Tecnologia e Literatura

refRuy Espinheira Filho

Frequentemente me perguntam o que acho do livro eletrônico, se o livro de papel vai desaparecer etc. O que me impressiona inicialmente é o entusiasmo pelo livro eletrônico em pessoas que nunca gostaram de livros. Quando dizem, os olhos brilhando, que num objeto daqueles podem caber centenas, talvez milhares de livros, quem sabe uma biblioteca inteira, a vontade que tenho é de lhes perguntar por que estão tão encantados, já que jamais leem livro algum. Quando no curso de Direito, conheci certos estudantes que não liam nada, mas apareciam sempre com livro novo sob o braço. Nós os apelidávamos “sovacos ilustrados”, pois toda aquela cultura estava ali, nos sovacos, não na cabeça – muito menos na alma – deles. No máximo, liam as “orelhas”, para o caso de alguém lhes perguntar sobre o conteúdo da obra ensovacada. Com a novidade eletrônica, acredito que muita gente comprará o livro e não irá além de sair exibindo aos basbaques a brilhante tecnologia de seus sovacos.

Por falar em livros: leio Escritores americanos em Paris (1944-1960), de Christopher Sawyer-Lauçanno, onde há boas histórias que mostram como era visto o escritor na França. A vida no pós-guerra era difícil, havia longas filas para se conseguir alguma coisa com os cupões de racionamento. Então, um dia, para espanto do americano que a acompanhava, Gertrude Stein foi a um açougue e, ignorando a fila, caminhou diretamente ao balcão. Começaram os protestos, aos quais o açougueiro respondeu, aos gritos, justificando o atendimento a Stein: “Ela é uma escritora!” E pronto – porque em Paris o tempo dos criadores era sagrado, não devia ser gasto em vulgaridades. Também certa vez o romancista americano negro James Baldwin foi parado pela polícia. Estava sem documentos, mas levava exemplar de romance que acabara de publicar e mostrou o retrato seu que havia no volume. Imediatamente a atitude hostil dos policiais desapareceu: “Ah, o senhor é escritor! O senhor pode ir.”

Coisas impensáveis entre nós, é claro, por mais tecnologicamente ilustrados que possam ser os sovacos…

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Ernesto e Osman

refRuy Espinheira Filho

A descoberta de Ernesto Sábato, morto há alguns dias, assim como a de Osman Lins (particularmente seu indispensável “Guerra sem testemunhas”), foi-me de grande ajuda no tão difícil e incompreendido ofício da literatura. Com eles percebi não estar sozinho no combate à fraude que, travestida de vanguardismo, assolou violentamente o país a partir de 1945, produzindo catadupas de neoconservadores e de falsos criadores de estéticas revolucionárias.

Percebi, com eles, que minha intuição, mais que a mera reflexão intelectual, estava no caminho certo, o que hoje está comprovado pelo quase vazio que restou da chamada Geração de 45 e das cinzas frias do que foi o furioso movimento concretista. Falei de intuição porque é ela o que mais de fato orienta o artista e gera sua obra – deixando em estado de perplexidade críticos e professores.

Com Osman aprendi que a literatura é, mesmo, uma profissão, porque profissão não é mera atividade para se ganhar o pão de cada dia. É muito mais: algo que se professa, seja no campo das artes, das ciências, do humanismo, o que for. No caso do escritor, que é o que me interessa aqui, ou ele é um profissional (ou seja: alguém que professa o ofício da literatura), ou não conseguirá realizar nada de importante.

Ambos, Osman e Sábato, são fonte de sabedoria. Na verdade, ambos se encontram e se complementam, com intensidade intelectual e paixão. Segundo Sábato, “a literatura não é um passatempo nem uma evasão, senão uma forma – talvez a mais completa e profunda – de examinar a condição humana.” O que significa ir bem mais alto do que aquilo que chamamos realidade, só tendo olhos para o óbvio, o pobre, pois a grande arte será sempre ligada às essências, ou seja, metafísica.

Enfim, indico aos interessados duas obras: a já citada do Osman e “O escritor e seus fantasmas”, de Sábato. Esta talvez encontrável em algum sebo; a outra, pelo que me dizem, é quase impossível, esgotada e não reeditada há décadas, pois não interessa a críticos, professores, maus autores e editores, que nela são tão questionados.

Editores e Escritores

refRuy Espinheira Filho

Certa vez foi feita uma experiência: solicitaram a alguns escritores famosos que permitissem que obras suas, inéditas, fossem enviadas a editoras sem suas célebres assinaturas. Foram 20 editoras – e todas recusaram as obras. Inclusive um livro de V.S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura. O que revelou o despreparo dos leitores das tais editoras, todas importantes, para julgar textos.

 

Trata-se, na verdade, de um despreparo universal. É claro que há exceções, editoras com leitores capazes, até mesmo escritores, mas no geral a tarefa é entregue a pessoas viciadas em modismos, sem real cultura literária, críticos de pequeno porte ou apenas gente saída de cursos de Letras. Aliás, o que menos há nos cursos de Letras é literatura, passa-se quase todo o tempo discutindo teorias e crítica, lendo-se apenas o que é chamado de “cânone”, ou seja, alguns autores consagrados, não se chegando quase nunca à literatura contemporânea. Ora, emitir opinião sobre os consagrados é fácil, qualquer idiota sabe que Machado e Drummond são grandes autores, mesmo jamais os tendo lido.

 

No caso de editores, há ainda uma grave inversão de valores: acham-se mais importantes do que os autores. Quase não há mais editores como o alemão Peter Suhrcamp. Dele, conta um dos seus auxiliares, Siegfried Unseld, que, estando em apreciação o texto de um novo autor, cuja aceitação ainda continuava pendente, alguém se ofereceu para conversar com ele, ao que Suhrcamp respondeu que não: ele mesmo falaria com o autor, com todo o cuidado e respeito, pois, acrescentou, todo autor, por mais jovem que fosse, superava em muito a eles, editores, por ser uma “personalidade criadora”.

 

Humildade, sensibilidade, lucidez: quanto destas virtudes ainda pode ser encontrado hoje em nosso meio editorial? E nas universidades? E no jornalismo dito cultural? Pelo que conheço, pouco, bem pouco. A falta de respeito chega ao ponto de um editor publicar um volume com “cem maneiras de se recusar um original”. Deve ter se divertido muito ao lançar tal livro. A estupidez também se diverte.

Três meninas e uma ciranda

refRuy Espinheira Filho

Para mim, que sou muito mais velho, são mesmo meninas. Três meninas envolvidas numa ciranda chamada poesia: Mônica Menezes, Ângela Vilma, Kátia Borges. Três poetas em três livros lançados este ano: de Mônica, Estranhamentos; de Ângela, Poemas para Antonio; de Kátia, Ticket zen. Os dois primeiros, pela P55 Edições, na coleção Cartas Bahianas; o terceiro, pela Escrituras.

Ler poesia é uma das experiências mais maravilhosas da vida ─ e também das piores. Porque, se nos eleva a alma quando de boa qualidade, quando ruim é uma abominação. E, infelizmente, o que mais encontramos é poesia ruim; porque, para não ser ruim, ela tem que ser boa, pois a que fica na faixa do mais-ou-menos, ou “razoável”, é também ruim.

Por isso a gratificação que senti ao ler os livros aqui citados. Mônica Meneses é o lirismo quase em estado puro, do princípio ao fim. Vamos lendo, lendo, e nos comovendo. E, de repente, deparamos com uma obra-prima de simplicidade e vigor lírico: “Sandália de tiras”: “trançar as tiras/atar os laços/vestir o véu/guardar o sonho/suster o abraço/ganhar o céu/voar bem alto/erguer no espaço/um carrossel”.

Achados admiráveis estão também, em vários momentos, na poesia de Ângela Vilma. Como no comovente “Meus sapatos brancos”, que se fecha com estes versos: “Tão sozinhos, após aquelas festas/Em que tu à minha espera serenava o mundo.//Agora que teu rosto desmente tudo/Só meus sapatos de menina ainda te buscam.” Ou como no fim de outro poema: ”Nada em mim rouba/A esperança dos sentidos/Que se resvalam de tua roupa/Para dentro de meus vestidos.”

Em Kátia Borges encontramos a afirmação de um forte caráter poético. Não há fraquezas, cansaços, jamais. Somos levados por ela a refletir sobre a condição humana, como quando lemos, por exemplo, “Lição”: “Contigo aprendi,/como no refrão de um bolero,/que todo amor é isso,/aquilo e aquilo outro/e, mais, as pérolas/que mastigam os porcos.”

E assim nos falam as três meninas da ciranda de poesia. Que os homens que escrevem poemas na Bahia tratem logo de ir pondo suas barbas de molho…

Os que podem ver mais alto

refRuy Espinheira Filho

Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura.

Dizia, entre outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma construção. Em outras palavras: ausente o espírito crítico, passa a valer tudo – inclusive as empulhações do nosso tempo, como a promoção da subliteratura, o horror musical, a infâmia generalizada na área das artes plásticas etc. E, dias depois, li um livro que me iluminou particularmente quanto a tais questões: A literatura e os deuses, de Roberto Calasso.

Como escrevi, a falta de crítica (portanto, de uma educação bem fundamentada) impede, entre outras coisas, uma clara visão da cultura e da arte. Ficamos meio cegos, incapazes de perceber seja o que for acima da mediocridade. E aqui entra o livro a que me referi, abordando episódio contado por Apolônio de Rodes sobre os argonautas.

Então eles, os heróis, chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer. Estenderam-se na praia para descansar – e eis que surge o deus Apolo: “Áureos cachos flutuavam, enquanto avançava; na mão esquerda segurava um arco de prata, às costas levava uma aljava; e, sob os seus pés, toda a ilha fremia, e as ondas se agigantavam na praia.” Quando o deus se vai, voando sobre o oceano, os heróis, por sugestão de Orfeu, consagram-lhe a ilha e oferecem-lhe um sacrifício.

Comenta Calasso: “Todos têm a mesma visão, todos sentem idêntico terror, todos colaboram na construção do santuário.

Mas o que ocorre se não existem argonautas, se não existem mais testemunhas de tal experiência?” Os heróis puderam ver Apolo porque tinham seus espíritos preparados para o que está além do terrestre e imediato. Apolo é o patrono das artes, o deus da inspiração, entre outras coisas. Em terra de gente que lê sem ler, que ouve sem ouvir, que vê sem ver, ele costuma permanecer invisível. Como no Brasil, cujos gestores e políticos promovem apenas o entretenimento vazio, relegando ao ostracismo a Educação e as Artes – temerosos de que o eleitor venha a ser um dia capaz de olhares altos e lúcidos como os dos argonautas…