Edivaldo M. Boaventura – Oitenta anos do acadêmico

Discurso em homenagem ao octogésimo aniversário do acadêmico Edivaldo M. Boaventura, proferido em sessão especial da Academia de Letras da Bahia em 25 de março de 2014

Luís Antonio Cajazeira Ramos

 

Meu chanceler.

Estamos diante de um incômodo dilema. O que esperar de um discurso de celebração dos 80 anos de idade de alguém? Creio que todos pediriam ao orador que, de forma criativa e agradável, lembrasse em breves palavras a genealogia da pessoa festejada, suas raízes socioculturais, sua formação escolar, um pouco de sua vida privada e muito de sua vida pública, as escolhas acadêmicas, os caminhos profissionais, a produção intelectual, as inserções institucionais, as intervenções sociais, as realizações. Mas nosso homenageado é Edivaldo M. Boaventura. Eis aí o problema. Se eu for sumariar, apenas sumariar, listar as realizações do bem-venturoso confrade, inescapavelmente eu ocuparei ou mesmo ultrapassarei o tempo razoável pelo qual deve estender-se um discurso de qualquer natureza. Como contornar esse problema? Como vencer a encruzilhada? Sinceramente, não sei. Na dúvida, prefiro afastar-me da via meramente curricular; ignoro o caminho fácil de agradar os ouvintes com eventuais causos pitorescos de sua aventura de vida; preservo-me de seguir a oportunista pista de minha relação pessoal com o dileto amigo; e escolho avançar pela bem sinalizada estrada suavemente retilínea de sua rica, proveitosa e admirável biografia. Resumidamente, é claro, superficialmente, em pequenos saltos, até onde o fôlego nos conduza.

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Tecnologia e Literatura

refRuy Espinheira Filho

Frequentemente me perguntam o que acho do livro eletrônico, se o livro de papel vai desaparecer etc. O que me impressiona inicialmente é o entusiasmo pelo livro eletrônico em pessoas que nunca gostaram de livros. Quando dizem, os olhos brilhando, que num objeto daqueles podem caber centenas, talvez milhares de livros, quem sabe uma biblioteca inteira, a vontade que tenho é de lhes perguntar por que estão tão encantados, já que jamais leem livro algum. Quando no curso de Direito, conheci certos estudantes que não liam nada, mas apareciam sempre com livro novo sob o braço. Nós os apelidávamos “sovacos ilustrados”, pois toda aquela cultura estava ali, nos sovacos, não na cabeça – muito menos na alma – deles. No máximo, liam as “orelhas”, para o caso de alguém lhes perguntar sobre o conteúdo da obra ensovacada. Com a novidade eletrônica, acredito que muita gente comprará o livro e não irá além de sair exibindo aos basbaques a brilhante tecnologia de seus sovacos.

Por falar em livros: leio Escritores americanos em Paris (1944-1960), de Christopher Sawyer-Lauçanno, onde há boas histórias que mostram como era visto o escritor na França. A vida no pós-guerra era difícil, havia longas filas para se conseguir alguma coisa com os cupões de racionamento. Então, um dia, para espanto do americano que a acompanhava, Gertrude Stein foi a um açougue e, ignorando a fila, caminhou diretamente ao balcão. Começaram os protestos, aos quais o açougueiro respondeu, aos gritos, justificando o atendimento a Stein: “Ela é uma escritora!” E pronto – porque em Paris o tempo dos criadores era sagrado, não devia ser gasto em vulgaridades. Também certa vez o romancista americano negro James Baldwin foi parado pela polícia. Estava sem documentos, mas levava exemplar de romance que acabara de publicar e mostrou o retrato seu que havia no volume. Imediatamente a atitude hostil dos policiais desapareceu: “Ah, o senhor é escritor! O senhor pode ir.”

Coisas impensáveis entre nós, é claro, por mais tecnologicamente ilustrados que possam ser os sovacos…

Poema para João Ubaldo Ribeiro

fmFlorisvaldo Mattos

Acordei hoje mais para o risonho e o circunstancial, talvez pelo belo dia de sol primaveril e resolvi perpetrar um poema evocativo de momentos de infância, ao me lembrar de uma frase de João Ubaldo Ribeiro, dita em um entrevista há décadas, resolvi dedicar-lhe, homenageando-o, desde que ele tomará posse como membro da Academia de Letras da Bahia, no próximo dia 22, e agora resolvi compartilhá-lo como os amigos do Facebook, tanto os que cultivam memórias da infância quanto os que amam o futebol, amor que às vezes está no sangue. Segue abaixo o poema com a dedicatória.

TARDE NA VÁRZEA

A João Ubaldo Ribeiro
(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)

A chuva há de passar… De quando em quando,
Um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.

Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo os ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tinha ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”

Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.

É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
Logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.

Salvador, manhã de 10/11/2012.

O mensalão como espetáculo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

A universalização da TV e de outras mídias criou o que autores como Guy Debord e Frederic Jameson chamaram de cultura do espetáculo, que domina a vida politica, econômica, social e cultural do mundo. É preciso ter consciência critica deste fenômeno. Por esta razão, a maioria dos juízes norte-americanos não permite a entrada de câmeras fotográficas e vídeos nos tribunais para evitar uma pré-condenação dos réus. O que estamos vendo no caso do mensalão é a transformação de um julgamento do STF em um espetáculo televisivo que disputa o ibope com o desnudamento da nossa classe média no lixão da Avenida Brasil. Não falta inclusive um super-herói de capa e espada lutando contra as forças do mal e a figura do bom ladrão arrependido. O juiz que não votar pela condenação dos réus, independente da consistência das provas, corre o risco de ser considerado conivente com a corrupção.

 

Para além da questão moral, há neste episódio uma questão politico-institucional gravíssima. O nosso sistema politico é estruturalmente corrupto. Este fato decorre do atual regime politico híbrido com uma Constituição parlamentarista, onde tudo deve passar pelo Congresso, e um Presidencialismo onde o chefe de estado, eleito por outra via, não tem o apoio do Legislativo. O conflito se estabelece pela origem diversa dos poderes Legislativo e Executivo. Assim o presidente reina, mas não governa, a menos que coopte uma base parlamentar descompromissada e infiel.

 

Tal sistema foi instituído por Sarney ao vetar o parlamentarismo e restaurar a figura do presidente absoluto, sem fazer as adaptações constitucionais necessárias. Ao contrario do parlamentarismo autentico, em que o primeiro-ministro é eleito pela coligação que lidera o parlamento, ou de um presidencialismo bipartidário, como o norte-americano, onde o presidente é eleito indiretamente por delegados dos partidos, o que garante certa unidade entre o Legislativo e o Executivo, o nosso regime hibrido com 30 legendas de aluguel é literalmente um mercado.

 

No nosso regime político bizarro, batizado por Sergio Abranches de presidencialismo-de-coalizão, o chefe de estado para governar precisa do “toma lá, dá cá”, que mão se faz só com reais e dólares, mas com cargos, liberação ou retenção de emendas parlamentares e participações devidas, financiamentos de obras etc, tidos como “normais”. Destas praticas, inclusive com compra de votos em dinheiro, foram acusados os Presidentes Sarney, para prorrogar o seu mandato; Fernando Henrique Cardoso, para instituir a reeleição e fazer privatizações turvas, e Lula, para aprovar leis de seu programa político. Não vou julgar aqui o mérito de tais ações, senão analisar as razões da pratica.

 

Nesse sistema, os verdadeiros operadores da governabilidade são os chefes da casa civil e coordenadores políticos. As mesmas acusações que pesam sobre José Dirceu e José Genoino de compra de votos sofreram Eduardo Jorge e Sergio Motta, o Serjão, na administração de FHC. Mas Fernando foi mais vivo evitando uma CPI e lavando as mãos ao criar o CGU. Aliás, o inventor do engenhoso Valerioduto é o ex-governador de Minas Gerais, Eng. Eduardo Azeredo, fundador do PSDB.

 

Fica evidente que a compra de votos é resultado de uma crise estrutural de governabilidade, que se manifesta também pelo abuso de Medidas Provisórias, que só no Governo de FHC chegaram a 5.491. Nem mesmo a base governista renuncia a cobrar pedágio e vantagens. No processo em julgamento do presente mensalão estão arrolados políticos do PT, PP, PL, PTB e PSB. O comercio do voto continuará a existir, enquanto persistir o regime politico atual.  Quanto irá custar, de forma explicita ou implícita, a votação das reformas que o País necessita? Se não quisermos ver a reprise deste filme, devemos julgar e condenar o sistema politico corruptor vigente. Tudo mais é circo. Mas tal reforma institucional só pode ser feita por uma Constituinte independente do atual esquema político-partidário, pois seus agentes não abrirão mão do cheque em branco que têm hoje para negociar a governabilidade.

CESA – modelo de educação

img13Joaci Góes

A Bahia já tem um modelo de escola pública para servir de base ao indispensável processo de transformação autossustentável de nossa realidade social, política e econômica, através da educação, permitindo que o País mude o curso da barbárie atual que ameaça naufragá-lo, e siga na direção de um futuro compatível com as legítimas aspirações de civilidade do seu povo.

Refiro-me ao Centro Educacional Santo Antônio – CESA, braço pedagógico das Obras Sociais Irmã Dulce, localizado em Simões Filho, ora com cerca de setecentos alunos, oriundos dos segmentos mais carentes de nossa periferia social. De fato, nada há na Bahia em matéria de ensino público básico e fundamental equiparável em qualidade ao que ali se realiza. A existência dessa unidade de ensino, que obedece ao modelo da Escola Parque, preconizado por Anísio Teixeira, simboliza a esperança de sobrevivência do sonho redentor do povo brasileiro concebido por aquele excepcional educador.

Na semana passada, ao lado da escritora de livros infantis, a acadêmica Gláucia Lemos, participei de um café literário no CESA, precedido de uma solenidade que emocionou a quantos ali se encontravam, pela nítida percepção do papel profundamente transformador que o CESA opera na vida daquelas crianças, dos seis aos dezessete anos, afastando-as das ameaças que comprometem seu futuro e conduzindo-as pelas estradas largas de promissora cidadania: crianças banhadas, bem vestidas, bem alimentadas e visivelmente encantadas com as novas possibilidades que se levantam à sua frente.

Mais do que o Hino Nacional que entoaram a uma só voz, com a mão direita orgulhosamente espalmada sobre o peito, emocionou-me o Hino do Município de Simões Filho, de Fábio Temeson e Adalto Benedito, que entre outros versos sustenta “Simões Filho cidade esplendor… És o orgulho de nossa nação… Terra bendita de céu estrelado.. … és formosa, mais amada do Brasil… … Simões Filho cidade de luz.. … És o orgulho de nossa nação”.

Não pude evitar as lágrimas, ao constatar o enorme contraste entre as benfazejas expectativas daquelas crianças, prometidas no hino, e a dura realidade assoalhada nos horários mais nobres da TV que aponta o município de Simões Filho como o mais violento de todo o Brasil, fato que magnifica o trabalho pedagógico que ali se realiza sob a batuta das professoras Solange, Rita Fróis, Rita Assis e a líder Flávia Rosemberg, todas sob o comando maior de Maria Rita Lopes Pontes, sobrinha e continuadora da obra inexcedível de Irmã Dulce. É Preciso prestar atenção: a melhor escola pública da Bahia está localizada na cidade mais violenta do País. É preciso dizer mais?

Sou portador de um convite aos secretários de educação da Bahia e de Salvador, respectivamente, Osvaldo Barreto Filho e João Carlos Bacelar, para conhecerem o trabalho pedagógico que o magistério do CESA realiza. Quem sabe se alguma coisa de bom não será extraída para ajudar Salvador e a Bahia a saírem da rabada em que se encontram no continente americano em matéria educacional?

Bastam determinação e competência.

Maré Alta

glGláucia Lemos

Foi entrando pela água adentro e alcançou a coroa. Sentou-se e esperou morrer. A maré estava baixa. No dia seguinte era março. À noite a maré subiu. Chegou até a coroa e cobriu o corpo da mulher. Os peixes roeram-lhe as pálpebras e os siris entraram-lhe pela boca. E nunca mais ninguém mariscou na coroa.

Contam que quando ela atravessou a praia, ainda um filete de sangue escorria pelas suas pernas. E foi deixando um rastro vermelho pela água tranqüila.

Não era igual a mãe que nunca aquietava calada, não trocava camisa para brigar. E quando faltava de que reclamar, falava sozinha. Não era. Comia calada. Assuntava o que se passava em volta, mas calava. A mágoa crescia por dentro que nem maré de março.

A mãe tomou conta da criança. Era um menino quieto que tinha nos olhos a expressão tranqüila dos homens que passam a vida no mar. Diziam que era filho de um marinheiro que emprenhara a mulher e se fora. Ninguém sabia ao certo. Pureza era calada. Uma pomba sem fel – dizia a mãe, querendo engrandecer. Uma mosca morta – acrescentava quando queria destratar. Ela não dizia nada. A barriga crescendo e ela calada. Ouvindo tudo sem opinião nem resposta. Ignorando as perguntas como se não fossem com ela.

Mas que o menino tinha aqueles olhos cheios de paz, isso ele tinha. Jerônimo foi crescendo como os outros meninos. Comendo papa de farinha dada na boca pelos dedos da avó, e arrastando a barriga cheia de lombrigas pelo chão batido do casebre. A cara suja de terra. Indo à praia enganchado na anca da avó, à cata de mariscos. Crescia acostumado com a velha que lhe cuidava sem muito carinho mas também sem maus-tratos. Ás vezes, já grandinho, saia caminhando até o cais, ao anoitecer. Alguma coisa por dentro traindo um vazio. Uma necessidade estranha, uma angústia, e ficava sentado nas tábuas do cais, olhando a coroa ali próxima, ou o horizonte distante. E espantando os mosquitos das pernas encardidas. Horas a fio.  Recolhido, calado, quieto. Depois a avó o procurava e vinha a bronca.

– Tá de calundu outra vez. É que nem a mãe
Quando embirra de ficar calado ninguém arranca uma palavra.

Outros diziam que era filho do prefeito. Pureza  lavava para a família do prefeito e todo fim de semana lá ia levando a trouxa de roupa. Os olhos sempre úmidos e brilhantes. E a boca carnuda, que nem fruto de dendê maduro, sempre calada e sisuda. Quando dona Olga viajava para o sítio, ela entrava pela casa da patroa e recolhia a roupa suja das crianças. Fazia tanto tempo que lavava para eles, que era como se fosse da casa.

Quando botou barriga alguns começaram a falar que bem poderia ser filho do prefeito. De alguma daquelas segundas-feiras em que se demorava na casa, recolhendo as roupas da semana. Ela não dizia nada. Caminhava normalmente pelas ruas, o vestido empinando na frente, levando e trazendo as trouxas, ou mariscando siri e papa-fumo pela praia, sem esconder a gravidez. De ninguém. Nem mesmo da mãe. Nem mesmo de Ernesto.

A mãe brigando. Como brigava por tudo.

– Tá prenhe. E quem é o pai? Não tem vergonha do marido paralítico em cima da cama? Penando que nem um desvalido há tantos anos?

Pureza calada. E a velha.

– Não tem mesmo é vergonha na cara.

A mulher foi até a porta do quintal. Ergueu o ferro a carvão e soprou forte. As brasas estalaram e as faíscas saíram pela boca do ferro. Voltou à mesa de engomar. A velha continuava na ladainha.

– Não pode viver sem homem, é? Ernesto é paralítico mas ainda não morreu, não. Não tem vergonha de passar na cara desse infeliz com a barriga de outro homem?

Pureza esticou na mesa o vestido branco de dona Olga. Desfez uma ruga. Passou o ferro com cuidado.

–  Vai, descarada, diga aí. É do marinheiro? Bem feito que ele se picou no mundo. Agora, se não é do marinheiro, heim? Se é de seu Abílio… rum… Tá pensando que ele vai lhe dar alguma coisa? Vai dar mesmo é um pontapé na bunda pra tu tomar vergonha. Coitado de Ernesto, esse, sim, é um infeliz.

A mulher calada. O ferro indo e vindo em suas mãos, por cima da roupa da mulher do prefeito. Não levantava a vista do trabalho. Em seguida, arrumou as peças dentro de um lençol bordado e prendeu os lados com presilhas. A barriga grande, os movimentos lentos. O corpo pesado. Entrou no quarto onde Ernesto dormia. Olhou em cima do estrado o que restava do marido. Um corpo insensível, parado, sequer movia os braços, mal conseguia falar.

Amara aquele homem, sim. Tinha-o amado muito. Tinha sido tempo bom, aquele. Moços os dois, cheios de vida. Depois, havia seis anos, ficara morrendo com ele na sua infelicidade. Acompanhando sua morte lenta em cima da enxerga. Ela, porém, estava viva! Viva! Será que a mãe não entendia isso? Por que teria que morrer junto com o homem? Estava viva! Viva! Deus do céu…

O filho estremeceu na barriga. Olhou outra vez para o homem. E chorou. Não sabia bem por  quê. Mas chorou naquela noite como nunca.

O homem mais velho que a própria idade, nada tentava perguntar. Encolhido em seu estrado, as pernas mortas, como de resto, quase todo o corpo, enrolado na coberta de chitão lavadinha e remendada por Pureza. Reduzia-se à sua solidão de paralítico. Desde o desastre da Leste, havia seis anos, vivia ali, como um bicho de estimação. Pureza dava-lhe o alimento à boca e o banho no colo como se fosse um bebê. E o homem foi mirrando, murchando, como um maracujá que enruga. E parecia um ancião. As mãos encurvando, as pernas secando.

Nada tentava perguntar à mulher. Para quê? Não tinha de que se queixar. Ninguém sabia se sentia ciúmes do vigor de Pureza nos seus trinta e oito anos cheios de sensualidade. Ninguém o sabia. Ele só olhava para ela longamente, e, quando seus olhos a surpreendiam alguma vez parada à porta dos fundos, os olhos na folhagem agitada do quintal ou no pedaço de mar que podia avistar, seu coração enchia-se de piedade pela mulher. Ainda moça, cheia de fogo, amarrada a ele que nada mais tinha a lhe dar. E, sem reclamar, calada como era e sempre fora.

Viu a  barriga da  mulher crescendo, e ela sem alterar os seus hábitos, sem evitar encará-lo, sem diminuir seus cuidados e sem os aumentar. Como se nada estivesse acontecendo.

O coração do homem enchia-se de angústia e ele fechava os olhos quando ela entrava no quarto e, quieta, como era seu jeito, banhava-o, alimentava-o, perguntava-lhe se precisava de alguma coisa.  Solícita como antes, como sempre fora.  Ele não tinha coragem de lhe perguntar por nada. De nada lhe cobrar. Seis anos… Era muito tempo.

Quando Jerônimo  foi crescendo, Ernesto ficava observando. O cabelo crescia clareando. E a pele morena igual à de Pureza, queimada ao sol e ao salitre, fazendo contraste com o cabelo claro, lisão, que nem cabelo de milho novo.  Reparando mais, o cabelo era bem como o cabelo de seu Abílio, o prefeito. O marinheiro ele não conhecera. Diziam só que passara uns dias, poucos, e se fora, só falavam dos olhos calmos do menino, mas ele não tinha como comparar. E a mulher, teimosa do jeito de um burro, nunca dissera nada. Morreu como viveu. Calada. Guardando só para si mesma, seus gostos e seus desgostos.

O menino crescendo como os outros meninos, roubando mangas pelos sítios. Pulando do cais, nadando nas águas da bacia, fazendo carreto no porto, vendendo mariscos aos veranistas, em prato de esmalte. Do pai e da mãe não perguntava. Também, o tempo passando, o povo esquecendo. Ninguém  se lembrava mais de comentar do prefeito ou do marinheiro. Só as mulheres mais velhas, olhando a coroa, de vez em quando falavam da mulher que procurara sua morada na areia do mar. Falavam em assombração, Ninguém mais mariscou na coroa, por isso. Por mais baixa que estivesse a maré.

Um dia Ernesto morreu. Amanheceu morto. O corpo pequenino que se fora reduzindo pela longa paralisia. A velha fechou-lhe os olhos enquanto dizia:

– Deus te tenha no seio da santa glória.

E, noutro tom:

– Descansou.

Durante o velório, Jerônimo, quieto, de olhos compridos ficou ainda mais calado. Não sabia  porque, uma garra lhe apertava o peito. Nunca tinha visto uma pessoa morta. Nunca ligara muito para aquele homem enfurnado em um quarto que exalava cheiro morrinhento. A avó levava-lhe mingau, três vezes ao dia, lembrava-se bem. Mas, agora que morrera é que lhe parecia real. E fazia-o sentir que, um dia,  também fora real a mãe que  nunca vira. Que lhe fora, até então, como Deus, alguma coisa que sabia existir, mas sem noção exata, e sem se importar muito com isso.  Ficou olhando Ernesto, de uma palidez arroxeada, naquele caixão de tábuas. A curiosidade foi despertando, e, pela primeira vez, perguntou à velha:

– Vó, como foi que minha mãe morreu?

A velha, numa surpresa, pôs no rosto do menino os olhos miúdos, e demorou-se com o olhar sem brilho, para encontrar a palavra na voz cansada. Depois, segurou a  mão do neto  e arrastou os chinelos até a porta do casebre. O braço esticado apontou a coroa.

– Tá vendo ali? Onde ninguém quer ir mariscar? Foi ali. Quando ela sentiu a dor, era finzinho de fevereiro. Você demorou muito para nascer. Ali, naquele quarto, Ernesto chorava, coitado, soltando uns gemidos horríveis, de quem quer falar alguma coisa mas não consegue senão grunhir. Ernesto gostava muito de sua mãe. Toda vez que ela gemia,

a cara dele ficava que nem a cara de um cão danado. No outro dia, você nasceu… Eu não quis mais nem olhar para a cara dela.

Foi nessa hora que a mulher se levantou da cama onde tinha acabado de parir, e entrou no quarto do homem. E viu a máscara de dor no rosto do marido. Seus olhos mais expressivos à medida que ia perdendo o uso da palavra, não tinham mais a mansidão habitual, o ar

de agradecimento e de resignação. Havia nos olhos de Ernesto uma mágoa tão funda e tão gritante que contraía os músculos da face e o tornava terrível de se ver. Com aqueles olhos transtornados ele olhou a mulher no rosto demoradamente. Mas a voz parada, sem poder falar mais nada. Que nem maré morta.

Pureza sentiu a mágoa do marido no seu próprio peito. Dentro dela o coração cresceu, cresceu até que estourou.  E ela cuspiu sangue. E seus olhos choraram sangue.

Foi aí que Pureza saiu e foi andando até a praia e entrou na água, Era fim de fevereiro. Ficou sentada no alto da coroa até que chegou março e a maré cresceu e cobriu tudo. E ninguém viu mais nada.

Jerônimo soltou a mão da avó e correu para  a praia. A maré estava alta. O menino parou na fita de espuma onde o mar  se encontrava com o pedaço de praia que a maré grande ainda deixava. A água fria lambendo seus pés maltratados, de unhas encardidas. Olhou para a água. Viu à sua frente um rastro de sangue que se mexia com o movimento do mar. Como uma estranha estrada que se abria e levava à coroa.

Fitos os olhos modorrentos, resoluto o corpo raquítico jogou-se à água e seus braços magros começaram a nadar seguindo o rastro.

Mais uma vez era março. E havia peixes e siris habitando a coroa.

Os prefeituráveis e a cultura

img13Joaci Góes

A Academia de Letras da Bahia receberá na noite do próximo dia 26 os candidatos a prefeito de Salvador, para conhecer o que pensam fazer, se eleitos, em favor da cultura na terceira maior cidade do País, reconhecidamente relegada a plano secundário, como se infere, até, do percentual de 0,2% do orçamento municipal a ela destinado, quando capitais brasileiras há que destinam percentual muitas vezes maior, ao mesmo fim, apesar de, nem de longe, terem as tradições culturais da cidade berço do Brasil.

A iniciativa pioneira da Academia, ao acolher, sob a liderança do presidente Aramis Ribeiro Costa, proposta do mais novo acadêmico, o poeta Cajazeira Ramos, que mediará o encontro, tem tudo para ser exitosa, seja pelo seu caráter apartidário, seja pela qualidade do conjunto das pessoas envolvidas na formatação do conteúdo e da forma do encontro. Nada menos de duzentos respeitados profissionais ligados ao mundo da cultura, divididos em 15 grupos, trabalham para produzir uma proposta de gestão cultural que poderá transportar Salvador ao elevado plano de onde nunca deveria ter sido rebaixado. O novo prefeito de Salvador receberá um programa de ação capaz de restaurar importantes práticas e políticas culturais negligenciadas, para grande prejuízo dos nativos e visitantes no usufruto do incomparável potencial da Soterópolis.

É uma trágica ironia que, enquanto o mundo assiste a um notável crescendo do turismo cultural, tenhamos permitido, por um misto de incompetência e insensibilidade, que essa extraordinária dimensão de nossas possibilidades ficasse à margem do papel gerador de polpudas divisas que respondem pela grandeza de sítios que não podem rivalizar com os marcos históricos que fazem de nossa terra um museu a céu aberto, somando-se às incomparáveis belezas naturais compostas pela amenidade da temperatura, a brisa permanente, a cor do mar e a intensa claridade tropical. Só muita falta de imaginação e preparo para não compreender que o carnaval, por maior que seja o seu peso, é, apenas, um evento sazonal que em nada interfere com uma sólida programação que, bem articulada e difundida, manteria um fluxo regular e expressivo de visitantes ao longo de todas as semanas do ano, além de proporcionar lazer de qualidade aos moradores. É inegável, por outro lado, como já denunciamos em outras ocasiões, que Salvador cedeu ao fácil apelo do turismo sexual, a exemplo de outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, que, segundo Ciro Gomes, se transformou num “puteiro a céu aberto”.

Salta aos olhos que, pela sua intensidade e abrangência, os fastos culturais que fazem de Salvador uma das cidades de maior tradição no Continente Americano não podem ser tratados por uma fundação, apenas, a Gregório de Matos, apêndice de uma secretaria da importância da de Educação, Esporte e Lazer, já absorvida pela enorme responsabilidade de retirar Salvador da rabada em que se encontra, penúltimo lugar, em matéria de qualidade de ensino, entre as vinte e sete capitais brasileiras, ligeiramente acima de Maceió. Quem quer que tenha um mínimo de percepção mercadológica compreende que nada é de retorno pecuniário tão certo como investimento em cultura, fato de que todo o mundo é prova. Isso explica porque as pinturas dos grandes mestres alcançam fortunas colossais, na medida em que sirvam de motivação para manter o visitante por alguma fração média de tempo adicional, expondo-se ao aumento do consumo de bens e serviços, gerador de receita tributária.

O tratamento secundário que a cultura em Salvador vem recebendo decorre, inegavelmente, portanto, de uma perversa associação entre a estreiteza de visão e o aparelhamento da administração pública para atender a compromissos decorrentes da licenciosidade partidária que estimula apoios políticos necessários a assegurar a governabilidade em troca da mais desabrida pilhagem do Erário.

Penso que esta oportuna iniciativa da Academia de Letras da Bahia vai fazer história.