saneou as finanças, equilibrou o orçamento, pagou as dívidas, reformulou a economia e estimulou a agricultura. É o primeiro governador a ampliar a rede rodoviária, roteando as estradas. Encarava a capital como entreposto e o sertão, centro produtivo. Visitava constantemente os municípios, sem comitiva e sem aparatos. Convocou Anísio Teixeira para a educação, que procedeu a reforma de ensino com as primeiras escolas normais.

Abriram-se escolas construídas apropriadamente para a aprendizagem. Era Góes Calmon professor de geografia e história do Ginásio da Bahia. Para Anísio Teixeira, Góes Calmon foi sobretudo educador: “O governo da Bahia se tornou uma escola de coragem, de ação e de devotamento às coisas da Bahia.” Além de todos esses postos, Góes Calmon era um apreciador do belo, um esteta, um colecionador das diversas artes, pintura, escultura e decorativas. Construiu uma casa de altíssimo gosto que veio a ser o Museu do Estado da Bahia com a coleção Jonathas Abbott. Hoje, sede da Academia de Letras.

Para o historiador das bandeiras, Afonso de Taunay: “E, como raros entre nós, Góes Calmon tinha a intuição dos valores estéticos, em considerável número de ramos da ciência do conhecedor.” Inauguração da estátua de Góes Calmon, em 22 mar. 2011, às 17h30, na Academia de Letras da Bahia. Av. Joana Angélica, 198, Nazaré. Salvador.

O exemplo de Israel

ebEdivaldo Boaventura

Chegando de um seminário sobre Israel e o Oriente Próximo, na Universidade Hebraica de Jerusalém, desejo compartilhar as impactantes impressões da visita a um país moderno, democrático, com notável desenvolvimento científico e tecnológico e muita determinação política.

Israel afirma-se pelo seu passado bíblico, de Abrahão a Ben Gurion já lá vão alguns séculos de existência como nação. Nação que se formou ao longo do tempo com patriarcas, juízes, reis, destaque-se o rei David, que fixou a capital em Jerusalém. Sofreu o cativeiro de assírios e babilônios e a dominação romana, bizantina, árabe, dos cruzados, dos otomanos, por fim, esteve sob mandato britânico. Com a volta do povo judeu à terra de Israel, foi proclamado o Estado, em 1948. Começaram, então, as lutas pela afirmação da independência com guerras e depois com tratados de paz.

O reconhecimento dos direitos históricos do povo judeu, pela ONU, há 60 anos, confirmou a sua tradição de cultura, máxime da música, a inclinação para a ciência e a tolerância religiosa pela convivência com diferentes crenças e povos, com os drusos, por exemplo.

A bíblica nação retornou ao seu território e tornou-se um Estado soberano e progressista.

País moderno que assegura uma política de bem-estar social, com infraestrutura de serviços básicos e sobretudo com segurança.

Anda-se livremente de dia e de noite sem receio de assalto, tanto na high tech cidade de Tel-Aviv como na antiga, bela e harmônica Jerusalém, especialmente no convidativo bairro árabe e no mercado judeu. Em nenhuma parte me senti temeroso. A modernidade iguala efetivamente os gêneros com as mulheres fazendo o serviço militar e gozando de uma real e visível equiparação.

O país moderno, ladeado por uma sociedade tradicional, encontra-se em uma encruzilhada de três continentes. Vendo-se o mapa, percebe-se logo a confluência da Europa, Ásia e da África, sim, com a turística cidade de Eilat no Mar Vermelho.

Com os palestinos surgem os desafios para a paz. Como resolvê-los? Há possibilidades e oportunidades de encaminhamentos na Cisjordânia (West Bank). Com a Faixa de Gaza a situação continua muito tensa. Não obstante a segurança, os foguetes lançados alcançam a cidade de Sderot. Crianças e adultos foram atingidos e mortos pelos Kassams e por outros mísseis. O governo israelense constrói abrigos nos pontos de ônibus, nos colégios, nos edifícios de apartamentos e nas casas.

O Estado de Israel constituiu-se um praticante da democracia desde a declaração de independência. Uma democracia parlamentar tem à frente o Knesset, o parlamento israelense de uma só câmara, com 120 deputados, que retirou nome e número da assembleia convocada por Esdras e Nehemias, no século V A.C. Orna-lhe o saguão o extraordinário painel do pintor judeu-russo Marc Chagall uma evocação ao profeta Isaías.

Pela democracia israelense se compreende o respeito e o acatamento às diversas culturas e religiões: árabes muçulmanos; beduínos, que constituem aproximadamente 10% da população muçulmana; árabes cristãos; drusos, comunidade muçulmana separada religiosa e culturalmente.

Em Jerusalém, há inúmeras denominações religiosas, como os judeus messiânicos, armênios, primeiro povo que aceitou o cristianismo, cristãos católicos e outros.

Tudo isso conduz, finalmente, ao singular desempenho científico israelense. Desde o começo, houve vontade de transformar a terra árida e infestada de doenças com aplicação da pesquisa científica e tecnológica.

A investigação agrícola, que remonta ao final do século XIX, é um sucesso com o gotejamento e outras técnicas. A pesquisa médica e especificamente em saúde alcançou a mais alta qualificação. As atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) são realizadas pelas sete universidades, por institutos, empresas civis e militares, nos setores prioritários das ciências naturais, engenharia, agricultura e medicina. O primeiro chip para computador foi desenvolvido pelo Dr. Dov Frohman, da equipe da Intel, nos anos 70. Israel é líder mundial em fibras óticas e na energia solar. Os produtos derivados de P&D constituem mais da metade da pauta de exportações industriais.

A construção do Brasil

ebEdivaldo Boaventura

          A Bahia é sumamente grata e mais ainda reconhecida pelo muito que o professor Jorge Couto tem realizado pelo Brasil. Professor e intérprete de História do Brasil, na Universidade de Lisboa, tanto a  sua dissertação de mestrado como a  tese de doutorado versam sobre o Colégio dos jesuítas do Recife. Publicações em congressos e em revistas internacionais incidem em temas e problemas brasileiros. Empossa-se, hoje, como sócio  correspondente  do Instituto Geográfico e Histórico da. Bahia Couto trabalhou como assistente do professor Joaquim Veríssimo Serrão, sócio honorário  do Instituto, notável historiador português, mestre de gerações, que o orientou no mestrado e  o convidou para colaborar no ensino da História do Brasil.

            Um dos temas que  Couto tem pesquisado é a obra dos jesuítas.Sobressaem, no Brasil colonial, as estratégias de implantação da Companhia de Jesus, os conflitos entre os inacianos e a coroa  por causa dos índios, as relações com a escravatura, as estratégias e os métodos de missionação no Brasil, a fundação das missões jesuítas no  Maranhão e no Grão-Pará e a participação do padre Antônio Vieira. As abordagens acerca dos inacianos são importantes na história européia moderna.

            No que tange a Vieira, imperador da língua portuguesa ( Fernando Pessoa), o professor Couto coordenou  a  bibliografia de 1998-2008. Entre os seus trabalhos, “Vieira e o domínio neerlandês da cidade do Salvador” deve ser  uma leitura dos sermões referentes  à tentativa dos flamengos em apossar-se da Bahia, principalmente o sermão de Santo Antônio de 1658.

            Com referência ainda aos jesuítas, a tomada de posse  do professor Couto coincide com o momento em que nos preparamos para assinalar  a segunda vinda dos inacianos à Bahia. Vejamos. Os jesuítas estiveram na Bahia  de 1549 a 1758, quando montaram um coerente sistema de ensino,  chegando até a ensinar Filosofia e Teologia. Sistema de ensino que foi desmantelado pela expulsão da ordem pelo marquês de Pombal. Em 1834, os jesuítas sofreram uma segunda extinção quando foram novamente expulsos de Portugal..Mais uma vez, a terceira,  com a República Portuguesa proclamada em 1910,  as ordens religiosas, incluindo a Companhia de Jesus, foram extintas e os jesuítas expulsos do território português.Pois bem, foram esses padres desterrados que, em 1911,  fundaram o Colégio Antônio Vieira, em 1911, em Salvador. Voltaram, assim, os inacianos à Bahia, de onde estiveram ausentes por mais de século e meio.

            Um destaque especial merece o livro de Couto “ A construção do Brasil: amerídios, portugueses e  africanos, do início do povoamento a finais de quinhentos.” Realmente, como mostra  o autor, tudo concorreu  para criarmos uma cultura portadora de uma profunda originalidade, tipificando um país  mestiço e tropical.

            Há de se destacar a vinda do professor Couto por mais de  mais de 30 vezes ao Brasil, inclusive para  pesquisas de Belém do  Pará até Santo Ângelo, em busca de documentos e bibliografia. Tem presença marcante em congressos e simpósios luso-brasileiros, reuniões  internacionais e colóquios  como o de historiografia luso-brasileira revisitada, promoção do Instituto de Estudos  Avançados da Universidade de São Paulo.

            Recentemente,  o professor Couto coordenou o Colóquio Internacional dos 200 anos da chegada  da família real ao Brasil, no centro Cultural da Fundação Calouste Gubenkian, em Paris. Deste colóquio saiu a publicação  “ Rio de Janeiro, capital do império português ( 1808-1821)”,com participação de Sylvia Athayde e minha,  a ser lançada  hoje, no Museu de Arte da Bahia, juntamente  com uma  outra obra importante  da Fundação Gubenkian:  “ Patrimônio de origem portuguesa no mundo: arquitetura e urbanismo- América do Sul.“

            Além de mestre  do ensino  da História do Brasil, o professor Couto participa de obras coletivas, enciclopédias e representações  junto aos Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Presidiu o Instituto Camões..Atualmente,dirige a Biblioteca Nacional de Portugal. Distinções e condecorações recebidas atestam os méritos do professor e de servidor da cultura.