O mensalão como espetáculo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

A universalização da TV e de outras mídias criou o que autores como Guy Debord e Frederic Jameson chamaram de cultura do espetáculo, que domina a vida politica, econômica, social e cultural do mundo. É preciso ter consciência critica deste fenômeno. Por esta razão, a maioria dos juízes norte-americanos não permite a entrada de câmeras fotográficas e vídeos nos tribunais para evitar uma pré-condenação dos réus. O que estamos vendo no caso do mensalão é a transformação de um julgamento do STF em um espetáculo televisivo que disputa o ibope com o desnudamento da nossa classe média no lixão da Avenida Brasil. Não falta inclusive um super-herói de capa e espada lutando contra as forças do mal e a figura do bom ladrão arrependido. O juiz que não votar pela condenação dos réus, independente da consistência das provas, corre o risco de ser considerado conivente com a corrupção.

 

Para além da questão moral, há neste episódio uma questão politico-institucional gravíssima. O nosso sistema politico é estruturalmente corrupto. Este fato decorre do atual regime politico híbrido com uma Constituição parlamentarista, onde tudo deve passar pelo Congresso, e um Presidencialismo onde o chefe de estado, eleito por outra via, não tem o apoio do Legislativo. O conflito se estabelece pela origem diversa dos poderes Legislativo e Executivo. Assim o presidente reina, mas não governa, a menos que coopte uma base parlamentar descompromissada e infiel.

 

Tal sistema foi instituído por Sarney ao vetar o parlamentarismo e restaurar a figura do presidente absoluto, sem fazer as adaptações constitucionais necessárias. Ao contrario do parlamentarismo autentico, em que o primeiro-ministro é eleito pela coligação que lidera o parlamento, ou de um presidencialismo bipartidário, como o norte-americano, onde o presidente é eleito indiretamente por delegados dos partidos, o que garante certa unidade entre o Legislativo e o Executivo, o nosso regime hibrido com 30 legendas de aluguel é literalmente um mercado.

 

No nosso regime político bizarro, batizado por Sergio Abranches de presidencialismo-de-coalizão, o chefe de estado para governar precisa do “toma lá, dá cá”, que mão se faz só com reais e dólares, mas com cargos, liberação ou retenção de emendas parlamentares e participações devidas, financiamentos de obras etc, tidos como “normais”. Destas praticas, inclusive com compra de votos em dinheiro, foram acusados os Presidentes Sarney, para prorrogar o seu mandato; Fernando Henrique Cardoso, para instituir a reeleição e fazer privatizações turvas, e Lula, para aprovar leis de seu programa político. Não vou julgar aqui o mérito de tais ações, senão analisar as razões da pratica.

 

Nesse sistema, os verdadeiros operadores da governabilidade são os chefes da casa civil e coordenadores políticos. As mesmas acusações que pesam sobre José Dirceu e José Genoino de compra de votos sofreram Eduardo Jorge e Sergio Motta, o Serjão, na administração de FHC. Mas Fernando foi mais vivo evitando uma CPI e lavando as mãos ao criar o CGU. Aliás, o inventor do engenhoso Valerioduto é o ex-governador de Minas Gerais, Eng. Eduardo Azeredo, fundador do PSDB.

 

Fica evidente que a compra de votos é resultado de uma crise estrutural de governabilidade, que se manifesta também pelo abuso de Medidas Provisórias, que só no Governo de FHC chegaram a 5.491. Nem mesmo a base governista renuncia a cobrar pedágio e vantagens. No processo em julgamento do presente mensalão estão arrolados políticos do PT, PP, PL, PTB e PSB. O comercio do voto continuará a existir, enquanto persistir o regime politico atual.  Quanto irá custar, de forma explicita ou implícita, a votação das reformas que o País necessita? Se não quisermos ver a reprise deste filme, devemos julgar e condenar o sistema politico corruptor vigente. Tudo mais é circo. Mas tal reforma institucional só pode ser feita por uma Constituinte independente do atual esquema político-partidário, pois seus agentes não abrirão mão do cheque em branco que têm hoje para negociar a governabilidade.

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A cidade como cultura

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

A cidade não é apenas o palco das diversas linguagens artísticas: a arquitetura, a musica, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Ela própria é cultura material e imaterial. Material, pelo traçado de suas ruas, praças, fontes e parques, pelo tratamento de suas frentes marítimas e espelhos d´água. Imaterial, por suas relações sociais, tradições cívicas e religiosas, por suas festas e jogos. A cidade é um arquivo histórico, como diz o espanhol Chueca Goitia, porque nela se guardam construções de todas as épocas.  A história das artes se confunde com a história da cidade, segundo o critico de arte e ex-prefeito de Roma, Carlo Argan.

Salvador tem uma cultura urbana riquíssima, pela sua implantação em acrópole, pelo seu acervo arquitetônico e artístico, pela sua história social, pelo seu sincretismo religioso, pela alegria de seu povo, por suas festas ao ar livre, pelo requebrado de suas baianas, por sua música e cozinha típicas. Mas a partir do início da década de 1970 este patrimônio cultural e econômico vêm sendo impiedosamente pilhado e destruído pela especulação travestida de progresso, pela incompetência e conivência de nossos gestores urbanos e pela pusilanimidade de todos nós soteropolitanos, que não soubemos reagir a tempo.

Finalmente, quando quase tocávamos o fundo do poço, a Academia de Letras da Bahia, com o apoio de artistas e produtores culturais soteropolitanos, resolve reagir cobrando dos candidatos a Prefeito um compromisso com a nossa cultura, o dar um basta na destruição de nosso patrimônio cultural e ambiental urbano e incentivar à criação cultural, como ocorreu nos anos 60, quando fomos a vanguarda da arte brasileira.

É preciso que o nosso futuro prefeito compreenda que a par de sua importância identitária a cultura representa 7% do nosso PIB. No contexto urbano este percentual é ainda maior e para que ele cresça é preciso que as prefeituras tenham politicas e invistam na cultura. Em meado da década de 70, Nova York enfrentou uma crise financeira e de gestão semelhante à de Salvador. A companha do novo prefeito para recuperar a cidade foi recriar a autoestima de seus cidadãos com o slogan I love New York.

Enquanto a Prefeitura do Recife aplica quatro por cento do seu orçamento em cultura e transformou o Centro Histórico em um polo de informática, a nossa não chega a investir meio por cento e não tem nenhuma politica para o Pelourinho. Não obstante os esforços dos últimos presidentes da Fundação Gregório de Mattos, não é possível fazer milagres com tal orçamento.

O grupo de artistas não quer congelar a cidade, mas é preciso acabar com a farsa que basta preservar o Centro Histórico para os turistas “e que tudo mais vá para o inferno”. Se fosse assim, não teríamos mais Paris, Barcelona, Florença, San Francisco e as cidades mineiras. É preciso compreender que a recuperação do Pelourinho não pode ser uma operação puramente construtiva, senão essencialmente urbanística e isto e uma competência exclusiva do município.

O que a Prefeitura fez pelo Pelourinho nos últimos vinte anos?  Um dos maiores flagelos dele é a falta de mobilidade e acessibilidade. No entanto o Plano Inclinado Gonçalves está parado há quase um ano e o Elevador Lacerda funcionando precariamente. Precisamos ter um órgão cultural com status de secretaria, um conselho cultural nos moldes do recomendado pelo Estatuto da Cidade e incentivos fiscais para a cultura. Sem isso a Prefeitura não pode exercer as prerrogativas constitucionais de preservar e incentivar a cultura.

O encontro sugerido e coordenado pelo acadêmico Antonio Carlos Cajazeira está marcado para o próximo dia 26, à noite, naquela Academia. Não será um debate nem um embate para não constranger os candidatos, senão ouvi-los sobre o que pensam sobre a cidade. O confronto será subjetivo, na cabeça de cada ouvinte-formador de opinião. No final da sessão será entregue a todos um documento do grupo com sugestões. A recuperação de Salvador passa inevitavelmente pelo resgate da autoestima dos soteropolitanos e isto não se consegue sem reforçar a cultura urbana.

SERVIÇO sobre o evento em: http://www.academiadeletrasdabahia.org.br/Acontece/encontro.htm

Rios: revitalizá-los ou sepultá-los?

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Um dos valores das cidades européias são os rios que as deram origem e vida. Não apenas os grandes rios, como o Tévere, o Sena, ou o Tejo, mas também os pequenos, como disse Fernando Pessoa, “o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia”. Infelizmente entre nós os rios urbanos se transformaram em cloacas e verdadeiros flagelos pelas inundações e mau cheiro que provocam, não só em Salvador, como em São Paulo ou no trágico vale do Itajai. Se isto não ocorre na Europa é porque a partir do século XVIII aqueles rios foram domados com grandes obras hidráulicas, como diques, eclusas, comportas e aquedutos e a criação de redes independentes de esgotos, o que permitiu perenizá-los, regularizar o seu fluxo e manter a qualidade de suas águas, que jorram em belas fontes como em Roma.

Mas muitos desses rios estavam mortos há 30 anos, devido a um modelo de desenvolvimento predador. A luta das populações locais teve como resposta políticas consistentes que permitiram reverter esta tendência e torná-los novamente balneáveis e povoados de peixes. Ao invés de seguir estes exemplos, nossos administradores caminham na contra mão, querendo que os nossos rios entrem literalmente pelo cano.

Na expansão urbana do além-Camarugipe abandonou-se o modelo bem sucedido das avenidas drenantes de vale, para permitir o espontaneismo demagógico do caminho de rato, transformando o chamado Miolo de Salvador, uma área estratégica da cidade, em um favelão, que chega até o fundo dos vales. Para piorar, se construiu na década de 70 a mole da Paralela, que represou praticamente todos os rios que deságuam na Orla Atlântica. No ultimo inverno, uma das áreas mais inundadas da cidade foi a Av. Jorge Amado.

Para resolver este cenário gótico, a Prefeitura imagina ingenuamente tamponar os nossos rios e jogar o cisco debaixo do tapete com o aval de uma classe média desinformada. Canalizar os rios só irá piorar a situação, pois reduz a seção de sua calha, inviabiliza sua limpeza e a existência de vida, provocando mais inundação e contaminação de nossa baia e praias, além de criar um nicho inexpugnável para roedores, baratas e lacraus. Como interage esta política com o Baía Azul?

Precisamos, ao contrario, perenizar nossos rios com pequenas comportas para podermos repovoá-los de peixes, rebaixar suas margens para aumentar sua vazão durante as cheias e paralelamente cortar todas as ligações de esgoto. Com peixes, nossos rios se auto-regenerarão contribuindo para voltarem a ser balneáveis e livres de mosquitos.  

Nos terraços rebaixados do Sena, em Paris, correm pistas de carros, que no verão se transformam em praias artificiais. Mas nas cheias, esses terraços dão vazão rápida às águas, sem que elas atinjam o nível das avenidas. O mesmo esquema está sendo adotado em Seul e poderá, no nosso caso, acabar com os pernilongos e prevenir inundações.

Recentemente o Instituto de Gestão da Águas e Clima – Ingá, com o apoio das associações profissionais, resistiu valentemente às pressões políticas para entubar o Canal do Imbuí, só permitindo a sua cobertura provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Esta é uma solução provisória, mas um marco definitivo de altivez de um grupo de técnicos de não se dobrar às pressões e cumprir a lei, que deveria estar acima dos interesses circunstanciais.

Não é possível continuarmos a administrar uma cidade de três milhões de habitantes na base do achismo e de interesses míopes de empreiteiras e imobiliárias. Em definitivo nenhuma dessas obras resolverá sem um master-plan de macro-drenagem de toda a cidade. Plano que se ligará, inevitavelmente, a um projeto viário e este a um de uso do solo. Em outras palavras, precisamos urgentemente de um plano diretor urbano inteligente, que tenha um mínimo de transparência e tecnicidade e proporcione melhor qualidade de vida para todos. Por que não fazemos a coisa certa desde o inicio? Por que tanto desperdício? Precisamos dar racionalidade e modernidade a este processo, que no nosso caso é pura improvisação.

Um novo polo turístico na Bahia

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

O projeto de transformar Salvador em um pólo turístico-cultural com a recuperação de seu centro histórico, proposto em 1967 por Michel Parent, técnico da Unesco, perdeu força e se transformou em um projeto sem sustentabilidade por uma serie de erros, que não cabe aqui rediscutir. Mas o Recôncavo, pano de fundo de Salvador, que estagnou há cem anos com a crise da agro-indústria açucareira e evolução das redes de transportes, oferece um enorme potencial inexplorado. Turismo de natureza cultural com suas cidades históricas, tradições e rituais, praias insulares, gastronomia e esportes náuticos.

A deflagração desse processo resultaria na criação de milhares de empregos, reativando a pesca, a agricultura e pecuária familiar, a construção de barcos e lanchas, o artesanato e os serviços. Para isto basta a realização de uma infra-estrutura viária capaz de reintegrar as antigas cidades-portos marginalizadas, como São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, São Feliz, Maragogipe, Jaguaripe e Nazaré, num sistema multimodal da Baía de Todos os Santos. Isto daria inclusive um novo alento ao nosso centro histórico, na medida em que ele voltaria a ser a cabeça de uma constelação de cidades históricas. Esta infraestrutura viária é o que chamei de Envolvente da Baía em artigo neste jornal de 09/03/10. Ela daria acesso também a vilas e praias como Itapema, Saubara, Cabuçu, Bom Jesus, Monte Cristo, Barra do Paraguaçu, Salinas da Margarida, Encarnação, Mutá, Cações e um sem número de ilhas, através de pequenos barcos.

A primeira proposta de criação do anel viário em volta da Baia de Todos os Santos é de 1966 e autoria do Arq. Sergio Bernardes, no âmbito dos estudos sobre o Centro Industrial de Aratu, mas não vingou. O que se está propondo agora não é a mesma coisa, seria um sistema binário de vias. Uma turística, marginal á baía, e outra, mais recuada, de transporte de carga capaz de integrar pólos industriais como o COPEC, a Ford, o CIA, a RELAN, o Temadre e o estaleiro de São Roque e trazer a soja e os minérios do oeste diretamente ao Porto de Aratu, sem cruzar Salvador. Na faixa de domínio desta via poderá ser instalada, no futuro, uma linha férrea que irá se articular com a ferrovia Centro-Atlântica, antiga Leste Brasileiro, e Oeste/Leste, e o Porto Sul. Na foz do Subaé e do Paraguaçu as duas vias de uniriam em uma só ponte. Sua licitação e construção poderá ser feita por lotes, agilizando a execução e favorecendo as medias construtoras baianas ao invés de licitar o pacote fechado e ficar refém das grandes construtoras oligopolizadas.

Um ramal da via turística poderá ligar a Ponta do Dendê, em Salinas da Margarida, à Estação Experimental de Mucambo, em Itaparica, cruzando um canal relativamente estreito e de pouca profundidade e pondo a ilha a igual distância de Salvador que Sauipe, ou seja, a uma hora e um quarto, em carro. Toda a região deve ser objeto de um planejamento territorial e urbano capaz de evitar uma ocupação desordenada. A Envolvente da Baía é uma alternativa social, econômica e cultural mais interessante e sustentável que a ponte Salvador/Itaparica que inevitavelmente promoverá enormes impactos ambientais, sociais e viários na ilha, na Baía de Todos os Santos, em Salvador e na Estrada do Coco, pois se transformará em uma ligação Sudeste/ Nordeste atropelando Itaparica e Salvador e marginalizando Feira de Santana.

Um anel viário envolvendo a Baía de Todos os Santos custaria menos de um quinto da referida ponte, orçada preliminarmente em 15 bilhões (A Tarde, 19/12/10), ou seja, o equivalente a 300 mil casas populares, 150 Km de metrô ou três usinas nucleares do porte de Angra 3. Com duração prevista de cinco ou seis anos corre-se ainda o risco de ter mais uma obra inconcluída, como o metrô, enfeando a nossa paisagem. O dilema de nosso Governador é inaugurar um novo pólo turístico, que poderá ser a redenção do Recôncavo e de seu segundo mandato, ou investir em uma quimera que não se sabe como, nem quando acabará. Já coloquei minhas fichas.

Happy End na Paralela

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Mais que analisar a solução apontada para a ligação Acesso Norte/Lauro de Freitas, quero aqui analisar o processo. A primeira lição do episódio é que Salvador já não é a mesma de 2007, quando a Camara de Vereadores aprovou na calada da noite o PDDU vigente. Apesar de não ter havido audiências publicas, foi intensa a mobilização da sociedade em torno da escolha do sistema de transporte na RMS, através de jornais, blogs, rádios e reuniões promovidas por instituições como o CREA-Ba ou convocadas por vereadores e deputados estaduais. Esta ação cidadã foi decisiva na definição do modal de mobilidade.

Aquilo que parecia impossível, vencer o poderoso consórcio do BRT, acabou acontecendo. Recorde-se que o projeto do SETPS, iniciado em 2003, foi um dos vinte oferecidos por investidores privados e encampados pela Prefeitura no pacote Salvador Capital Mundial. O SETPS e a construtora consorciada realizaram o levantamento topográfico da rota e financiaram os estudos preliminares da TTC- Engenharia de Trafego e Transportes na certeza de ganhar a concessão e impor o BRT como paradigma para a RMS. Para isso publicaram revistas, trouxeram jornalistas, promoveram viagens e investiram em um lobby milionário.

Não se pode ignorar o papel que tiveram movimentos populares como “Salvador sobre Trilhos”, “Eu quero VLT em Salvador”, ”A Cidade Também é Nossa” e “Associação de Ferroviários”. Esta foi uma grande vitória desses movimentos, já que a elite manteve o tradicional silencio obsequioso, mas haverá de gritar quando não puder mais sair da garagem. O povo não está interessado em eventuais jogos que não poderá assistir. Ele quer é passar menos tempo dentro de um ônibus com chassi de caminhão superlotado com curral e torniquete kafkiano. Sua paciência já se esgotou e os protestos, bloqueios de avenidas e estações ameaçam repetir o “quebra bonde” de 1930.

Mas não se pode deixar de reconhecer o papel desempenhado por Zezeu Ribeiro. Político hábil, ele tem sabido utilizar estes movimentos para contrabalançar a pressão de poderosos lobbies, como já havia demonstrado ao mudar a localização do Porto Sul, que ameaçava destruir uma das mais sensíveis APAs do estado. No caso presente, além da fazer ecoar as manifestações contra o péssimo sistema de “buzus” explorou as contradições do capitalismo, ao abrir o PMI a outros grupos e exibir suas propostas no site da SEPLAN. Isto destruiria o mito do BTR como única solução possível.

Zezeu pegou o bonde andando e tenta dar tecnicidade a uma secretaria desaparelhada. Mas uma andorinha só não faz verão. É preciso se criar um processo institucional de gestão planejada e participativa. O atropelo dessa escolha demonstra que não havia no governo nenhum pensamento sobre a RMS e transporte de massa. Não se sabe como descongestionar a capital, nem como infra-estruturar a RMS. Precisamos restaurar a função do planejamento, reduzido pelos políticos a um instrumento, à posteriori, de legitimar decisões autoritárias. Este não é o caso em pauta. De que vale fazer audiências públicas e atualizar pesquisa de origem e destino a esta altura?

A decisão adotada foi acertada, distinguindo vias “troncais”, de transporte de massa sobre trilhos, e vias transversais capilares operadas por BRT e ônibus comuns. No meu entender, o monotrilho está descartado. Seu impacto visual e difícil acessibilidade a uma plataforma de 35 metros de altura o desqualifica. O metrô de superfície com pequenos mergulhos nos cruzamentos é perfeitamente viável no prazo estabelecido e atende à exigência da Presidenta de conclusão do metrô. Ele elimina desapropriações e os 27 viadutos da consorciada do BRT. Os carros do metrô já estão aqui, A grande questão é quem administrará este sistema misto, mas para isto temos tempo.

Em resumo, o episódio da escolha do modal da ligação Acesso Norte/Lauro de Freitas mostrou a força dos movimentos populares e que o planejamento da RMS e da Bahia não pode ficar a mercê da eventual titularidade da SEPLAN por um técnico competente e integro. Deve ser uma politica de estado com quadros idôneos dispostos a ouvir a comunidade, que deveria ser o principal objetivo da politica.

Publicado no Jornal A Tarde

Salvemos Salvador, enquanto é tempo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

O 460º aniversario de Salvador passou quase despercebido. Realmente não há muito a comemorar. Em 60 anos de “laissez-faire” a cidade acumulou índices assustadores de compactação demográfica e veicular, concentração de pobreza, insegurança e destruição do meio ambiente, que apontam para seu colapso em curto prazo. A cidade possui hoje 4.172 hab por km2, densidade superior a de Bombain, 2ª colocada. Para piorar, a urbe se transformou, por falta de política metropolitana, no dormitório e provedor das necessidades de 3,76 milhões de moradores da Grande Salvador. Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Fo e Candeias juntos faturam receita igual à de Salvador transferindo para esta o passivo de serviços e infra-estrutura.

Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, dos quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário. Para satisfazer aos 10% dos candidatos com renda superior a 5 SM o novo PDDU consentiu que o setor imobiliário devorasse as entranhas verdes da cidade, a orla e os bairros consolidados. Cerda de 35.000 novos automóveis e o dobro de motos são licenciados a cada ano. O metrô de Salvador, cuja construção dura 6 anos, é dos mais caros do mundo. Terá 6 kms, 6 trens, e custará R$ 1,16 bilhões, se inaugurado em 2010. No Recife, o metrô foi construído em dois anos, tem 34,7 km, 25 trens, transporta 180 mil por dia e custou R$ 750 milhões, segundo H. Carballal (A Tarde, 23/03/09). Isto para não falar no seu impacto ambiental e déficit operacional.

As duas saídas rodoviárias da cidade, a Paralela e a BR-324, estão no seu limite e ainda se fala em construir uma ponte para Itaparica para trazer os caminhões da BR 101 para o nó do Iguatemi, ao invés de construir um arco rodoviário. Isto quando Manhattan e cidades européias cobram pedágios e proíbem a construção de novas garagens para evitar a entrada de mais carros. Em Salvador alguns apartamentos centrais têm até seis vagas. Não há planejamento nem qualificação dos projetos públicos, que são oferecidos pelas empreiteiras interessadas, vide a ponte de Itaparica e o parque da Vila Brandão. A Sedham funciona como uma Defesa Civil, mais que um órgão de planejamento. As licitações são feitas em função do menor preço, ou seja, do pior projeto e menor tempo. O desperdiço é grande, viadutos são construídos e não servem para nada, as ruas são refeitas a cada inverno. O Pelourinho é recuperado todo o ano. Os conjuntos habitacionais, sem serviços, são novas favelas, estão se desfazendo. E vai-se implodir o parque olímpico da Fonte Nova, cujo laudo da Politécnica diz ser recuperável, para construir uma nova arena menor e um shopping, para dois dias de festa. O que acontecerá com a Copa, se chover, com a cidade alagada e parada como se viu há pouco.

As questões ambientais têm o mérito de nivelarem todos. Os condomínios fechados da Paralela foram invadidos por barbeiros, dengue, sapos, lagartos e cobras. O Sr. Prefeito teve que mudar de casa e gabinete, mas prefere trocar postes cinzas por azuis, que rever um PDDU aprovado com 180 emendas de ultima hora. A classe media já não suporta os engarrafamentos e se tranca em torres e condomínios mistos de vida monástica, com celas, refeitório, oficinas, botica e orações televisivas no mesmo lugar. Considerada Patrimônio da Humanidade, Salvador mergulha hoje na mediocridade imobiliária. Fernando Peixoto lamentou a “paulistização” da cidade, Arilda Cardoso denunciam a perda de patrimônio histórico e verde. Neilton Dórea constata: “hoje há uma arquitetura dependente… A maioria (dos arquitetos) é desenhador de uma vontade empresarial” (Muito, de 29/03/09).

Mas não devemos ser pessimistas. A sociedade civil se organiza em movimentos como “A Cidade também é Nossa” e “Vozes da Cidade”, os ministérios públicos, federal e estadual, assumem o papel que lhes cabe. Não é desmatando, segregando e verticalizando que se vai resolver os problemas de Salvador, senão pensando grande e democraticamente, compreendendo que Salvador só tem saída na Região Metropolitana. São estas questões que cidadãos, ricos e pobres, de Salvador querem discutir, antes que a cidade entre em colapso completo.

Publicado no Jornal A Tarde em 23/07/2009

Entre o Rio e lugar nenhum

poatualPaulo Ormindo de Azevedo
Para Marcelo e Flávia

Tenho um filho morando no Rio. Estive muitas vezes nessa cidade de passagem. Mas na ultima vez, com menos pressa, ajudei-o a encontrar um apartamento e me deixei seduzir pela cidade. Involuntariamente fiz paralelos com outras cidades em que vivi. Os monumentos do Rio não são as cúpulas das igrejas ou os torreões dos palácios de Roma, senão suas grandes rocas, o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Gávea. Nem a especulação imobiliária conseguiu modificar sua silhueta. Não perdeu também sua centralidade, como Salvador, ou foi transformada em um pacote turístico, como Cuzco.

As calçadas do seu centro estão cheias de funcionários, comerciários e transeuntes, que olham vitrines, entram em galerias e no final da tarde enchem as mesas dos calçadões e becos centrais curtindo a boemia dos encontros casuais, dos flerts e namoricos. Um modo de ser carioca que inspira cronistas e músicos há mais de um século, como Machado, João do Rio, Noel Rosa, Sergio Porto, Antonio Maria, Dolores…

Mas o Rio tem outros meandros e remansos. Como a sofisticada Ipanema e a Copacabana art-déco, onde desfila muita gente na praia durante o dia e no carpete de Burle Marx, á noite, bebericando e jantando em seus restaurantes ou simplesmente apascentando seus cães. Seus poetas são outros: Caymmi, João de Barros, Dick Farney, Lucio Alves, Drummond, Vinicius, Carlinhos Lyra, Menescal e Caetano que cantaram as garotas e meninos do Rio que gingam nas calçadas onduladas ou sobre o mar com a mesma graça.

Há também os morros romanceados por Orestes Barbosa, Herivelto Martins, Zé Keti e Agostinho dos Santos, onde se vivia pertinho do céu, antes que eles se transformassem na ante-sala do inferno de hoje. Não podemos negar a violência do Rio, que não é de hoje, a miséria das favelas e das periferias. Mas apesar disto, a cada ano seus passistas descem do morro e revivem por alguns minutos o esplendor da chegada da corte de Dom João VI ao Rio, para tudo acabar em cinzas na quarta feira.

Há ainda outro Rio que não foi cantado por ninguém, o da Urca, de Santa Tereza e do Jardim Botânico, quase provinciano, onde me projeto morando ali, talvez como fuga ao trabalho, aos encargos de família e à rotina em Salvador. Vi-me, de imediato, reformando algumas dessas casas para ele, já que não posso cortar amaras e ficar à deriva nesse Rio de tanta correnteza.

Esta é uma experiência diferente do projetar, do criar abstrato e asséptico. É o prazer de conversar com construtores e pedreiros que já morreram, reconstruir imagináveis vivencias de antigos moradores e modelar futuros prováveis. Reformar roupas velhas exige mais imaginação que cortar o tecido segundo o figurino de labirínticos debuxos. Mas tudo isto está condenado ao esquecimento.

Nossos filhos vivem hoje outra realidade, a do mundo desterritorializado, virtual e irracional que chamam pós-modernidade. Do estar em todos os lugares e não estar em nenhum. A geração de meu filho não tem garantia de emprego. Ele já foi mandado para Manaus e Fortaleza, hoje mora no Rio e por pouco não foi despachado para o Recife. As empresas para as quais eles trabalham podem despedi-los a qualquer momento e um novo emprego, se surgir, pode estar em Cuiabá ou Luanda. Entre o sonho de romper as amarras e o pesadelo de ter que vagar por dever de oficio, prefiro viajar e vivenciar outras cidades para voltar à minha terra. Mas quantos de nossos filhos podem fazer isto?

Desço do bondinho de Santa Tereza e pego um taxi. Vou conversando com a motorista. Ela me disse que a filha é casada com um belga e vive numa cidadezinha próxima de Londres, mas que fala com ela quando quer. Ela dormia no taxi, há uma semana, em frente a um hotel na Barra da Tijuca para pegar um professor muito cedo levá-lo a uma universidade e trazê-lo de volta à noite. Almoçava em qualquer boteco onde estivesse no meio-dia e afogava suas mágoas com um companheiro, talvez casado, nos motéis de São Conrado. Quando não tomava banho ali o fazia em uma sauna. Só vai para casa no final de semana, para lavar a roupa e molhar seus cacos. Perguntei se ela gostava dessa vida e ela responde: adoro, o que mais posso fazer?