Maré Alta

glGláucia Lemos

Foi entrando pela água adentro e alcançou a coroa. Sentou-se e esperou morrer. A maré estava baixa. No dia seguinte era março. À noite a maré subiu. Chegou até a coroa e cobriu o corpo da mulher. Os peixes roeram-lhe as pálpebras e os siris entraram-lhe pela boca. E nunca mais ninguém mariscou na coroa.

Contam que quando ela atravessou a praia, ainda um filete de sangue escorria pelas suas pernas. E foi deixando um rastro vermelho pela água tranqüila.

Não era igual a mãe que nunca aquietava calada, não trocava camisa para brigar. E quando faltava de que reclamar, falava sozinha. Não era. Comia calada. Assuntava o que se passava em volta, mas calava. A mágoa crescia por dentro que nem maré de março.

A mãe tomou conta da criança. Era um menino quieto que tinha nos olhos a expressão tranqüila dos homens que passam a vida no mar. Diziam que era filho de um marinheiro que emprenhara a mulher e se fora. Ninguém sabia ao certo. Pureza era calada. Uma pomba sem fel – dizia a mãe, querendo engrandecer. Uma mosca morta – acrescentava quando queria destratar. Ela não dizia nada. A barriga crescendo e ela calada. Ouvindo tudo sem opinião nem resposta. Ignorando as perguntas como se não fossem com ela.

Mas que o menino tinha aqueles olhos cheios de paz, isso ele tinha. Jerônimo foi crescendo como os outros meninos. Comendo papa de farinha dada na boca pelos dedos da avó, e arrastando a barriga cheia de lombrigas pelo chão batido do casebre. A cara suja de terra. Indo à praia enganchado na anca da avó, à cata de mariscos. Crescia acostumado com a velha que lhe cuidava sem muito carinho mas também sem maus-tratos. Ás vezes, já grandinho, saia caminhando até o cais, ao anoitecer. Alguma coisa por dentro traindo um vazio. Uma necessidade estranha, uma angústia, e ficava sentado nas tábuas do cais, olhando a coroa ali próxima, ou o horizonte distante. E espantando os mosquitos das pernas encardidas. Horas a fio.  Recolhido, calado, quieto. Depois a avó o procurava e vinha a bronca.

– Tá de calundu outra vez. É que nem a mãe
Quando embirra de ficar calado ninguém arranca uma palavra.

Outros diziam que era filho do prefeito. Pureza  lavava para a família do prefeito e todo fim de semana lá ia levando a trouxa de roupa. Os olhos sempre úmidos e brilhantes. E a boca carnuda, que nem fruto de dendê maduro, sempre calada e sisuda. Quando dona Olga viajava para o sítio, ela entrava pela casa da patroa e recolhia a roupa suja das crianças. Fazia tanto tempo que lavava para eles, que era como se fosse da casa.

Quando botou barriga alguns começaram a falar que bem poderia ser filho do prefeito. De alguma daquelas segundas-feiras em que se demorava na casa, recolhendo as roupas da semana. Ela não dizia nada. Caminhava normalmente pelas ruas, o vestido empinando na frente, levando e trazendo as trouxas, ou mariscando siri e papa-fumo pela praia, sem esconder a gravidez. De ninguém. Nem mesmo da mãe. Nem mesmo de Ernesto.

A mãe brigando. Como brigava por tudo.

– Tá prenhe. E quem é o pai? Não tem vergonha do marido paralítico em cima da cama? Penando que nem um desvalido há tantos anos?

Pureza calada. E a velha.

– Não tem mesmo é vergonha na cara.

A mulher foi até a porta do quintal. Ergueu o ferro a carvão e soprou forte. As brasas estalaram e as faíscas saíram pela boca do ferro. Voltou à mesa de engomar. A velha continuava na ladainha.

– Não pode viver sem homem, é? Ernesto é paralítico mas ainda não morreu, não. Não tem vergonha de passar na cara desse infeliz com a barriga de outro homem?

Pureza esticou na mesa o vestido branco de dona Olga. Desfez uma ruga. Passou o ferro com cuidado.

–  Vai, descarada, diga aí. É do marinheiro? Bem feito que ele se picou no mundo. Agora, se não é do marinheiro, heim? Se é de seu Abílio… rum… Tá pensando que ele vai lhe dar alguma coisa? Vai dar mesmo é um pontapé na bunda pra tu tomar vergonha. Coitado de Ernesto, esse, sim, é um infeliz.

A mulher calada. O ferro indo e vindo em suas mãos, por cima da roupa da mulher do prefeito. Não levantava a vista do trabalho. Em seguida, arrumou as peças dentro de um lençol bordado e prendeu os lados com presilhas. A barriga grande, os movimentos lentos. O corpo pesado. Entrou no quarto onde Ernesto dormia. Olhou em cima do estrado o que restava do marido. Um corpo insensível, parado, sequer movia os braços, mal conseguia falar.

Amara aquele homem, sim. Tinha-o amado muito. Tinha sido tempo bom, aquele. Moços os dois, cheios de vida. Depois, havia seis anos, ficara morrendo com ele na sua infelicidade. Acompanhando sua morte lenta em cima da enxerga. Ela, porém, estava viva! Viva! Será que a mãe não entendia isso? Por que teria que morrer junto com o homem? Estava viva! Viva! Deus do céu…

O filho estremeceu na barriga. Olhou outra vez para o homem. E chorou. Não sabia bem por  quê. Mas chorou naquela noite como nunca.

O homem mais velho que a própria idade, nada tentava perguntar. Encolhido em seu estrado, as pernas mortas, como de resto, quase todo o corpo, enrolado na coberta de chitão lavadinha e remendada por Pureza. Reduzia-se à sua solidão de paralítico. Desde o desastre da Leste, havia seis anos, vivia ali, como um bicho de estimação. Pureza dava-lhe o alimento à boca e o banho no colo como se fosse um bebê. E o homem foi mirrando, murchando, como um maracujá que enruga. E parecia um ancião. As mãos encurvando, as pernas secando.

Nada tentava perguntar à mulher. Para quê? Não tinha de que se queixar. Ninguém sabia se sentia ciúmes do vigor de Pureza nos seus trinta e oito anos cheios de sensualidade. Ninguém o sabia. Ele só olhava para ela longamente, e, quando seus olhos a surpreendiam alguma vez parada à porta dos fundos, os olhos na folhagem agitada do quintal ou no pedaço de mar que podia avistar, seu coração enchia-se de piedade pela mulher. Ainda moça, cheia de fogo, amarrada a ele que nada mais tinha a lhe dar. E, sem reclamar, calada como era e sempre fora.

Viu a  barriga da  mulher crescendo, e ela sem alterar os seus hábitos, sem evitar encará-lo, sem diminuir seus cuidados e sem os aumentar. Como se nada estivesse acontecendo.

O coração do homem enchia-se de angústia e ele fechava os olhos quando ela entrava no quarto e, quieta, como era seu jeito, banhava-o, alimentava-o, perguntava-lhe se precisava de alguma coisa.  Solícita como antes, como sempre fora.  Ele não tinha coragem de lhe perguntar por nada. De nada lhe cobrar. Seis anos… Era muito tempo.

Quando Jerônimo  foi crescendo, Ernesto ficava observando. O cabelo crescia clareando. E a pele morena igual à de Pureza, queimada ao sol e ao salitre, fazendo contraste com o cabelo claro, lisão, que nem cabelo de milho novo.  Reparando mais, o cabelo era bem como o cabelo de seu Abílio, o prefeito. O marinheiro ele não conhecera. Diziam só que passara uns dias, poucos, e se fora, só falavam dos olhos calmos do menino, mas ele não tinha como comparar. E a mulher, teimosa do jeito de um burro, nunca dissera nada. Morreu como viveu. Calada. Guardando só para si mesma, seus gostos e seus desgostos.

O menino crescendo como os outros meninos, roubando mangas pelos sítios. Pulando do cais, nadando nas águas da bacia, fazendo carreto no porto, vendendo mariscos aos veranistas, em prato de esmalte. Do pai e da mãe não perguntava. Também, o tempo passando, o povo esquecendo. Ninguém  se lembrava mais de comentar do prefeito ou do marinheiro. Só as mulheres mais velhas, olhando a coroa, de vez em quando falavam da mulher que procurara sua morada na areia do mar. Falavam em assombração, Ninguém mais mariscou na coroa, por isso. Por mais baixa que estivesse a maré.

Um dia Ernesto morreu. Amanheceu morto. O corpo pequenino que se fora reduzindo pela longa paralisia. A velha fechou-lhe os olhos enquanto dizia:

– Deus te tenha no seio da santa glória.

E, noutro tom:

– Descansou.

Durante o velório, Jerônimo, quieto, de olhos compridos ficou ainda mais calado. Não sabia  porque, uma garra lhe apertava o peito. Nunca tinha visto uma pessoa morta. Nunca ligara muito para aquele homem enfurnado em um quarto que exalava cheiro morrinhento. A avó levava-lhe mingau, três vezes ao dia, lembrava-se bem. Mas, agora que morrera é que lhe parecia real. E fazia-o sentir que, um dia,  também fora real a mãe que  nunca vira. Que lhe fora, até então, como Deus, alguma coisa que sabia existir, mas sem noção exata, e sem se importar muito com isso.  Ficou olhando Ernesto, de uma palidez arroxeada, naquele caixão de tábuas. A curiosidade foi despertando, e, pela primeira vez, perguntou à velha:

– Vó, como foi que minha mãe morreu?

A velha, numa surpresa, pôs no rosto do menino os olhos miúdos, e demorou-se com o olhar sem brilho, para encontrar a palavra na voz cansada. Depois, segurou a  mão do neto  e arrastou os chinelos até a porta do casebre. O braço esticado apontou a coroa.

– Tá vendo ali? Onde ninguém quer ir mariscar? Foi ali. Quando ela sentiu a dor, era finzinho de fevereiro. Você demorou muito para nascer. Ali, naquele quarto, Ernesto chorava, coitado, soltando uns gemidos horríveis, de quem quer falar alguma coisa mas não consegue senão grunhir. Ernesto gostava muito de sua mãe. Toda vez que ela gemia,

a cara dele ficava que nem a cara de um cão danado. No outro dia, você nasceu… Eu não quis mais nem olhar para a cara dela.

Foi nessa hora que a mulher se levantou da cama onde tinha acabado de parir, e entrou no quarto do homem. E viu a máscara de dor no rosto do marido. Seus olhos mais expressivos à medida que ia perdendo o uso da palavra, não tinham mais a mansidão habitual, o ar

de agradecimento e de resignação. Havia nos olhos de Ernesto uma mágoa tão funda e tão gritante que contraía os músculos da face e o tornava terrível de se ver. Com aqueles olhos transtornados ele olhou a mulher no rosto demoradamente. Mas a voz parada, sem poder falar mais nada. Que nem maré morta.

Pureza sentiu a mágoa do marido no seu próprio peito. Dentro dela o coração cresceu, cresceu até que estourou.  E ela cuspiu sangue. E seus olhos choraram sangue.

Foi aí que Pureza saiu e foi andando até a praia e entrou na água, Era fim de fevereiro. Ficou sentada no alto da coroa até que chegou março e a maré cresceu e cobriu tudo. E ninguém viu mais nada.

Jerônimo soltou a mão da avó e correu para  a praia. A maré estava alta. O menino parou na fita de espuma onde o mar  se encontrava com o pedaço de praia que a maré grande ainda deixava. A água fria lambendo seus pés maltratados, de unhas encardidas. Olhou para a água. Viu à sua frente um rastro de sangue que se mexia com o movimento do mar. Como uma estranha estrada que se abria e levava à coroa.

Fitos os olhos modorrentos, resoluto o corpo raquítico jogou-se à água e seus braços magros começaram a nadar seguindo o rastro.

Mais uma vez era março. E havia peixes e siris habitando a coroa.

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O sinal de nascença

glGláucia Lemos

Maravilhados com a imponência da sala, olhávamos tudo com  incontida curiosidade, pois nunca a tínhamos visitado antes, Começávamos  a conhecer cada peça do mobiliário enquanto, ao mesmo tempo, eu tentava reconhecer as personagens retratadas e emolduradas nas redomas que pendiam das paredes, suspensas por longos cordões trançados.

Aquele senhor moreno de cabelos lustrosos, espessos bigodes bem aparados e  costeletas recortadas, era, sem dúvida, o meu bisavô Diogo. Olhar severo sob sobrancelhas negras, queixo forte e nariz afilado, formavam um belo conjunto definindo bem o rosto do homem de cuja personalidade impressionante eu estava acostumada a ouvir falar desde a minha infância.

Comentavam, em tom que se equilibrava entre respeito e temor, que administrava o engenho com punho firme, aplicando igual rigor na consideração dos erros e dos acertos, quando punia cruelmente os primeiros e premiava generosamente os segundos. Não conhecia meias medidas, ou, se as conhecia, preferia ignorá-las. Nunca perdoando, jamais negando prêmio. Mas tudo na exata medida em que lhe parecia.

Aquela moça da redoma a seu lado, era, com certeza, a minha bisavó Idalina.  Olhei-a com simpatia. Demorei-me examinando o rosto delicado e fino. Cabelos escuros, penteados em bandós, ornavam as faces brancas que me pareceram de louça. Olhos grandes e claros irradiavam uma expressão tranqüila, embora, talvez, um toque de melancolia.

Corri ao grande bisotê  que encimava um console e comparei meu rosto. Era verdade. Eu era muito parecida com a minha bisavó, como  minha mãe costumava dizer. Os olhos cinzentos, graúdos, a conformação do nariz, o desenho dos lábios. Se me penteassem uns bandós, poderiam dizer que aquela foto era minha. Teria tido minha mãe uma premonição ao escolher para mim o mesmo  nome de sua avó.  Apenas uma diferença existia entre os nossos rostos: eu trazia na face esquerda um sinal de nascença. Um pequeno traço oblíquo que poderia ser confundido com uma leve cicatriz de arranhão. Sinal que não encontrava no rosto sem mácula da minha  bisa Idalina.  Dizia a crendice popular que minha mãe, quando grávida, teria guardado em seu sutiã algum objeto de forma semelhante àquela que acabara por marcar o meu rosto. Talvez uma fina corrente de medalha que costumasse usar no pescoço, repousasse por acaso entre seus seios.

Devagar, continuamos explorando o casarão. Examinávamos  tudo cuidadosamente,  Olívio e eu. Gostamos da estante de canto, da delicadeza de uma enorme cristaleira  jateada com ramagens, onde ainda estavam guardadas  donzelas, jarras de opalina e compoteiras. Rimos da namoradeira, cada assento voltado em sentido contrário ao do par. Olívio apaixonou-se pela cômoda barroca  e se deixou apreciando as graciosas volutas, enquanto  eu me pus a andar pela sala  e, foi então que encontrei a cadeira. Era algo extraordinário, imponente.

Uma cadeira de braços, de espaldar alto, estava colocada em lugar de destaque no salão. Parecia um trono. Ouvira falar dessa famosa cadeira do meu bisavô. Sentado nela, o fidalgo ditava as ordens no engenho.  Demorei-me apreciando-a Pernas sólidas que terminavam em pés de dupla garra.  O encosto lavrado, ostentava no alto o brasão, à maneira das armas de uma casa nobre.  A quantas cenas aquela cadeira teria assistido… Sentado nela meu bisavô teria exercido seu tirânico poder sobre familiares, mucamas e escravos daquela propriedade. Atraída, fui-me aproximando. Quanto mais me aproximava, mais me sentia atraída pela cadeira. Comecei a sentar-me. Tão logo acomodei-me no assento, fui possuída por estranha sensação de poder. Inicialmente atribuí à situação da peça, como um trono em local privilegiado na imponência da sala. Procurei avistar Olívio. Estava ajoelhado examinando os pés de bronze de uma  arca. As solas dos tênis, voltadas para cima, mostravam-se muito sujas da terra do jardim. No meu costumeiro cuidado por asseio na casa,  isso me fez sentir inexplicável irritação que me tomou subitamente. Um sentimento novo e agressivo. Procurei conter-me e chamei:

– Olívio!

Meu marido estava inteiramente absorto, sentindo nos dedos o caprichoso lavrado que ornamentava a  arca, apaixonado que era por arte de marcenaria. Seu silêncio inspirou-me um sentimento de ira incontrolável, até então desconhecido para mim, e gritei:

– Olívio!!!

Assustado, ele ergueu-se de um salto e me olhou. No rosto uma surpresa   de quem não me entendia. Eu estava trêmula de irritação. Agarrava-me aos braços da cadeira tentando conter-me, mas me tornara possuída por uma raiva incontrolável.  Meu marido, olhos em pânico, correu para mim, tomando-me nos braços. E foi quando o abraço amoroso de encontro a seu corpo tirou-me da cadeira, perguntando o que havia comigo, que comecei a me tranqüilizar e senti vergonha de lhe dizer da violência que me possuíra. Eu sempre fora louvada pela serenidade. Disfarcei, falando que me sentira muito mal de repente, e gritara tanto para que me socorresse, mas já estava bem.  Olívio atribuiu ao calor da sala, pois havia no ar um incômodo abafamento. Abriu as janelas e  nos pusemos  a comentar a história daquela casa.

A casa grande do engenho não era habitada pela família havia muitíssimos anos. Empregados encarregados de limpá-la e conservá-la com tudo o que nela se encontrava, cuidavam fielmente desse encargo. Minha mãe, filha única de uma única filha, herdara dos avós, pelos quais fora criada ao perder os pais em um acidente, tudo o que havia no engenho. Desde a morte dos avós, porém, nunca mais voltara ali, receosa das recordações que a  magoariam. Por esse motivo, Olívio e eu não conhecíamos o local, onde somente meu pai ia, regularmente, para  administrar a lavoura de cana, já que o engenho fora desativado. Para nós, tudo era novo e fascinante, já que só conhecíamos a história.

Retornamos a conhecer os cômodos da casa e planejar modificações  que nos permitissem trazer as crianças durante as férias  para aproveitarem a quietude e a liberdade que poderiam desfrutar  em todo aquele espaço da fazenda.

No início da tarde o céu mostrou-se nublado, e sem tardança o aguaceiro desabou precedido pelos relâmpagos e pelo ribombar da trovoada. Esquecemos o episódio da cadeira, preocupados que estávamos com a necessidade de  retornar para as crianças que nos esperavam na cidade, aos cuidados de minha cunhada,o que estava dificultado pela mudança do tempo.

À tardinha um caseiro veio nos avisar  que não poderíamos regressar naquela noite. Ruíra, ao peso do temporal, a velha ponte que se estendia sobre o rio, cujas águas cresciam inundando inteiramente as margens. A comunicação estava interrompida. Pernoitaríamos na casa grande do engenho, até que no dia seguinte  pensássemos em como voltar, talvez  por um caminho mais longo, por onde fosse possível passarmos com o carro.

Recolhêmo-nos cedo. Não havia lua, só as águas do céu generosas.   Sem demora os sapos puseram-se a coaxar nos brejos, e os grilos a habitar o pouco silêncio que a tempestade permitia.

 

 

Despertei aos gritos que me chamavam.

– Idalina! Idalina!

Era uma voz de homem de entonação muito forte. Sentei-me na cama ainda atordoada, enquanto repetia-se o chamado. Olhei em volta. A meu lado meu marido ressonava calmamente.  Algum dos empregados estaria a berrar meu nome? Mas daquele jeito? Os cachorros continuavam silenciosos, o que me garantia que na área externa da casa nenhuma anormalidade  acontecia. Só a chuva que lá fora continuava ruidosa, como um soturno fundo sonoro àquele estranho apelo.

Levantei-me entre apreensiva e sonolenta, aproximando-me da porta cuja vidraça era velada por pesada cortina. Afastei-a com cuidado, sem  abrir a porta, e pus-me a espionar o salão contíguo à alcova onde nos acomodáramos. Sem entender, com olhos ainda turvos de sono, vi que havia alguém ocupando a cadeira majestosa. Era um homem. Usava um  colarinho  alto, engomado, que quase lhe tomava  o pescoço. Aquelas costeletas, aquele bigode aparado, o meu bisavô Diogo?!

– Idalina! Idalina!!! –  ele ainda gritava impaciente.

Comecei a tremer.  Eu não atenderia àquele chamado. Prendi a respiração e deixei-o continuar . Em pânico, sequer ocorreu-me acordar Olívio.

Logo, porém, pela porta do corredor, assomou a figura esbelta da minha bisavó Idalina, no passo suave, cheia de dignidade. Olhos fitos no meu bisavô, as mãos branquíssimas segurando as pontas da mantilha rendada, ela aproximou-se e, sem dizer palavra, parou à sua frente.  Vi o bisavô Diogo voltar a cabeça na direção do corredor, e ordenar gritando:

– Tragam a negrinha!

Imediatamente, dois negros vestidos com calções que lhes chegavam às canelas, entraram arrastando uma mucama até a frente de Diogo que se levantou e, retirando do espaldar da cadeira um chicote muito comprido, estalou-o no ar e voltou-se para minha bisavó, exclamando:

– Vou castigar  sua protegida, senhora,  para que aprenda que neste engenho todos têm que obedecer somente às minhas ordens. Somente eu mando aqui e ái daqueles que me desobedecem.

Levantando o braço da prepotência, aplicou na negrinha a primeira chicotada. A menina gritou e rolou no chão gemendo. O rosto de Idalina contraiu-se.  Escutei sua voz atormentada, enquanto avançava e se punha entre o marido e a negrinha, protegendo-a.

– Não, senhor meu marido, não a castigue mais!

– Saia da frente, senhora, não quero machucá-la! – ele gritou.

E, erguendo o látego mais uma vez, cheio de indignação, a segunda chicotada colheu em cheio a face esquerda de Idalina , que se interpunha, protegendo a menina. Vi minha bisavó  cambalear com as mãos no rosto, sem um gemido, e, mantendo a dignidade do silêncio, correr para o interior do casarão, deixando cair  sem cuidado a mantilha rendada.

Foi como  se sentisse arder a chicotada em minha própria face. Era terrível. Numa vertigem, recostei-me ao portal. Levei as mãos ao rosto. Estava úmido. Minhas mãos ensangüentadas. O meu sinal de nascença sangrava.

Alô, Solidão

glGláucia Lemos

No edifício em frente havia um senhor que cuidava dos passarinhos. Suponho que era aposentado. Tinha cabelos brancos e compleição franzina. Caminhava devagar, mas seus gestos eram precisos e cuidadosos. A julgar pelo que eu observava, ele criava os passarinhos.
Todas as manhãs, enquanto eu estava regando a jardineira da minha varanda, via-o no seu quinto andar, à altura do meu, alimentando-os. Só que os passarinhos viviam soltos, não havia gaiolas nem telas limitando a liberdade dos bichinhos. O homem espalhava a ração sobre o parapeito da varanda, e uma infinidade de aves pequeninas vinha não sei de onde e pousava diante dele, inquietamente bicando os grãos de alpiste. Eram rolinhas ou outras de porte semelhante. Todas as manhãs.
Havia alguma coisa poética naquela cena, que se completava com a presença de piotas pendentes do teto, em volta das quais, agitando vertiginosamente as asas, esvoaçavam beija-flores.
Nunca vi outras pessoas habitando aquele apartamento. Sequer transitando pela varanda. Ele movimentava-se rodeado de pássaros, enquanto eu regava minhas plantas no meu espaço.
Contemplava-o por longos minutos, gozando o direito da invasão sem culpa, e me recolhia a meus afazeres que eram muitos, na minha responsabilidade de mãe de três filhos em idade escolar, dona de casa sem empregada, mulher casada com piloto em intermináveis vôos pelos céus do mundo, e tão poucas vezes voando em direção a casa. Aquele velhinho, ao longe, começou a fazer parte da minha vida. Poderia ser meu pai. Se um dia não o encontrava alimentando os pássaros, ficava preocupada. Estaria doente? Teria mudado de endereço? Quem alimentaria os passarinhos na sua ausência? Naqueles dias, a cada intervalo entre o tempero do arroz e o alarme do forno, corria à varanda a ver se estaria de volta. Até que, mais tarde, ou no dia seguinte, ele lá aparecesse, para minha tranqüilidade.
Nisso passaram-se meses sem conta, talvez um ano ou mais, não posso precisar, vivendo a mesma rotina.
Uma tarde, concluída a jornada diária, enquanto descansava a esperar a hora para apanhar as crianças no judô, eu cochilava em cima das páginas de Hemingway, que estava sendo a minha companhia do momento, na absoluta falta de alguém com quem conversar. Com Hemingway eu andava freqüentando, bares e estações ferroviárias, sem o menor preconceito, entre bêbedos, marinheiros e prostitutas.
Então, soou a campainha da porta. Que visita estaria chegando sem prévio aviso, quem sabe seria o zelador para medir o gás.
Com má vontade, espiei pelo olho mágico da porta de serviço. Não era o zelador, não reconheci a pessoa, o hall não estava bastante iluminado. Deixei a área de serviço, encaminhando-me à porta da sala, recriminando intimamente a portaria, por não ter avisado a chegada de alguém.
Torci o trinco. Um senhor de cabelos inteiramente brancos, brancos como talco, estava de pé me olhando, com olhos miúdos e brilhantes, olhos de uma cor quase doirada, e um sorriso que não se completava, apenas se desenhava quase imperceptível na boca pequenina. Um sorriso que quase pedia licença para sorrir.
– Boa tarde – cumprimentei e sorri também.
Tenho medo de desconhecidos, mas vendo-o tão frágil, pequeno, parecendo indefeso, não senti receio, o sentimento era de quase proteção.
– Quem o senhor procura?
Ele desvelou o sorriso retido, com dentes pequenos e brancos, dentes infantis.
– A senhora mesma. Sou seu vizinho, do edifício em frente.
Então o reconheci. Meu Deus, é o velhinho dos pássaros.
– Pois não? Sei. Pode entrar, faça favor.
Ele entrou, seus passos eram suaves. Sentou-se no sofá em frente a mim, discreto, parecendo tímido.
– Esteja à vontade – animei-o.
Então começou
– É porquê… Vejo sempre a senhora regando as plantas pela manhã. Fico observando o empenho com que cuida delas. São tão bonitas. Fiquei curioso.
– É verdade. Eu gosto de plantas, cultivo flores.
– Eu também gosto. Mas não tenho jardineira. Cultivaria crisântemos. Se pudesse.
– Pode vir vê-las. É só um canteiro. Gostaria de ter maior espaço.
Levei-o até a varanda.
– Aqui são begônias. Begônias vermelhas. Quando abrem as corolas demoram muito para secar, às vezes aturam abertas até dois meses, a depender do cuidado.
– Demoram tanto assim? Por isso que estão sempre floridas. Parecem rosas, lá da minha varanda pensei que eram rosas.
– É verdade. Parecem um buquê de rosas pequenas. Mas para mantê-las assim é preciso cuidado, nunca molhar os caules. São frágeis. Já os hibiscos só duram vinte e quatro horas. Murcham em um dia. Não me animo a cultivá-los.
– As plantas são como as pessoas, cada uma com seus caprichos.
– Ou seus problemas – completei.
Ele concordou confirmando com a cabeça.
Voltamos para a sala, ele se sentou no mesmo lugar. Nunca notara que ele me observava, eu era quem o contemplava com seus passarinhos. Procurei ser gentil.
– Posso servir um café, aceita?
– Aceito. Mas não quero incomodar, é só uma visita.
– A visita me alegra. É uma novidade para mim.
Fui para a cozinha. Rapidamente retornei com a xícara fumegando café solúvel. Ele tomou lentamente enquanto falava. A voz era mansa como um chuvisco.
– A senhora gosta de passarinhos?
– Muito. Sempre fico olhando o senhor cuidando dos seus. São muitos, não é?
– Muitos. Mas não são meus. Sou o copeiro deles – ele riu divertido – não sei de onde vêm. Espalho alpiste e eles aparecem.
– E os beija-flores?
– Os beija-flores são uma estratégia. Ponho mel na água dos caqueiros e eles vem beber. Não sei como é que de longe pressentem a presença do mel.
– Mel?
– Sim, mel de abelhas. Compro especialmente para eles. Eu não como mel, é açúcar, mas eles não têm restrições, acho que é porque ainda não têm a minha idade…
Ria enquanto falava. Rimos juntos.
Então se levantou e me entregou a xícara com um resto de café.
– Obrigado. Vou embora. Venha lá em casa amanhã para ver os passarinhos se alimentando.
– Está bem. Obrigada pela visita. Vou ver os passarinhos amanhã quando deixar as crianças na escola.
Abri a porta, ele saiu como chegara, suavemente. Voltei para dentro com um resto de sorriso. Eu iria ver os passarinhos, iria sim.
Fui.
Entrei para uma sala quase vazia de móveis. Uma arca colonial junto à parede. Acima, em contraste, imensa tela bastante colorida com motivo abstrato. Havia uma cadeira de balanço austríaca, ao lado de um revisteiro abarrotado, em frente à TV de 33 polegadas. Persianas na porta larga envidraçada deixavam penetrar uma claridade frouxa, que não chegava a se espalhar pelo espaço da sala.
O velhinho sorriu ao me ver, e me conduziu à varanda. Rolinhas e outras aves miúdas bicavam o farto alpiste espalhado no mármore do peitoril, indiferentes à minha presença e ao ininterrupto rumor dos carros que transitavam lá embaixo. Permanecemos ali, em silêncio, para não afugentá-las. Ele tinha um olhar carinhoso para as aves, quase paternal. Alguns minutos e voltamos à sala onde tratei de me despedir, sem que ele concordasse.
– Não se apresse. Tenho que lhe servir alguma coisa. A senhora toma chá?
– Não se preocupe, eu tenho que ir.
Ele, porém, já se dirigia à cozinha falando enquanto caminhava.
-. Nunca recebo visitas, por isso não preciso de cadeiras. Só utilizo o sofá. A faxineira quando vem também não precisa de cadeiras. Sente-se aqui mesmo na cozinha. Moro sozinho, sabe? Minha mulher morreu há muitos anos, meu filho pouco me visita, não tem tempo, o trabalho, a família. Só me telefona. Isso quando sobra tempo. – Fez um sorrisinho condescendente.
Havia uma bancada de cozinha americana. Sentei-me em um banco alto, enquanto ele preparava um chá que tinha o cheiro bom de canela, e serviu duas xícaras de friso doirado. Uma colocou em minha frente e começou a tomar da outra. Em silêncio. Os dois. Eu não sabia o que falar. No ar pairava uma cumplicidade. Ele sempre sorria, um sorriso brando, parecendo contente, os olhinhos de ouro brilhando entre as pálpebras rugosas. Quando terminei descansei a xícara em cima da bancada e me levantei.
– Agora preciso ir. O chá está muito gostoso, o senhor sabe preparar um ótimo chá. Obrigada por me convidar. Quando quiser, pode ir ver minhas begônias. Agora, porque o senhor me falou deles, estou pensando em plantar também crisântemos, o senhor gostará de vê-los. Pode ir ver quando quiser, é só avisar. Faz um sinal da varanda.
Fui saindo. Ele me acompanhou até a porta e recomendou:
– Cuidado com a porta do elevador que às vezes fica travada. O perigo do poço!!! Esta semana eu escapei por pouco, quase caí. Volte outro dia, não precisa avisar não, eu só saio para caminhar muito cedo. O resto do dia fico em casa. Vou esperar a senhora.
Acenei e entrei na cabine, para o que tive de desemperrar a porta que não fechava.
– Por que não consertam esta porta? – pensei. Alguém ainda pode cair.
Fiquei com o velhinho na cabeça. Amanhã na varanda vou acenar para ele. Enfim muda alguma coisa, tenho um amigo para me sorrir e apreciar minhas flores. Que velhinho mais simpático!
Dia seguinte fui cumprir minha rotina. Regador na mão rumei para a jardineira. Ele ainda não estava na varanda. Demorei mais tempo cuidando do canteiro, arrumando um espaço para as mudas de crisântemos – que iria buscar naquele fim de semana – enquanto esperava para vê-lo chegar a alimentar os pássaros. Ele não veio. Passei a manhã inquieta, espionando a pequenos intervalos. Não apareceu naquele dia. Nem no outro, nem no outro.
Nunca mais o vi. Todos os dias eu olhava o apartamento vazio onde ninguém transitava. Comecei a ler o segundo volume dos contos de Hemingway ao lado da jardineira.
Pouco a pouco os pássaros abandonaram a varanda.
Eu desisti de cultivar crisântemos.

Do sombrio cinzento ao azul tropical – Lasar Segall

glGláucia Lemos

É Lasar Segall um dos grandes expressionistas que o mundo teve oportunidade de conhecer.  Tendo deixado o registro de sua obra grandiosa apenas em oito museus e galerias brasileiras e onze no exterior, foi, no entanto, um criador voltado profundamente para o conflito do homem do seu tempo. A projeção obtida não corresponde  ao peso de sua importância, por culpa  do comportamento reservado que assumiu, por questões étnicas.

Vera Beccari, sua biógrafa, declara ter sido o narcisismo o “elemento  mais determinante de sua personalidade”. Vivia muito bem consigo próprio e com sua arte, ele se bastava.  ‘Resguardava a privacidade e só a poucos dava acesso a seu lar. sobretudo ao ateliê onde trabalhava. Pode-se dizer que o ateliê de Segall era todo o seu universo, do qual  somente a três pessoas  as portas estavam abertas – Jenny Klabin Segall, sua segunda esposa (que deveria bater à porta antes de entrar), Lucy Citti Ferreira, modelo, colaboradora e amiga de particular afeição, e o próprio Segall.

Os primeiros quinze anos do artista foram vividos em Vilna, onde nascera em 1891, 21 de julho.   Durante aquele período assistiu à russificação idiomática da Lituânia, de que Vilna é capital, e a todos os rigores conseqüentes  às demonstrações de desagrado  e conspirações de revoltas. Vilna vinha de séculos passando de domínio em domínio. Teve assim Segall seus anos de infância, de adolescência e, mais tarde de adultIce  – mediante as visitas feitas à cidade natal  após sua ocupação pela Alemanha – povoados de recordações deixadas por um  grupo humano sobressaltado e sofrido.  Ao lado disso, sua infância padeceu também a marginalizaçào imposta aos judeus que eram expulsos de suas aldeias, em obediência a  decretos que pretendiam enfraquecê-los politicamente, e assim os empurravam para as aglomerações das cidades.

Cresceu, pois, Lasar Segall confinado na comunidade judaica, habitando cidades superpopulosas, onde a competição e a discriminação étnica dificultavam o equilíbrio e a tranqüilidade das famílias israelitas.  A religião e o iídiche (língua-mãe)  eram características da comunidade judaica, além das atividades proletárias, em todo o território que se encontrava sob domínio russo.

Todo esse cenário humano justifica, em parte, a amargura das figuras apresentadas pelo expressionismo de Lasar Segall. A segregação vivida na infância registrou-se no espírito do artista e veio a ser refletida no estilo de vida, mais tarde, enconchado em sua casa paulistana onde poucos amigos  eram acolhidos para dentro das janelas sempre fechadas.

Na infância, a alegria era a grande fuga para o campo, o reencontro com raízes que o atavismo resgatava em sentimento de prazer. Na adolescência afasta-se de Vilna, onde o forte espírito religioso do núcleo judaico  não permitiria sua dedicação à pintura. Muda-se para Berlim, onde altera um documento de identidade para, aos quinze anos, passar por dezesseis, e freqüentar uma escola de arte.  No ano seguinte consegue  ingressar na Academia Superior de Berlim, onde se ensinava a copiar o  natural com precisão fotográfica. Nessa ocasião, em consideração ao talento revelado, Segall conseguiu uma bolsa , por não ter recursos para pagar os estudos.

Entretanto, a criatividade livre do jovem aprendiz não concordou com o sistema rígido impresso ao  ensino da Academia, onde permaneceu por dois anos, já sentindo forte o interesse pelo impressionismo.. Egresso da Academia depois de haver conquistado o prêmio Libermann em exposição de 1909, dedicou-se por breve tempo a experiências impressionistas,  sem, entretanto, sentir-se identificado o bastante  para nelas permanecer. Queria  mais espaço para sua criatividade. O impressionismo que o libertou da Academia e sua mímese, também lhe impunha limites.  Transferiu-se então para Dresde, no ano seguinte, e  matriculou-se  na Academia de Belas Artes  onde, tornando-se aluno de Kühl recebeu a categoria de aluno-mestre, tendo direito a um ateliê onde trabalhar suas obras. Foi então que vendeu suas primeiras produções em gravura.

Em Dresde,  há cinco anos, o grupo A Ponte, que  deu os primeiros passos na direção da primeira escola de arte moderna, o expressionismo,  estava  influenciando a arte local. Dos quatro estudantes de arquitetura que se iniciaram em aulas com Otto Müller, um entusiasta da pintura inglesa, o grupo evoluiu influenciado pela reação ao impressionismo manifestada por Cézanne, como também pelas cores  “fauves”de Van Gogh e de Gauguin, e  pela liberdade de Munch. Foi nessa abertura proporcionada pela nova linguagem, que Lasar Segall encontrou o caminho.  O que de novo estava presenciando, constituiu a tradução do que  sentia cifrado em seu espírito.   Nesse preciso momento  Lasar Segall ergueu as asas da fantasia para o encontro com a arte descompromissada com os cânones acadêmicos impostos, mas inteiramente casada com a estética, na expressão mais legítima  da criação. Em Dresde  realizou suas primeiras obras expressionistas.

Logo mais chegou o ano de 1913 e ele veio ao Brasil pela primeira vez, expondo em São Paulo, durante o mês de março, 52 obras.  Trouse o momento inaugural da arte moderna para os olhos espantados da sociedade  paulistana que o recebeu com desconfiança silenciosa, em respeito ao prestígio do senador Freitas Valle,  e da família Klabin que o apadrinhavam. Não havia na sociedade paulistana da época muitas atividades intelectuais, de maneira que  aconteciam exposições   de todo tipo de arte, desde pintores afamados na Europa, a bolsistas estreantes sem maior talento, mas de famílias importantes, e até artesanatos que se apresentassem para  movimentar as salas, a que acorriam as personalidades com  boa vontade, sem muito questionamento em torno de qualidade.  Tudo se passava  mais  com o tom de  acontecimento social, onde  as pessoas reuniam-se para   conversar  amigavelmente. Oswald de Andrade na época mantinha o jornal O Pirralho, que noticia  “Lasarr Segal ( com grafia errada mesmo) é o nome do talentoso moço russo que acaba de abrir à rua São Bento 83, uma bela exposição de quadros”.  Não havendo em São Paulo uma consciência crítica, acredita-se que  embora não chegassem a agradar ao gosto acostumado à estética das academias,  também não poderiam suscitar um questionamento mais profundo.  Vera D’Horta  Beccari  em * Lasar Segall e o modernismo  paulista ” assim se expressa:

Alguns quadros de Segall, os mais expressionistas, devem ter causado nos expectadores as mesmas expressões de estranheza e surpresa que apareceram nos rostos dos visitantes da exposição de Anita Malfatti em 1917, nos primeiros dias, antes que fosse publicada a desastrosa nota de Monteiro Lobato no Estadinho do dia 20/12/1917. “

                       A crítica manifestou-se tratando-o  como um jovem artista de futuro promissor, classificando-o de impressionista e augurando que de futuro certamente viesse a corrigir “certos exageros “. Revelava absoluto desconhecimento de  tratar-se do autor de uma arte madura, um expressionista que trazia  notícia da evolução da arte na Europa.

Naquele mesmo ano, em junho, Segall levou 51 telas à exposição em Campinas, onde a crítica pareceu melhor informada e capaz de fazer  comentários a respeito do que fora antes  publicado em São Paulo filiando-o  ao impressionismo, o que era um equívoco, e  ressaltando em suas obras, o vigor do desenho. Nessa mostra, a tela intitulada O violinista, já denunciava uma influência do cubismo  anunciado por Cézanne.

Segall voltaria mais tarde  ao Brasil, em 1923, acompanhado de Margarete, sua primeira esposa.  Margarete não se adaptou  à vida provinciana de São Paulo e retornou à Europa. Então Lasar Segall casou-se com Jenny  Klabin, que conhecera na sua primeira visita a São Paulo, e era então  uma garotinha de 13 anos,   que o impressionara bastante.  Jenny venerara-o desde a adolescência  e se tornou uma esposa apaixonada, participando com ele dos trabalhos da SPAM, onde Segall veio a pontificar como líder e  como idealizador de atividades que elevaram a entidade  ao respeito da sociedade local.  E ainda sofrendo com ele a discriminação que veio a se instalar na ala dos chamados grã-finos, aderentes à SPAM apenas pelo modismo que os atraia ao modernismo.

Nos anos 30 o Integralismo ganhou enorme fôlego e conquistou partidários entre os pertencentes à cúpula social.  Dividiram-se os associados da SPAM em duas alas, e dos judeus e a dos grã-finos, esta congregando os adeptos em torno do poeta Guilherme de Almeida. A paixão conseqüente ao exacerbado nativismo  ergueu pesado muro entre a etnia e a arte, iniciando um injusto processo de desprestígio do artista dentro da sociedade, que o levou ao retraimento no qual permaneceu.

Lasar Segall naturalizou-se brasileiro e sua obra enriqueceu a pintura do Brasil, onde revigorou as criações substituindo o sombrio cinzento das telas pintadas na Rússia ou nela inspiradas, pelo colorido tropical, o verde, o azul e o branco luminoso que tornam o expressionismo segalliano brilhante e claro como as paisagens da sua pátria de adoção.

Podemos assim dividir em Lasar Segall a fase européia e a fase brasileira, perfeitamente distintas, embora em ambas identifiquemos o indiscutível traço, o grafismo preciso limpo e decidido,  absorvido provavelmente de Abel Segall, o pai que era um escriba do Tora, texto sagrado que exige traço puro e expressivo na sua feitura. Na Infância, Lasar conseguira que Abel lhe ensinasse a fazer a decoração das letras iniciais dos textos, o que, sem dúvida, era um precoce exercício para o grafismo admirável do grande expressionista judeu-russo-brasileiro. Teria falecido aos 76 anos, se de fato morressem os que viveram em estado de arte.

As crianças da legião

glGláucia Lemos

Ler Clarice Lispector é um contínuo exercício de interpretação. Clarice  reinventa significados, recria palavras com liberdade que induz o leitor a intrigantes reflexões. Estas  a que  nos acostumamos desde A paixão segundo GH, Perto do coração selvagem, A hora da estrela, e sobretudo Água viva, que nos parece tudo o que se possa criar como uma prosa poética  inflamada,  destinada a ferir macia e inevitável, a sensibilidade do leitor.

Neste A Legião estrangeira, – Rocco, ed. 1978 – o editor reuniu treze contos cuja unidade está contida na poética voltada principalmente para a domesticidade.

Detenho-me – por me chamar a atenção e causar perplexidade – na natureza das crianças desses contos, protagonistas ou não. Não são crianças inocentes. Não têm alma branca nem candura de anjos. Ao contrário. As crianças da Legião, a Sofia, a Ofélia Maria, o menino de óculos, o menino menor, todos revelam sagacidade malicia e até maldade, não obstante nem sempre se ter que esperar angelitude nos pequeninos.

Essas crianças são ora calculistas, ora capazes de imaginar estratégias de comportamento, ora levadas a atitudes ofensivas inflamadas ou carregadas de frieza.

Uma revisitação à infância nas suas personagens, mas da criancice contemplada pelo lado malicioso e impertinente. Até mesmo na assunção de hipóteses como a do menino menor que, desejando a permanência do macaco do qual a narradora pretendia livrar-se, admite a possibilidade não de  que a mãe também viesse a se afeiçoar ao animal, mas a de que o macaquinho viesse a “cair da janela e morrer lá embaixo’, ou ainda : “ E se eu prometer que um dia ele vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar?”

        A Sofia, uma garota que sente atração pelo professor gordo, de ombros contraídos, deselegante no seu paletó curto e desagradável na contensão da sua impaciência. Ela o vê como alguém difícil de se amar, mas o quer, e até divaga com ele todas as noites. No entanto, para atraí-lo, sabendo  também não ser  flor que se cheire, e igualmente ser difícil de se amar,  vai à luta pelo lado avesso, tumultuando as aulas, atrevida, indisciplinada e contestadora, enraivecendo-o, somando à desagradabilidade do mestre, sua própria desagradabilidade. Querendo amor pelo caminho esconso da impertinência.

A Ofélia Maria sabe tudo, torna-se antipática por estar sempre pronta a um comentário ou colocação mais sábios que os dos presentes. Aconselha à narradora, sem ser consultada, sobre qualquer assunto, até que, de tanto entender de tudo e de tanto saber cuidar com sua pretensiosa superioridade, acaba por destruir aquilo que todos mais parecem amar no momento que vivenciam. E, irresponsável, não assume.

O menino de óculos atormenta-se por não ter consciência da própria inteligência. Vive vacilando ante a instabilidade de humores da família que ora o reconhece, ora se mostra indiferente. Confuso, arma estratégias, resolve agir sem naturalildade, sabe que pode fingir o que desejar, então se demora construindo a imagem que pretende aparentar em determinado dia que lhe está programado. Em um precoce maquiavelismo, vive um processo existencial que acimenta as bases de um caráter carregado de torpeza.

A menina ruiva é a única a escapar do elenco de pequenos anjos decaídos, e também a protagonista do conto mais encantador e lírico da seleção de contos poderosos e encantadores na construção singular de Clarice Lispector.

Sem me preocupar com os temas evocados, tenho me detido na particularidade das personagens mirins e sua característica especial. No entanto A Legião Estrangeira é muito mais que crianças difíceis. É a angústia dessa busca incompreendida que se padece na adolescência; é a inexplicabilidade da amizade que se merece pelo mero fato de existir; é o tédio de obedecer ao cotidiano insosso e sem perspectiva, tal se fosse dogma; é a humilhante carência afetiva em confronto com a sordidez da vaidosa prepotência; é a velha Mocinha carregando todo o abandono e miserabilidade da condição humana; é a Quinta história que após oferecer quatro formas de contar como livrar-se das baratas, sintetiza a quinta história em duas linhas sob um título pelo qual só um autor corajoso arriscaria ferir a imaginação do leitor estupefato. Finalmente, é O Ovo que se enfiou entre as páginas do livro para que a autora se estendesse de premissa em premissa, desenvolvendo sua capacidade de filosofar profunda e demoradamente sobre a própria condição humana, e a condição da própria narradora, enquanto ser situado na heterogeneidade do universo. Até que, despertando para o quão longe se permitira, perguntar: Mas, e o ovo? E confessar: enquanto eu falava do ovo, eu tinha esquecido do ovo.

         Isso é Clarice, um pouco do muito de Clarice Lispector em a Legião Estrangeira, do qual outros já tenham falado mais e melhor. Dela que, dominando a palavra em exercício pessoal, a ela se entrega, permitindo que se espalhe, se construa e desconstrua, na simbiose em que se alimentam, palavra e autor que se confundem e se realizam, pois assim se faz preciso.

Lúcia – Um café na tarde fria

 

glGláucia Lemos

Espantou um moleque que, à porta da rua, gritava para dentro: velho maluco!, depois voltou para a sala devagar. Mais uma vez olhou, no canto da mesa, a cafeteira suja.  Depois se sentou no banco a um canto, e acendeu o cigarro. O corpo era pequeno e frágil como o de um adolescente. As mãos  delicadas e leves seguravam o cigarro como se estivessem vazias.

Pelo chão, espalhavam-se os cavacos de cedro.

Fixou os olhos no  piso, em um ponto qualquer. Fora pela porta em frente que ela entrara naquele fim de tarde. Apressada. Quase correndo a abrigar-se da chuva. Como um potro assustado.

– Dá licença?

O homem ergueu a cabeça. Ela  transpunha o batente sacudindo a chuva do vestido branco. Passando as mãos pelos cabelos cacheados.

– A chuva me pegou. – Parecia desculpar-se.

– Pode entrar, fique à vontade.

Ele como que emergiu da sisudez habitual. Sorriu. Só com os olhos. Como só sabia sorrir. A mulher parecia assustada. Olhava em volta com olhos de expressão espantada. A sala pequena, as ferramentas  espalhadas, não sei quantas esculturas   povoando o ambiente, desordenadamente, com a mudez da madeira . Depois, ela ficou olhando o homem. Barbado, o peito nu não muito forte, cabelos crescidos, grisalhos nas têmporas, parecendo velho.

A mão soltou a goiva em cima da mesa, e Samuel aproximou-se dela. A silhueta da mulher de branco na moldura da porta, pareceu-lhe um anjo. Mãos levemente pendidas, o corpo parado, o cabelo curto cacheado. E os olhos muito abertos fixando seu rosto. Parecia um anjo. Ele tentou sorrir com seus dentes grandes. E descobriu que ainda sabia. Repetiu.

– Pode entrar, fique à vontade.

Ela tentou um sorriso tímido. Depois sorriu também um sorriso aberto e livre, como criança.

– Não quero atrapalhar, pode continuar no seu trabalho.

Parecia medrosa. Talvez do escultor excêntrico. Ninguém se aproximava dele. Calado, sombrio, sozinho, um ar de velho no rosto grave. Só eventualmente, pessoas estranhas aos vizinhos apareciam de carro e levavam suas peças. No mais, era  solidão.

Ele retomou as ferramentas e voltou a seu trabalho.  Ela ali ficou, sentada em um banco, até que a chuva passou. Calada. Só olhando os movimentos de Samuel. Os pedaços de madeira caíam ao chão, as formas nasciam dos hábeis movimentos das mãos pequenas, e ela acompanhava  sem desviar os olhos.

Quando a chuva passou a mulher levantou-se e foi embora. Sem dizer nada. Ele apenas viu seu vulto transpondo a porta e continuou no  trabalho, como se nada houvesse acontecido.

Uma tarde, algum tempo depois, alguns meses, ela voltou. Chegou devagar, como quem não quer nada, espiou na porta com a antiga timidez, e perguntou.

– Dá licença?

O homem ergueu a vista para a mulher, que, sem esperar resposta, entrava devagar.  De olhos ausentes, como se a visse pela primeira vez, ele não a reconheceu de pronto. Ela sentou-se no mesmo banco, encolhida e perguntou, como criança

– Posso ficar aqui?

Fez que sim, com a cabeça. Ela sorriu e ficou. Calada. A tarde inteira. No fim da tarde, foi embora.

Depois dessa vez ela voltou. Outras e outras mais. Não todos os dias, mas sempre que as tardes eram frias, ou sempre que chovia.

Uma tarde, Samuel perguntou seu nome.

–  Lúcia.  – Respondeu lacônica.

– Mora onde, Lúcia?

Ela sorriu.

– Aqui perto.

– Que é que você faz?

– Uma porção de coisas… e você?

– Eu?… – Samuel fixou-a admirado – Não está vendo? Eu corto madeira, faço uns troços… Faço árvore virar figura de gente. Isso tudo que está por aqui espalhado, não está vendo? E espanto os pivetes que vêm a minha porta me amolar. Me chamar de velho… e de maluco.

Não parecia se importar muito com o detalhe.

Uma tarde ela chegou e entrou em silêncio. E, como sempre, sentou-se no mesmo banquinho. E baixou a cabeça entre as mãos, e chorou. Chorou muito, calada. O homem, surpresa no rosto, deixou seu trabalho e ajoelhou-se ao lado dela. Os olhos claros sempre tranqüilos tornaram-se inquietos. E, qual se  estivesse diante de um ser de outro mundo, não atinava com o que fazer para consolá-la. Pôs-se a seu lado calado e ansioso, sofrendo por vê-la sofrer e  vendo-a transformar-se ante seus olhos, em um ser mais real, mais concreto. Por várias vezes tentou passar as mãos pelos  cabelos dela, para consolá-la, e por várias vezes recuou. Por timidez. Não deveria tocar em Lúcia. Mas a dor de Lúcia, por que quer que ela fosse, foi uma revelação para Samuel. Aquele anjo que enchia a sua solidão chorava. Aquele ser  envolto em pureza, tão cheio de doçura e de silencioso mistério, para quem  não lhe seria possível olhar com  malícia, era uma mulher. E tinha mágoas. Aquele anjo era uma mulher, Samuel descobriu com perplexidade. E foi então que se lembrou de olhar um espelho depois de muitos anos sem o fazer. E também descobriu que não era um velho. Era um homem maduro, sensível, que se escondia naquela solidão que o afastava do mundo e vincava-lhe o rosto e o envelhecia. Um homem que perdera o hábito de sorrir e  reaprendera que existia vida  pulsando dentro de si, por causa da  presença de Lúcia.

Depois daquela tarde, ela continuou a vir  como se nada houvesse acontecido. Nunca lhe disse quais eram suas mágoas e Samuel nunca lhe perguntou. Mas agora, ele lhe passava as mãos pelos cabelos com carinho mudo, de quem entende que sendo uma mulher e não um anjo, Lúcia precisava de carinhos. E lhe afagava o rosto e  lhe beijava os olhos porque descobrira que ela era uma mulher. E uma mulher que se abrigava à sua sombra, tão recluso que era, tão solitário que sempre fora, era porque ela também não tinha amigos. E assim, Lúcia descobriu a cafeteira a um canto de uma velha mesa e lhe fazia café todas as tardes. Porque estavam em um  inverno muito chuvoso e frio, e assim sendo, Lúcia vinha a Samuel todas as tardes. E se amavam. Naturalmente. Como um homem e uma mulher se descobrem e se amam, desde que o mundo é mundo.

Ele soltava as ferramentas do trabalho, quando a mulher lhe estendia a xícara de café, com as mãos delicadas, de pele fina. E Samuel  punha-se  a perguntar a si mesmo, que mulher era aquela? Frágil, quase como uma criança, de rosto delicado e mãos bem cuidadas, de modos finos e cabelos encaracolados, que lhe trazia todos os dias um sorriso inocente, nos lábios rosados. De onde teria vindo aquela mulher nem bem madura, nem bem menina, que entrara em sua vida de repente pela porta adentro, numa tarde de chuva? E se tornava indispensável. E mudava toda a sua vida. E o levava a descobrir que ainda era moço e sabia sorrir e sentia vontade de viver. E tornava tudo tão diferente à sua volta que até os pivetes deixaram de vir importuná-lo. Mas suas perguntas ficavam insatisfeitas, porque Lúcia sempre respondia com gracejos, dizendo qualquer coisa, menos o que ele ansiava por ouvir.

– Eu? Eu sou uma princesa encantada.

– Eu sou Cinderela.

– Eu sou Rapunzel de cabelos cortados.

Talvez nem mesmo se chamasse Lúcia. Mas, que importava o nome? Se ela mesma nem se preocupava com o depois? Não lhe fazia perguntas, não lhe dizia respostas.  Apenas existia. Era só uma presença que ele sabia que se repetia todas as tardes, sem compromisso. Sem promessas e sem segurança.  Enquanto chovesse, ele soube depois.

Quando o inverno acabou, na primeira tarde de sol, ela não veio. E não veio nunca mais. Sem adeus, sem despedida. Sem recado e sem explicação.

O homem pôs-se a esperar. Primeiro com a inquietude e o desespero dos apaixonados. Depois com a saudade e a dor dos abandonados.

Todas as tardes ele ficava contemplando a cafeteira suja a um canto da mesa, como Lúcia a deixara pela última vez. Sem tocá-la. Como um objeto sagrado. E a goiva e o formão descansados sobre a mesa.  O trabalho que iniciara no tempo em que Lúcia lhe vinha, nunca foi concluído.  E no atelier nunca mais foi ouvido o toc, toc, do formão talhando a madeira. Era só o silêncio e o homem esperando, com a fronte escorrendo em suor, e o calor da tarde abrasando tudo com a força do sol que doirava lá fora o céu de verão.

As têmporas grisalhas de Samuel depressa embranqueceram. Seu corpo pequeno e magro tornava-se em um corpo de velho baixinho e mirrado. A barba lhe chegava ao peito como a de um ermitão e os dentes grandes nunca mais sorriram. Agora os pivetes voltavam à sua porta para xingá-lo de velho maluco.

Samuel sentiu o cigarro arder-lhe entre os dedos pendidos. Queimara todo. Sacudiu a mão e a baga caiu entre os restos de cavacos antigos. Uma dor profunda, física, começou a apertar o peito do homem. Levantou-se lentamente. Uma angústia nos olhos. Foi até a porta, por onde ela sempre viera, no tempo em que vinha. Olhou para o céu, azul e brilhante e começou a pensar… Se chovesse. Quem sabe? Quem sabe, se chovesse ela voltaria? Ergueu os braços para o céu e clamou:

– Chova!  Que chova muito! Que chova muito e alague o mundo!

Transpôs a soleira. Olhos para o céu azul e seco. Os braços erguidos em súplica incompreensível para quem  assistia. Que chova muito!  Começou a andar pela rua. Os pivetes juntaram-se em volta acompanhando. Velho maluco! Velho maluco! Gritando, assobiando, dizendo piadas. Samuel indiferente à zombaria,  de olhos agoniados para o céu, prosseguia clamando. Que chova muito!!! As mãos para o alto, a voz em apelo de comover os passantes. Alguns paravam para olhar, alguns riam. Louco, está bêbedo, é o velho que  faz esculturas  Sempre teve um parafuso frouxo.

Repentinamente, escureceu. Grossos pingos começaram a cair. Ribombou o trovão, e o temporal veio abaixo, inundando a rua. A molecada correu a abrigar-se. Os curiosos dispersaram-se. O homem, perplexo, demorou-se parado no meio do asfalto, debaixo do aguaceiro. E sorriu. Primeiro com os olhos,  Depois com os dentes grandes como reaprendera a sorrir no tempo de Lúcia. Em seguida foi caminhando devagar até a casa. A porta estava aberta. A chuva respingava nas figuras de madeira.  Samuel entrou. Olhou em volta, não havia ninguém. permanecia o deserto que  torturava  os dias de Samuel havia tanto tempo. A cafeteira suja lá estava em um canto da mesa,  no fundo da sala, como Lúcia a deixara. E na bancada  do trabalho, em frente, o imenso e pesado bloco de jaqueira, inacabado, de onde começava a emergir, Deus sabe há quanto tempo, um torso de mulher,  para o qual Lúcia posava, quando vinha. No mais, o silêncio e o vazio.

Samuel sentou-se frente à mesa e atirou com violência a cabeça atormentada  por cima  dos braços dobrados. A mesa balançou mal aprumada. O trabalho inacabado, foi lá, veio cá, e despencou-lhe por cima da cabeça pesadamente.

Lá fora, chovia ainda. No fim da tarde o vento estava frio.

Lúcia veio vindo lá do fundo da sala, devagar, e estendeu ao homem  inerte a xícara de café. O vestido branco colado ao corpo, encharcado de chuva. Caracóis molhados nos cabelos curtos. Um sorriso inocente nos lábios pequenos. Como um anjo.

Não sei se Samuel despertou ou se dormira definitivamente. Lúcia nunca me contou.

Sim senhora

glGláucia Lemos

Olhou para dentro do quarto, durante alguns segundos. Depois foi até lá fora, abriu o portão de ferro e retornou.

 

Deitou na mesma cama ao lado do morto, ficou até o amanhecer. Mas não dormiu, permaneceu olhando o telhado, como estava acostumada a ficar todas as noites, enquanto ele roncava a seu lado. Tinha sido sempre assim, havia longos anos. Ele roncava, cheirando a pinga, a barba emaranhada rescendendo a charuto barato, enquanto ela velava, de olhos para o teto. Velava a própria solidão, tomando conta dela como se fosse uma filha. E era uma filha daquela união, a solidão alimentada com a amargura silenciosa dos dias e com a sacrificada secura das noites.

 

Pois, ali estava ela, velando a mesma solidão, ao lado dele. Só que, daquela vez, ele não roncava, não podia mais. Nem podia mais atravessar o braço por cima do seu tronco, com o poder e a força do domínio, para se esparramar com o que restava das noitadas entre as quengas do cabaré de Diodete.

 

A madrugada não tardou. Ela a viu chegar convidando-a pelas frestas do telhado, em pequenos pontos que se infiltravam. Depois, o galo do quintal acordou o silêncio com o ruído abafado das asas, e cantou três vezes, e os outros galos responderam, lá  nos quintais da vizinhança. E antes que o bem-te-vi “bem a visse”, no beiral da casa, como todas as manhãs, levantou-se e não olhou mais para o que restava dele.

 

Da janela da cozinha, chamou o negro.

 

– Altino! Tá dormindo, Altino?

– Senhora!

– Vem cá.

– Senhora?

– Tem um homem morto em minha cama.

– Tem?

– Tá vendo o portão aberto?

– Tô sim senhora

– Foi por ali que o assassino fugiu. Você viu quando ele fugiu, não viu, Altino?

– Sim, senhora!

– Leve o finado  nas costas antes que o dia clareie, e dê sumiço.

– Sim, senhora.

– Enrole bem enrolado em duas esteiras, e dê sumiço.

O negro não saiu de perto dela.

– Que foi, Altino?

– Né mió butá dento de um porrão?

– Tá bem. Bote dentro de um porrão e tampe a boca bem tampada

– Sim, senhora.

– O maior porrão que encontrar na olaria da fazenda.

– Sim, senhora.

 

O negro saiu. Voltou carregando um porrão enorme. Era um negro pequeno e largo. Tinha as pernas entroncadas como toros de coqueiro. Os pés cascudos, de calcanhar rachado, as mãos grandes, onde dedos grossos e nodosos pareciam feitos de barro cozido. Ela não entendeu como ele agüentava o peso daquele porrão, quase maior que ele.

Entrou no quarto, demorou-se.

 

– Anda com isso Altino, antes que o dia clareie.

– Sim senhora.

 

Saiu logo depois. Equilibrava o porrão  sobre as espáduas, o pescoço grosso encurvado, como costumava carregar os caçuás de manga-rosa. Parou na porta da cozinha, antes de sair.

 

– Senhora?

– Que é. Altino?

– Né bom levá os pano da cama? Tá tudo lá daquele memo jeito

– Pode deixar que eu cuido.

– Sim senhora.

O negro saiu. Atravessou o portão de ferro que ela deixara aberto. Depois desceu os degraus, venceu a área frente à casa, até alcançar a  porteira da fazenda que abriu sem dificuldade, e se foi com o porrão sustentado em cima das espáduas. Os braços curtos, estufados de músculos, sustentando o peso pelas laterais. O dia nem tinha clareado de todo.

 

A mulher voltou para o quarto e apanhou os panos amarfanhados que estavam na cama. Exalavam cheiro acre de suor e aguardente. Fez uma grande trouxa. Em seguida saiu a caminho do quintal e se embrenhou entre as árvores e os arbustos que se cruzavam na farta vegetação.  Pegou a enxada que estava encostada ao cajueiro e começou a escavar um fosso. Com esforço, a enxada feria a terra preta umedecida de orvalho, e voltava carregada, como se a terra vomitasse a sua própria substância.

 

Abriu a trouxa e, na cova, sepultou um a um, os lençóis que trouxera. Olhou-os longamente. Era como se deles viesse ainda o cheiro ardiloso do suor do homem e do seu próprio suor. A morrinha das secreções do macho bruto e infiel. Sensação de náusea. Nojo misturado a rancor.

 

Então, voltou-se. No quartinho próximo havia querosene e fósforos.

 

Os olhos da mulher tinham um brilho de volúpia enquanto esvaziava a garrafa de querosene em cima dos panos, jogando sobre eles o fósforo aceso. O fogaréu subiu de dentro do buraco. A fumaça cheirava a cio e a carne sangrenta. Cheirava a  cuspo e a sangue e a dor. E subia cinzenta, espalhando-se por entre os galhos dos cajueiros e tisnando  os jenipapeiros nas suas folhas largas.

 

Quando o fogo acabou,  retomou a enxada e devolveu toda a terra para cima das cinzas, até encher a cova. Voltou depois para dentro da casa, com passos lentos e seguros. Suava nas faces afogueadas, passando as mãos repetidamente para enxugá-las, pois o sol já queimava a manhã clara.

 

A cozinheira coava o café e amassava o cuscuz de farinha de milho.

–  Josina!

– Senhora?

– Desarme a cama daquele quarto e leve as peças para fazer a fogueira do São João dos peões da fazenda.

– Sim senhora.

– Hoje!  E quando o café estiver pronto me chame.

– Sim senhora.

 

Foi para a varanda  e espichou-se na rede. Com olhos vagos, demorou-se no casal de rolinhas que bicava grãos de areia entre as pedras do chão. Graciosas, doces, um casal.

 

O negro retornou.

– Senhora?

– Pode dizer, Altino.

– Já dei sumiço.

– Onde deixou?

– No rio.

– Retirou a tampa?

– Tirei sim senhora.

– Encontrou alguém?

– Não senhora.

– Então pode ir cuidar do seu serviço.

– Sim senhora.

– Meu café, Josina?

– Tá pronto, senhora.

 

Sentou-se à cabeceira da mesa comprida da sala. O cuscuz fumegava brilhando de manteiga e requeijão derretido. A xícara cheirava a café torrado na hora.

No fogão, o negro esticava o braço com a caneca de alumínio para a cozinheira encher de café.

 

– Altino!

– Que é, Josina?

– Deu sumiço no quê?

– Num porrão grande.

– Tinha o que dento?

– Uma pução de mulambo.

 

– Oxente!!! Pra dizê que a patroa indoidou de onte pra hoje? E foi pela viage do patrão… Vai vê porque ele nunca viajou, só saía pra se fretá mais as quenga de Diodete… Mulé qui só fica com home den’de casa, é assim… No quele viajou ela indoidou. Mais foi dipressa dimais.  Mandou queimá a cama… Já se viu?

 

– Rum…

– Eu nem vi conde ele saiu. Foi de cavalo?   Tu viu?

– Hum-hum…

 

Silêncio demorado caiu na cozinha. Só se escutava o ruído que a colher fazia arranhando o fundo da caneca do negro que mexia o café.

 

– Altino?

– Qui é agora, mulé?

– Donde tu jogou o porrão grande?

Silêncio e

– Bote mais açuca no meu café..

 

 

A mulher chamou o negro.

– Altino?

– Senhora?

– Ferra duas crias gordas com tua marca.

– Sim, senhora. Qual é as cria?

– À tua escolha.

– Sim senhora.

– Tu mereces, negro fiel.

A mulher chegou ao galpão e estranhou o negro preparando o ferro. Ao lado, meia dúzia de crias grandes bem cevadas, estavam à espera, para serem marcadas.

 

– Altino?

– Senhora?

– Quantas crias te mandei ferrar com tua marca?

– Duas cria, senhora.

– Juntaste seis crias. Sabes contar, negro?

– Sei contá, sim senhora.

– E então, Altino?

– O porrão dos mulambo tava muito pesado. Os mulambo pesava o peso de seis cria, senhora. Se a senhora quisé, trago o porrão de vorta, com tudo o qui tá dento.

– Deixa o porrão lá mesmo, Altino. Deixa o rio levar.

– Sim senhora.