Barcos, saveiros e canoas

Luis Henrique by IndioLuís Henrique Dias Tavares

Barcos, saveiros e canoas fizeram o porto da cidade de Nazaré das Farinhas, dos anos finais do século XIX e nos 20, 30, 40 até os finais dos 50 do século XX. Eu os conheci em boa parte de minha infância e juventude.

Os barcos eram embarcações enormes, grandes velas panejando nos mastros e vasto interior reservado para cargas de café, açúcar e farinha destinadas às casas comerciais da Cidade do Salvador, nos exemplos de Manoel Joaquim de Carvalho, Magalhães e Cia. e Colavolpe, donos de armazéns ao longo do cais.

Os barcos eram comandados por Mestres de poucas falas e por embarcadiços que movimentavam os barcos na entrada e saída do porto de Nazaré com varas que dobravam sob o esforço de seus braços na entrada e saída daquele trecho do Rio Jaguaripe. Eram recolhidas na altura da Barra do Paraguaçu, quando as águas dos rios eram sacudidas pelo avanço do mar.

Os saveiros não tinham as dimensões dos barcos. Eram menores. Todavia serviam para a diversidade das mercadorias, a exemplo dos porrões e moringas fabricados em Aratuípe e dos sacos de farinha, laranjas, mangas e cestos de cajus. Por vezes levavam passageiros. Ficavam mal acomodados, ainda assim viajavam, o que é possível se entender por causa do preço das passagens – custavam tostões – e porque eram mais rápidos que os navios da Cia. de Navegação Bahiana, lentos e enjoativos no decurso de 12 horas de Salvador a Nazaré, somando-se mais o perigo de encalhar ao saírem de Itaparica.

Os barcos e os saveiros levavam passageiros de Salvador para Nazaré. Deviam viajar agachados nos porões. Alguns audaciosos subiam para as muralhas dos barcos e dos saveiros. Os marujos gritavam: Desçam, Desçam! Quase todos obedeciam, mas existiram casos de rapazes e moças que insistiam. Daí os acidentes. Sei o caso de uma jovem que insistiu e levou pancada do mastro. Foi jogada no mar e desapareceu.

As canoas eram compridas e podiam usar mastro e velas. Não recordo essas canoas navegando de Salvador para Nazaré ou de Nazaré para Salvador. Contudo sei das canoas compridas que navegavam de Maragogipinho para Nazaré carregadas de louças, em destaque na Semana Santa quando traziam caxixis para as noites de singular beleza, caxixis iluminados por luzes trêmulas de fifós. Ah, as feiras de caxixis de minha infância!

Volto aos barcos para destacar os Pires I, Pires II e Pires III. Grandes e belos. Por isso escolhi o Pires II para comemorar o meu noivado com Laurita, setembro de 1950. Minha cunhada Rachel o documentou com a foto que ilustra este texto.

Salvador, agosto de 2010

* Este texto foi concluído pelo escritor Luis Henrique Dias Tavares, em 16 de agosto de 2010, para ser um dos prefácios do livro Baía de Todos-os-Saveiros, do fotógrafo Nilton Silva. O texto seria acompanhado da foto acima, feita no início da década de 1950, em Nazaré, pela então acadêmica de Medicina Rachel Serra Pontes, irmã de Laurita, esposa do escritor.

Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio

Luis Henrique by IndioLuís Henrique Dias Tavares

Conheci três ex-escravas idosas e um ex-escravo idoso na Cidade de Nazaré das Farinhas nos primeiros oito anos de 1930. Chamavam-se: Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio.

Benvinda morava em velha casa de sopapo na margem esquerda do Rio Jaguaripe, em terras da família Coelho de Souza. Era negra. Estava permanente sentada em velha cadeira ao lado de uma fogueira de pedra que lhe ajudava a preparar o seu famoso azeite de dendê, o melhor entre os melhores da cidade. Respondia pelos cajueiros, mangueiras e dendezeiros daquele pedacinho de terra e do pequeno trecho do Rio Jaguaripe batizado “Rio de Benvinda”. Ela gritava com as crianças e adultos que ousavam nadar naquele trecho de pedras escorredeiras do Jaguaripe. Logo em seguida, o rio se tornava largo e fundo. Era a morada do pai jamais visto de todos os peixes e pitus que o habitavam.

Genoveva residia no térreo de velho sobrado da Avenida Pedro II. Era negra, gorda. E inacessível para todos, fossem velhos ou jovens que sonhassem passar além do fogareiro aceso para manter quentinhos os seus bolinhos de estudantes, os célebres “punhetas”.

Eulália não era negra. Era mulata clara, ex-escrava dos Rodrigues da Costa, com os quais aprendera a arte da cozinha, em especial o malassado, tão único que passou a ser denominado “Malassado de Eulália”. Assim o conheci.

Eulália tinha três filhos, cada qual de um pai desconhecido: Eva, Antônio e Cacilda. Eva era a mais velha, negra e de pequena estatura. Sabia tudo de cozinha, mas não trabalhava como serviçal doméstica para família alguma, visto a sua independência e afirmativa. Tinha casa na Rua Padre Antunes e oscilava a sua amizade entre os Dias Tavares e os Bittencourt.

Antônio era negro e viciado em cachaça. Cacilda era mulata clara e bonita. Oscilou em amores nas cidades de Nazaré e de Salvador, sempre bem vestida, alegre e bonita.

O Negro Sérgio residia em choupana coberta de velhas telhas quebradas. Vivia só e calado, quase sempre de pé na porta com os olhos vigilantes no laranjal.

Escrevo o quanto sei desses ex-escravos para acentuar que o denominado fim da escravidão no Brasil jamais significou vida livre para os que nasceram e trabalharam sob o açoite da escravidão.