Quatro Autores e Uma Cidade: imagens de Salvador no conto baiano

Em diversos contos de autores baianos da segunda metade do século 20, fxados, por exemplo, na antologia Panorama do conto baiano, organizada em 1959 por Nelson de Araújo e Vasconcelos Maia, encontram-se frequentemente elementos relacionados aos confitos, muitas vezes brutais, ocorridos em regiões distantes da capital, a exemplo de tragédias envolvendo índios, jagunços e tropeiros, retratadas por Adonias Filho em “O brabo e sua índia”, e a inevitável presença dos coronéis, para os quais a vida de míseros agricultores “de corpo amarelo e inchado” valia menos do que a das onças caçadas nas matas do Sul baiano, como em “A caçada do coronel”, de Camillo de Jesus Lima. Encontram-se, também, marcas vívidas de um tempo presente, numa selva urbana cuja selvageria traduzia-se no arbítrio da repressão política e da censura, na qual a caça passava a ser o homem comum, perseguido por policiais e delegados soturnos, como no Ariovaldo Matos de “A dura lei dos homens”.

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Os Gerais São Sem Tamanho: Cartografias do sertão rosiano

Evelina Hoisel

Desde que apareceu na cena cultural brasileira, a vasta produção literária de João Guimarães Rosa tem suscitado uma série de indagações que perpassa diversos campos do conhecimento e contempla as interpretações mais díspares e antagônicas. Isso se deve à própria confguração paradoxal desses textos, em que “tudo é e não é”, pois “este mundo é muito misturado”, como afrma o narrador protagonista de Grande sertão: veredas (1967), Riobaldo Tatarana.

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A Morte na Vida e Na Poesia de Castro Alves

Aramis Ribeiro Costa

Tendo vivido tão pouco, a morte acompanhou a vida e a poesia de Castro Alves. Não aconteceu apenas com ele. Álvares de Azevedo morreu aos vinte anos; Fagundes Varela, aos trinta e três; Casimiro de Abreu, aos vinte; e Junqueira Freire, aos vinte e dois. É preciso lembrar que falamos de meados do século XIX, uma época em que a medicina, essencialmente empírica, se encontrava muitas décadas distante dos conhecimentos e dos recursos dos nossos dias. Não havia antibiótico nem vacina. Morria-se com facilidade. E não apenas nas grandes epidemias, que, uma vez iniciadas, se alastravam com rapidez e descontrole, ceifando vidas aos milhares, ante a impotência angustiante dos poderes públicos e dos médicos, ambos desarmados. Morria-se por tudo. Morria-se de parto, de pneumonia, de desidratação, de pequenas infecções ou inflamações que não podiam ser debeladas. Morria-se a morte lenta e dolorosa da sífilis. E morria-se de tuberculose, fantasma soturno que acompanhava os indivíduos de forma silenciosa e persistente, seguindo, como sombra apavorante, em particular os desnutridos e os moços boêmios em seus prazerosos excessos. Na verdade, convivia-se cotidiana-mente, diuturnamente com a morte, e nem mesmo a realidade destruidora da violência urbana dos grandes centros contempo-râneos, dos assaltos, dos acidentes de tráfego, das drogas, das doenças degenerativas e das síndromes imunológicas de nossos dias podem dar uma ideia desse convívio macabro.

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Edivaldo M. Boaventura – Oitenta anos do acadêmico

Discurso em homenagem ao octogésimo aniversário do acadêmico Edivaldo M. Boaventura, proferido em sessão especial da Academia de Letras da Bahia em 25 de março de 2014

Luís Antonio Cajazeira Ramos

 

Meu chanceler.

Estamos diante de um incômodo dilema. O que esperar de um discurso de celebração dos 80 anos de idade de alguém? Creio que todos pediriam ao orador que, de forma criativa e agradável, lembrasse em breves palavras a genealogia da pessoa festejada, suas raízes socioculturais, sua formação escolar, um pouco de sua vida privada e muito de sua vida pública, as escolhas acadêmicas, os caminhos profissionais, a produção intelectual, as inserções institucionais, as intervenções sociais, as realizações. Mas nosso homenageado é Edivaldo M. Boaventura. Eis aí o problema. Se eu for sumariar, apenas sumariar, listar as realizações do bem-venturoso confrade, inescapavelmente eu ocuparei ou mesmo ultrapassarei o tempo razoável pelo qual deve estender-se um discurso de qualquer natureza. Como contornar esse problema? Como vencer a encruzilhada? Sinceramente, não sei. Na dúvida, prefiro afastar-me da via meramente curricular; ignoro o caminho fácil de agradar os ouvintes com eventuais causos pitorescos de sua aventura de vida; preservo-me de seguir a oportunista pista de minha relação pessoal com o dileto amigo; e escolho avançar pela bem sinalizada estrada suavemente retilínea de sua rica, proveitosa e admirável biografia. Resumidamente, é claro, superficialmente, em pequenos saltos, até onde o fôlego nos conduza.

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Tecnologia e Literatura

refRuy Espinheira Filho

Frequentemente me perguntam o que acho do livro eletrônico, se o livro de papel vai desaparecer etc. O que me impressiona inicialmente é o entusiasmo pelo livro eletrônico em pessoas que nunca gostaram de livros. Quando dizem, os olhos brilhando, que num objeto daqueles podem caber centenas, talvez milhares de livros, quem sabe uma biblioteca inteira, a vontade que tenho é de lhes perguntar por que estão tão encantados, já que jamais leem livro algum. Quando no curso de Direito, conheci certos estudantes que não liam nada, mas apareciam sempre com livro novo sob o braço. Nós os apelidávamos “sovacos ilustrados”, pois toda aquela cultura estava ali, nos sovacos, não na cabeça – muito menos na alma – deles. No máximo, liam as “orelhas”, para o caso de alguém lhes perguntar sobre o conteúdo da obra ensovacada. Com a novidade eletrônica, acredito que muita gente comprará o livro e não irá além de sair exibindo aos basbaques a brilhante tecnologia de seus sovacos.

Por falar em livros: leio Escritores americanos em Paris (1944-1960), de Christopher Sawyer-Lauçanno, onde há boas histórias que mostram como era visto o escritor na França. A vida no pós-guerra era difícil, havia longas filas para se conseguir alguma coisa com os cupões de racionamento. Então, um dia, para espanto do americano que a acompanhava, Gertrude Stein foi a um açougue e, ignorando a fila, caminhou diretamente ao balcão. Começaram os protestos, aos quais o açougueiro respondeu, aos gritos, justificando o atendimento a Stein: “Ela é uma escritora!” E pronto – porque em Paris o tempo dos criadores era sagrado, não devia ser gasto em vulgaridades. Também certa vez o romancista americano negro James Baldwin foi parado pela polícia. Estava sem documentos, mas levava exemplar de romance que acabara de publicar e mostrou o retrato seu que havia no volume. Imediatamente a atitude hostil dos policiais desapareceu: “Ah, o senhor é escritor! O senhor pode ir.”

Coisas impensáveis entre nós, é claro, por mais tecnologicamente ilustrados que possam ser os sovacos…

Poema para João Ubaldo Ribeiro

fmFlorisvaldo Mattos

Acordei hoje mais para o risonho e o circunstancial, talvez pelo belo dia de sol primaveril e resolvi perpetrar um poema evocativo de momentos de infância, ao me lembrar de uma frase de João Ubaldo Ribeiro, dita em um entrevista há décadas, resolvi dedicar-lhe, homenageando-o, desde que ele tomará posse como membro da Academia de Letras da Bahia, no próximo dia 22, e agora resolvi compartilhá-lo como os amigos do Facebook, tanto os que cultivam memórias da infância quanto os que amam o futebol, amor que às vezes está no sangue. Segue abaixo o poema com a dedicatória.

TARDE NA VÁRZEA

A João Ubaldo Ribeiro
(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)

A chuva há de passar… De quando em quando,
Um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.

Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo os ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tinha ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”

Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.

É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
Logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.

Salvador, manhã de 10/11/2012.

O mensalão como espetáculo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

A universalização da TV e de outras mídias criou o que autores como Guy Debord e Frederic Jameson chamaram de cultura do espetáculo, que domina a vida politica, econômica, social e cultural do mundo. É preciso ter consciência critica deste fenômeno. Por esta razão, a maioria dos juízes norte-americanos não permite a entrada de câmeras fotográficas e vídeos nos tribunais para evitar uma pré-condenação dos réus. O que estamos vendo no caso do mensalão é a transformação de um julgamento do STF em um espetáculo televisivo que disputa o ibope com o desnudamento da nossa classe média no lixão da Avenida Brasil. Não falta inclusive um super-herói de capa e espada lutando contra as forças do mal e a figura do bom ladrão arrependido. O juiz que não votar pela condenação dos réus, independente da consistência das provas, corre o risco de ser considerado conivente com a corrupção.

 

Para além da questão moral, há neste episódio uma questão politico-institucional gravíssima. O nosso sistema politico é estruturalmente corrupto. Este fato decorre do atual regime politico híbrido com uma Constituição parlamentarista, onde tudo deve passar pelo Congresso, e um Presidencialismo onde o chefe de estado, eleito por outra via, não tem o apoio do Legislativo. O conflito se estabelece pela origem diversa dos poderes Legislativo e Executivo. Assim o presidente reina, mas não governa, a menos que coopte uma base parlamentar descompromissada e infiel.

 

Tal sistema foi instituído por Sarney ao vetar o parlamentarismo e restaurar a figura do presidente absoluto, sem fazer as adaptações constitucionais necessárias. Ao contrario do parlamentarismo autentico, em que o primeiro-ministro é eleito pela coligação que lidera o parlamento, ou de um presidencialismo bipartidário, como o norte-americano, onde o presidente é eleito indiretamente por delegados dos partidos, o que garante certa unidade entre o Legislativo e o Executivo, o nosso regime hibrido com 30 legendas de aluguel é literalmente um mercado.

 

No nosso regime político bizarro, batizado por Sergio Abranches de presidencialismo-de-coalizão, o chefe de estado para governar precisa do “toma lá, dá cá”, que mão se faz só com reais e dólares, mas com cargos, liberação ou retenção de emendas parlamentares e participações devidas, financiamentos de obras etc, tidos como “normais”. Destas praticas, inclusive com compra de votos em dinheiro, foram acusados os Presidentes Sarney, para prorrogar o seu mandato; Fernando Henrique Cardoso, para instituir a reeleição e fazer privatizações turvas, e Lula, para aprovar leis de seu programa político. Não vou julgar aqui o mérito de tais ações, senão analisar as razões da pratica.

 

Nesse sistema, os verdadeiros operadores da governabilidade são os chefes da casa civil e coordenadores políticos. As mesmas acusações que pesam sobre José Dirceu e José Genoino de compra de votos sofreram Eduardo Jorge e Sergio Motta, o Serjão, na administração de FHC. Mas Fernando foi mais vivo evitando uma CPI e lavando as mãos ao criar o CGU. Aliás, o inventor do engenhoso Valerioduto é o ex-governador de Minas Gerais, Eng. Eduardo Azeredo, fundador do PSDB.

 

Fica evidente que a compra de votos é resultado de uma crise estrutural de governabilidade, que se manifesta também pelo abuso de Medidas Provisórias, que só no Governo de FHC chegaram a 5.491. Nem mesmo a base governista renuncia a cobrar pedágio e vantagens. No processo em julgamento do presente mensalão estão arrolados políticos do PT, PP, PL, PTB e PSB. O comercio do voto continuará a existir, enquanto persistir o regime politico atual.  Quanto irá custar, de forma explicita ou implícita, a votação das reformas que o País necessita? Se não quisermos ver a reprise deste filme, devemos julgar e condenar o sistema politico corruptor vigente. Tudo mais é circo. Mas tal reforma institucional só pode ser feita por uma Constituinte independente do atual esquema político-partidário, pois seus agentes não abrirão mão do cheque em branco que têm hoje para negociar a governabilidade.