As Viagens de St. Brendan — A Ilha Brasil (Waldir Freitas Oliveira)

Sabemos muito pouco, no Brasil, sobre a história da Irlanda. E mesmo nos dias atuais, levando-se em conta o progresso das comunicações, reconhecemos continuarem os nossos  conhecimentos sobre aquele país sendo escassos, pelo que, como resultado da precariedade dos registros disponíveis, poder soar aos nossos ouvidos com estranheza a notícia de ali haver vivido um São Brendan, que alguns historiadores insistem em “aportuguesar” para Brandão, tanto quanto a da existência de uma ilha chamada “Brasil”, situada em pleno oceano, a oeste daquele país, que teria sido por esse santo visitada em tempos anteriores aos das viagens de Colombo e Cabral, realizadas em 1492 e 1500.

São Brendan, também conhecido como St. Brendan, the Navigator, existiu de fato, havendo nascido, provavelmente, no último quartel do século V da Era Cristã, 484, na Irlanda, em Tralee, no condado de Kerry.

Tornou-se um clérigo merecedor de alto respeito pelos que com ele conviveram, tendo fundado em seu país vários mosteiros e viajado muito pelas terras e mares da Inglaterra, Irlanda, Escócia e País de Gales, havendo chegado às costas da Bretanha, no continente, onde passou a contar, para sua ação missionária, com um discípulo, de longa tradição até hoje na França — Saint Malo (Mac Law, em gaélico). Teria sido ainda abade no mosteiro de Clonfort, no País de Gales, localizado em Galway, situado, como tantos outros, à margem dos mares orientais irlandeses.Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014

Tendo um dia tomado a decisão de navegar na direção do oeste em busca da Terra Prometida dos Santos (Terra Repromissionis Sanctorum), da qual lhe teriam falado, preparou uma viagem, em companhia de catorze outros monges, para ir visitá-la. E navegou, então, realizando-a durante quarenta dias sobre o oceano.

Deixou-nos, felizmente, a descrição de uma das suas viagens, em um precioso documento, mais tarde intitulado Navigatio sancti Brendani abbatis, no qual mencionou, uma por uma, as ilhas por ele visitadas, entre as quais estaria, provavelmente, a de “Hy-Brasil” (devendo esclarecer-se que esse nome já era dado, havia muito, a uma ilha que nada tinha a ver com o Brasil “descoberto” em 1500 pelos portugueses, que desse modo passaram a denominar aquela “nova” terra, em razão de nela terem encontrado árvores das cascas das quais poderiam obter uma tintura vermelha, com cor semelhante a uma brasa de fogo), ainda que representasse a expressão Hy-Brasil, na narrativa de São Brendan, somente uma corruptela de O’Brasil, Isle of the Blest (Ilha da Bem-Aventurança), expressa em língua gaélica.1

Segundo nos informa Samuel Eliot Morison, ninguém cuidara, até quando escreveu ele a sua obra, de reconstituir-lhe a história. Mas acentua que a presença dessa ilha é constante na tradição oral dos irlandeses, herdada, por certo, dos celtas, sendo por eles considerada uma espécie de “campos elísios”, onde ficam as almas à espera do momento em que irão ingressar no reino dos céus, imaginando-a, pois, como uma ilha encantada, onde reinam a paz e a tranquilidade.

Acreditam, no entanto, que nenhum ser humano jamais haja posto nela os pés, existindo, porém, a tradição de que, se alguém chegar a dela aproximar-se a ponto de poder avistar as fogueiras acesas em suas praias, não será hostilizado. E um poeta irlandês, Gerald Griffin (1803 – 1840), escreveu sobre ela um poema que começa com os seguintes versos:

On the ocean that hollows the rocks where ye dwell,
A shadowy land has appeared, as they tell;
Men thought it a region of sunshine and rest,
And they called it Hy-Brasail, the isle of the blest.

E mesmo sendo essa ilha considerada um lugar sagrado, foram muitos os homens de altos negócios instalados em Bristol que se dispuseram a financiar viagens buscando encontrá-la, havendo figurado entre os navegadores que partiram à sua procura o famoso João Caboto, em viagem empreendida em direção ao oeste, realizada em 1497. Nunca, porém, a ilha de Hy-Brasil foi encontrada, sendo grande, no entanto, a literatura que a ela se refere, surgida no decurso dos séculos XIX e XX.

Buscando identificar os mapas e as cartas geográficas onde ela então apareceu, seguimos o texto de Samuel Eliot Morison e nele a encontramos, registrada essa sua presença em sequência cronológica, inicialmente na carta de Bartolomeo Pareto, desenhada em 1455 e reproduzida no Atlas de Kretschmer (1892), onde surge uma insula de Brazil, situada a oeste da península ibérica, em pleno Oceano Atlântico, localizada entre as ilhas de San Zorzo (São George), a de Ventura e a de Colombi (pombos), ao norte, e as de Capraria (bodes) e do Louo (lobo), ao sul, todas elas ali denominadas insulle fortunate sãct Brandawy.2

Essas ilhas de São Brendan figuraram também no primeiro globo terrestre, construído em 1492 pelo alemão Martin Behaim, nele aparecendo com o nome de Sand Branden, o que nos faz constatar o fato de haverem estado elas presentes nos mapas e cartas existentes antes da descoberta da América, ainda que hajam, a partir de então, neles aparecido cada vez com menor frequência, embora tenham ainda figurado no célebre mapa de Ortelius, desenhado no século XV.

Quanto à ilha Hy-Brasil, que, por sinal, nunca foi encontrada, começou a partir do século XVI a ser mencionada como situada cada vez mais a oeste, em relação ao ponto onde antes comumente figurara, e foi com a denominação de Brasil Rock que apareceu no Jeffrey´s American Atlas, editado em Londres, em 1776, nele localizada a 51º de latitude norte e 17º14´ de longitude oeste, acompanhada, porém, da advertência de ser uma ilha “imaginária”; e também na Memorie descriptive and explanatory of the North Atlantic Ocean, obra organizada por A. G. Findlay, publicada em 1853, nela tendo figurado como situada a 51º10´ de latitude norte e 16º de longitude oeste, afirmando, contudo, esse autor não haver sido ainda comprovada a sua existência e esclarecendo haver ali incluído a Brasil Rock tomando por base informações colhidas entre os integrantes da tripulação do navio Bristowe, que afirmaram havê-la avistado em viagem realizada no ano de 1791. Foram, porém, tão numerosas as dúvidas surgidas sobre existir ou não a referida ilha, que o próprio A. G. Findlay decidiu não mais apresentá-la na edição de 1865 do seu trabalho.3

Retornemos, então, à fonte de onde manaram as primeiras informações sobre essas misteriosas ilhas — o texto da Navigatio sancti Brendani abbatis —, dele constando haver o abade Brendan recebido, certo dia, a visita de outro abade, chamado Barynth, que lhe contou como o seu filho, de nome Mermoc, viajando na direção do oeste, descobrira uma “deliciosa ilha”, habitada por monges, a que chamou de Terra Promissiones Sanctorum, havendo a seguir o levado até lá para que a conhecesse, tendo afinal convencido Brendan a também ir até aquela ilha em companhia de outros monges.

Tratou então Brendan de escolher quatorze ou quinze companheiros para acompanhá-lo nessa viagem. Eles começaram a construir o barco que até lá os levaria, estando pronta a embarcação ao fim de quarenta dias, com o seu casco feito com varas de vime unidas umas às outras de forma muito justa e revestido, a seguir, “com couro de vaca curtido com óleo vegetal e com suas frestas tomadas com alcatrão”, nele tendo sido colocadas “provisões para quarenta dias de viagem e gordura suficiente tanto para untar o couro do casco, como para a proteção, contra o sol, dos monges e dos objetos que iriam ser por eles utilizados durante a viagem”.4

Samuel Eliot Morison afirma ser muito boa a descrição,               feita nesse texto, de um determinado tipo de barco de pequeno      tamanho, usado ainda em nossos dias pelos pescadores irlandeses,     por eles chamado curragh, havendo sido essa embarcação,  provavelmente, uma invenção dos celtas, assinalando ser o seu             casco coberto por couro e não sendo, portanto, inteiramente construído em madeira, em razão de não ser abundante a madeira      na Irlanda e de ali existirem, à epoca da referida viagem, rebanhos numerosos de bovinos. Informa, concluindo o seu comentário, ser o curragh uma embarcação segura, mesmo tendo de enfrentar mares bravios.

Da narrativa de St. Brendan consta, ainda, que dezoito monges (três ou quatro além dos inicialmente previstos) nele partiram na direção do poente e que, após quarenta dias de viagem, quando as provisões já estavam a findar-se, avistaram uma ilha rochosa, com montes cujas encostas mergulhavam, abruptamente, no mar em torno, onde não encontraram lugar seguro para ancorar seu barco; e que, enquanto os monges entravam, por isso, em desespero, Brendan lhes assegurou que o Senhor Deus Todo Poderoso lhes mostraria, em três dias, o ponto onde poderiam aportar, o que, de fato, veio a acontecer. E quando afinal o encontraram, logo depois de ali terem chegado e desembarcado, lhes apareceu um cão que se pôs a festejá-los. Pelo que os monges decidiram segui-lo, agradecendo ao Senhor Deus Todo Poderoso por havê-lo enviado.

O cão então os conduziu para uma cidade (town), onde o principal edifício era um grande castelo, tendo as paredes dos seus salões cobertas por objetos fabricados com metais variados, entre eles aparecendo arreios e trompas com engastes de prata, ali havendo sido preparada e servida aos monges uma farta refeição, com pães e peixes para todos eles.

Um dos monges, contudo, um dos que haviam pedido a Brendan, na hora da partida, que os levasse em sua viagem, roubou um dos arreios de prata presos às paredes. E Brendan viu surgir à sua frente, quando todos dormiam, um demônio, que assumiu a forma de um anão negro, mostrando nas mãos os arreios roubados e apontando na direção de quem os furtara, havendo, a seguir, Brendan os retirado do capuz onde o monge ladrão os escondera. Mas, tendo o monge, na manhã seguinte, ao ver que seu roubo havia sido descoberto, lhe implorado perdão, Brendan absolveu-o. Então o demônio voltou a aparecer-lhe, dirigindo-lhe ásperas palavras e demonstrando sua insatisfação pela absolvição que ele concedera, o que o impedia de levar a alma do monge ladrão para o inferno. E aconteceu que, naquela mesma noite, morreu o monge que furtara os arreios de prata, havendo a sua alma sido conduzida por anjos para o paraíso.

Continuaram os monges visitantes a explorar a ilha, havendo nela encontrado um jovem que carregava grandes cestos com pães e uma ânfora com água para servir os viajantes, que ali permaneceram por vários dias, sendo sempre bem tratados pelo responsável pelos negócios do mosteiro, que passou a lhes fornecer os alimentos necessários à sobrevivência.

Dessa primeira ilha seguiram dois dias depois para outra, que denominaram “Ilha dos Carneiros”, onde comemoraram a Páscoa, dela havendo passado para outra, que chamaram de “Paraíso dos Pássaros”, onde as aves por eles encontradas falavam e cantavam em latim, dela tendo eles partido em uma nova viagem, que durou três meses, durante a qual somente viram céu e mar, chegando então à “Ilha dos Frutos”, que era povoada por grifos e gigantes, donde seguiram para a “Ilha da Abadia da Eterna Juventude e do Silêncio”, onde se demoraram por alguns dias.

Foram muitas, portanto, as ilhas por eles visitadas. E numa delas Brendan e seus companheiros encontraram um homem fortememente amarrado a um rochedo, com o seu corpo a ser atingido de modo incessante pelas ondas do mar em fúria. E, quando os monges lhe perguntaram quem ele era, ele lhes respondeu ser Judas, “o mais depravado de todos os criminosos”, e reconheceu merecer o castigo que lhe estava sendo aplicado. Mas Brendan pediu, então, ao Senhor Deus Todo Poderoso que libertasse aquele homem durante um único dia, sendo por Ele atendido, suscitando essa curta suspensão da pena que fora imposta ao homem a fúria dos demônios que o guardavam.

Muito tempo ainda estiveram os monges a navegar naqueles mares e entre aquelas ilhas, havendo eles chegado finalmente à Terra Repromissionis Sanctorum, à Terra da Promissão dos Santos, repleta de árvores frutíferas, nela havendo permanecido durante três dias, que se sucediam sem que fossem separados por noites. E antes de regressar à Irlanda visitaram, ainda, a “Ilha das Delícias”, onde vivia Mermoc, o filho do abade Barynth.

Não surge contado do mesmo modo, nas várias descrições existentes desssas viagens, no que se refere à sua duração, o tempo que os monges gastaram em cada uma dessas ilhas, variando ele em cada uma das versões consultadas, registrando-se o fato de serem elas numerosas, e ainda o fato de nem sempre surgirem idênticas as narrativas sobre o que nelas viram os viajantes.

A narrativa termina, contudo, em todas elas, de modo repentino, informando o regresso de Brendan e seus companheiros ao seu mosteiro, na Irlanda, havendo então os monges agradecido ao Senhor Deus Todo Poderoso o feliz retorno dessa sua longa viagem. E em certa versão da Navigatio encontra-se a informação de a morte de Brendan haver ocorrido em 577 ou 583 A. D., havendo sido ele, após o seu falecimento, canonizado, passando a figurar entre os santos irlandeses, em quarto lugar quanto à hierarquia, no culto e na aceitação, somente ficando abaixo de St. Patrick, Santa Brígida e São Columba.

Sendo este um rápido resumo de uma das viagens de St. Brendan, contendo a sua narrativa as descrições das numerosas passagens com as cenas de encontro dos monges com animais fantásticos que tentaram devorá-los, de todos eles havendo os monges escapado graças à ajuda que lhes deu, de modo permanente durante a viagem, o Senhor Deus Todo Poderoso.

Perguntamos, então, o que haverá de verdade nesse longo relato de uma viagem fantástica, sem que tenhamos resposta adequada para a nossa pergunta. E aqui realçamos o fato de haver essa narrativa se tornado na Irlanda tão conhecida e relembrada quanto as que contam as aventuras do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda na Inglaterra; e o de essas ilhas, que ficaram ali conhecidas como Insulae Sancti Brendani, possuírem, sem dúvida, na memória popular dos irlandeses, uma existência “real”.

***

Vários autores já comentaram a narrativa dessa viagem mágica, e dentre os que o fizeram, em anos relativamente recentes, deverá destacar-se, pela excelência do seu trabalho, Carl Selmer, que analisou 17 manuscritos distintos, traduziu-os, após longo estudo comparativo, do latim para o inglês e propiciou-nos, em obra hoje rara, o conhecimento de um texto que é por muitos considerado o melhor trabalho já efetuado sobre o tema.5

Sem que tivéssemos, contudo, obtido acesso a tal publicação, limitamo-nos, graças à prodigiosa ajuda da internet, à leitura da tradução do texto da narrativa, efetuada em 1893 por Denis O’Donoghue, em edição patrocinada pelo arcebispo P. F. Moran e divulgada por The Celtic Christianity e-Library; bem como à consulta a uma recente edição crítica de excepcional valor sobre essa narrativa, organizada sob a direção de Glyn Burgess, professor da Universidade de Liverpool6; e, finalmente, à leitura dos comentários feitos por Guillermo Giucci em seu livro Viajantes do maravilhoso acerca do que foi escrito por Carl Selmer, entre os quais realçamos a sua afirmativa de haver Carl Selmer destacado, na introduction por ele escrita para a Navigatio, “a importância de dois tópicos do relato hagiográfico que estruturariam a forma da narrativa, o primeiro tendo a ver com a busca da terra prometida, o segundo, com a visão do paraíso”7. Havendo comentado, logo adiante, e acentuado com propriedade que “revelação, prodígio e experiência pessoal fundem-se na Navigatio”. E mais ainda que

[…] a fusão destes elementos transforma a narração da
viagem num testemunho alegórico da mediação divina, e
esta mediação diminui a problemática do sofrimento dos
santos em seu caminho rumo ao páraíso, pois que a insere
no itinerário da vitória da fé sobre os obstáculos naturais.8

Dessa maneira, segundo afirma, nela torna-se Deus “o leme da nau”. Sendo Ele, portanto, quem “sopra as velas e inevitavelmente guia o peregrino à meta desejada”.

Prossegue, afirmando que “a visão do paraíso que coroa o quadro das maravilhas do recôndito se inscreve no texto como o elemento consolidador, por excelência, do maravilhoso hagiográfico”. E, reforçando essa sua ideia, acrescenta:

Engastadas na enorme muralha que protege o acesso à terra prometida, refulgem pedras preciosas, crisólitos como gotas de ouro, topázios amarelos, jaspes com ametistas, ônix, ágatas e esmeraldas. E se a muralha deslumbra com suas riquezas, dentro do recinto murado as maravilhas são indescritíveis. Bosques floridos, rios de leite, frutas perfumadas, montanhas de ouro, pedras preciosas; a visão paradisíaca recapitula, com suas imagens de abundância, valor, disponibilidade e utilidade, as virtudes de regiões extraordinárias que parecem existir à espera do viajante europeu.9

Conclui, então, que, na narrativa de São Brendan, “o maravilhoso transforma-se em intocável, num artifício dos deuses, numa fabricação lúdica de cuja estrutura não se pode retirar mais que um tijolo minúsculo sem evitar seu desmoronamento completo”.10

Levando-se agora em conta o que escreveram sobre a “ilha Brasil” autores brasileiros, iremos referir-nos, assinalando sua condição de pioneiro, a Capistrano de Abreu, quando informou haver sido de uso comum o nome Brasil em tempos anteriores à viagem do “descobrimento” de Cabral, quando, em 1907, afirmou, em Capítulos de história colonial (1500-1800), que

 […] o nome do Brasil já era bem conhecido e figurado em portulanos anteriores às descobertas dos portugueses; havia um nome à procura de aplicação, exatamente como o de Antilha, e isto explicaria a rapidez com que se introduziu e vulgarizou, suplantando outras denominações, como Terra dos Papagaios, Vera Cruz, ou Santa Cruz, se a abundância de uma apreciada madeira de tinturaria até então recebida por via do Levante, e o comércio sobre ela fundado desde o começo, não colaborassem na propaganda, e talvez com maior eficácia.11

Anos depois, o jornalista e historiador Francisco de Assis Cintra publicou, em 1921, em edição da Companhia Melhoramentos de São Paulo, o livro Nossa primeira história (a de Gandavo) e, no capítulo inicial desse seu trabalho, intitulado “O precursor de Cabral”, buscando identificar a “ilha” descoberta por Pedro Álvares Cabral com a “ilha Brasil” presente na tradição oral irlandesa, criou a figura de Sancho Brandão, que teria integrado a armada do rei de Portugal Afonso IV, que reinou de 1325 a 1357, havendo descoberto o Brasil antes, portanto, de Cabral, tendo, ao regressar a Portugal, oferecido a ilha que “achara” à coroa portuguesa, passando ela a ser conhecida, desde então, como “ilha do Brasil” ou “ilha de Brandão”.

Revelando-se esse autor, com sua afirmativa, bem mais um ficcionista que um historiador, por não haver sido comprovada, em qualquer tempo, a existência desse Sancho Brandão, nem ter sido registrado qualquer descobrimento no Oceano Atlântico durante o reinado de Afonso IV, estando ele a apoiar-se, em defesa de sua afirmativa, em carta enviada ao papa Clemente VI por esse rei português, a 12 de fevereiro de 1343, na qual, em sinal de protesto por haver o pontífice reconhecido as chamadas “Ilhas Afortunadas” (as atuais Ilhas Canárias) como pertencentes ao Reino de Castela, alegava terem sido “os nossos naturais os primeiros que acharam as mencionadas ilhas ocidentais”, ilhas, aliás, onde teriam chegado, em data muito antiga, porém incerta, os cartagineses, mas que somente acabaram sendo efetivamente ocupadas por europeus em 1402, quando da viagem feita pelos normandos Jean de Béthencourt e Gadifer de la Salle, navegando a serviço da Espanha.12

Muitos anos depois, em 1942, após haver publicado, em 1930, Aquém da Atlântida, no qual se referiu a esse assunto, Gustavo Barroso (1888 – 1959) abordou de modo decisivo esse tema em seu livro O Brasil na lenda e na cartografia antiga, livro que contou com uma segunda edição em 2000, sendo essa uma obra na qual demonstrou possuir uma vasta erudição, muito havendo informado sobre as “ilhas de São Brandão”, tomando por base ampla bibliografia, sem cometer os enganos de Assis Cintra, havendo insistido, ao final do seu texto, em relacionar o nome “Brasil” ao termo gaélico brasil, este com a significação de bless (bem-aventurança), afirmando, afinal, que, “em face da documentação apresentada, é impossível deixar de reconhecer que a palavra brasil foi, antes de tudo, aplicada para denominar uma ilha do Oceano Atlântico, tendo sido utilizada, no dizer de Latino Coelho, para designar “regiões geograficamente desconhecidas ou figuradas ao sabor da fantasia dos cartógrafos”13. Havendo acrescentado que “as origens e o processo de formação do nome Brasil não podem ser outros”, indo a seguir comentar, a respeito da expressão,

[…] não haver quem não prefira que o apelido do seu torrão natal signifique “terra abençoada”, “terra dos afortunados”, “terra dos bem-aventurados”, of the blest, do que recorde tão somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta, exercido, nos primeiros tempos da conquista, não por portugueses idealistas que a realizaram, mas pelos cristãos-novos Loronhas e Bixordas, que tiravam real proveito da sua audácia, colhendo tranquilamente os frutos do seu destemor.14

Vale, então, o registro feito aqui, com justiça, da qualidade do verbete constante do Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), editado em 2000, organizado por Ronaldo Vainfas, no qual conseguiu esse historiador resumir, de modo perfeito, tudo o que se conhece a respeito do assunto, relembrando o que antes dissera a respeito Capistrano de Abreu e citando, com propriedade, o historiador português Jaime Cortesão, quando sugeriu haver a ideia de uma “ilha Brasil” ter sido concebida pelos portugueses sob a forma de um “mito geopolítico”.15

Havendo assumido recentemente a mesma posição proposta por Latino Coelho, Capistrano de Abreu e Jaime Cortesão, referendada, como informamos, por Ronaldo Vainfas, a historiadora Laura de Melo Souza, em artigo publicado em Nossa História sob o título “O nome do Brasil”, quando afirmou que, “entre 1351 e 1500, os mapas europeus mostram o nome ‘Brasil’, bem como variantes dele — Bracir, Bracil, Brazille, Bersil, Braxili, Bruxil, Bresilge —, designando, em lugares diferentes, uma ilha ou até três, expressando um horizonte geográfico ainda mítico, como o das Ilhas Afortunadas e tantas outras miragens que a prática navegadora e a experiência acabariam por dissipar”. Donde haver ela concluído que “primeiro houve o nome, depois o lugar que foi nomeado”.16

Naquele mesmo ano de 2004, foi publicado no Rio de Janeiro o livro do jornalista Geraldo Cantarino Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro17, devendo-se a seu respeito registrar haver ele recebido severas críticas de vários historiadores brasileiros, que nele apontaram graves erros de expressão  e interpretação dos fatos narrados, figurando entre os que mais o criticaram a professora doutora Luciana de Campos, da Unesp de São José do Rio Preto, São Paulo, integrante do Grupo de Estudos Celtas e Germânicos daquela universidade, que divulgou sua opinião a respeito desse livro em artigo na internet sob o título “As raízes celtas do Brasil”, nele havendo reprovado o autor não apenas por haver usado impropriamente uma “linguagem extremamente coloquial”, como por não haver dado ao seu texto uma “seriedade documental” e, ainda mais, por ter ele insistido em transformar seu livro em claro “apelo esotérico e fantasioso”. E ela declarou, afinal, de modo impiedoso, “esperar que os estudantes universitários que ora iniciam suas pesquisas nos estudos celtas [que segundo alguns somente poucos escolhidos merecem realizá-los, o que, a nosso ver, é um erro] não se inspirem nessa obra e, muito menos, a tomem como referência”.18

Quanto a nós, aceitamos o livro de Geraldo Cantarino como sendo uma contribuição válida para a abordagem do seu tema específico: o da origem do nome Brasil. Apesar de reconhecermos terem sido justas as críticas que lhe foram feitas, especialmente quando não evitou deixar-se conduzir por hipóteses fantasiosas, chegando mesmo a admitir uma suposta presença, em tempo ignorado, dos fenícios em terras do Brasil, e por não possuir o autor uma formação de historiador, não havendo apresentado sua argumentação enquadrada nos rigorosos moldes cuja utilização se tornou costume exigir-se desses profissionais, consideramos que Uma ilha chamada Brasil concorreu para que um assunto pouco tratado na área da historiografia brasileira voltasse a ser discutido como antes o fora, nos inícios do século passado, sendo louvável o esforço realizado pelo seu autor para reunir e apresentar aos seus leitores uma vasta e oportuna bibliografia a respeito do assunto por ele tratado. Não havendo, portanto, a nosso ver, as críticas feitas ao seu livro se mostrado capazes de invalidar a importância da sua publicação, tendo ele merecido, pouco depois do seu lançamento, ser citado como referência pela prestigiosa Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano II, n. 15, dezembro 2006), em apoio ao texto nela publicado sob o título “Todos os nomes do Brasil”, de autoria de José Murilo de Carvalho. Merecendo, ainda, Geraldo Cantarino os nossos aplausos por haver tentado retirar do esquecimento a figura do irlandês Roger Casement, cujo nome e atuação em seu tempo a singularizaram, tornando-o, inclusive, em tempos de agora, personagem central de um dos mais recentes romances do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, El sueño del celta (Buenos Aires: Alfaguara, 2010).

E voltando a falar de São Brendan, assinalemos que a maioria dos historiadores modernos admite existir na lenda de sua viagem um fundo de verdade, ainda que não exista a possibilidade de descobrir-se a real identidade dessa “Terra Prometida” ou dessa “Ilha de São Brendan”, como a chamavam os historiadores medievais, alguns aceitando a ideia de a figura de São Brendan haver sido formada com base nas descrições de várias viagens realizadas por pessoas diversas, em épocas várias, desse modo explicando-se a longa duração daquela que foi descrita na Navigatio com tantos preciosos detalhes, enriquecendo, sobremodo, a literatura frequente nos tempos medievais sobre ilhas imaginárias que se achavam perdidas no oceano, impossíveis, dada a sua condição de ideia pura, de vir a ser encontradas.

REFERÊNCIAS E NOTAS

1 MORISON, Samuel Eliot. The european discovery of America: the northern voyages. A. D. 500-1600. New York: Oxford University Press, 1971, p. 103.

2 Idem.

3 Ibidem, p. 104.

4 Navigatio sancti Brendani abbatis. Trad. (para o inglês) de Denis O’Donoghue. In: Brendaniana. Archbishop P. F. Moran, 1893.

5 SELMER, Carl. Navigatio sancti Brendani abbatis from early latin manuscripts. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 1959. (Medieval Studies, XVI).

6 BURGESS, Glyn. The voyage of saint Brendan: representative versions of the legend in english translation, with indexes of themes and motifs from the stories. Exeter: University of Exeter Press, 2005.

7 GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 36.

8 Ibidem, p. 37

9 Ibidem, p. 37-38.

10 Idem.

11 ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 4. ed. Rio de Janeiro: Livraria Briguiet, 1954, p. 78.

12 ASSIS CINTRA. Nossa primeira história. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1922.

13 COELHO, Latino. Vasco da Gama. Porto: 1882.

14 BARROSO, Gustavo. O Brasil na lenda e na cartografia antiga. 2. ed. São Paulo: Edições GRD, 2000, p. 149-153.

15 VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

16 SOUZA, Laura de Melo. “O nome do Brasil”. In: Nossa História. Rio de Janeiro, ano I, n. 6, 2004.

17 CANTARINO, Geraldo. Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

18 CAMPOS, Luciana de. “As raízes celtas do Brasil”. Disponível in: www.brathair.com.*

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Waldir Freitas Oliveira é historiador, ensaísta e conferencista, professor da Universidade Federal da Bahia, com vários artigos e livros publicados. Dirigiu diversas instituições, como o Conselho de Cultura do Estado da Bahia e o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. É sócio remido do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Desde 1987 ocupa a Cadeira nº 18 da ALB. Palestra proferida em sessão extraordinária da Academia de Letras da Bahia, na Sala Pedro Calmon, em cinco de dezembro de 2013.

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Ausência de Lúcio Cardoso

wfoWaldir Freitas Oliveira

Em setembro de 1998, completaram-se 40 anos desde a morte de Lúcio Cardoso. Nesse ano de 2011, completar-se-ão 99.  Tal registro dirá, contudo, muito pouco à maior parte dos leitores da atual geração, para os quais o escritor mineiro continua sendo um ilustre desconhecido.

Pouco importa que seu principal romance – Crônica da Casa Assassinada, haja tido o privilégio de merecer, no país, seis edições, duas delas de caráter especial, assumindo o papel de edições críticas.  Nem o fato de haver sido ele, no Brasil, o primeiro tradutor dos poemas de Emily Brontë, somente lembrada entre nós, infelizmente, como a autora de O Morro dos Ventos Uivantes. Nem o de haver ele também traduzido o Livro de Job, um dos mais belos textos do Antigo Testamento, publicado, no Rio de Janeiro, em edição esmerada, tanto ele como O Vento da Noite, o título que deu ao livro de poemas da escritora inglesa, nos anos 40, pela José Olympio, que os incluiu na sua coleção Rubaiyat.

Lúcio Cardoso se apresenta, no contexto da literatura brasileira, como um caso singular – o de haver sido um autor intimista, um escritor que preferiu penetrar na alma humana, disposto a desvendar-lhe os conflitos e os mistérios, que pervagar pelos caminhos concretos da realidade, enquadrando-se nas regras cumpridas pela  maior parte dos ficcionistas seus contemporâneos, como  foram Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e outros mais.

Sem a ironia fria e concisa de Machado de Assis ou o trágico calor de Clarice Lispector, sua linguagem surge, então, ambígua e amarga, expressando toda a angústia que o dominava – a de um crente a viver entre descrentes, singular, em meio a uma coletividade que primava pela coerência exaustiva de falas e atitudes, desolado e sofrendo por  sua solidão, um  místico em busca desesperada por um Deus que insistia em não mostrar-se  por inteiro frente aos seus olhos,  tendo, ainda mais,  sido  atingido, fisicamente, por  doença que o  vitimou em  metade do seu corpo, lúcido, contudo, frente ao sofrimento, mas  sem se deixar por ele abater, sempre mantendo, como frisou Walmir Ayala – “acima de tudo, o desejo de não sucumbir”.

Clarice Lispector, sua grande amiga, que foi talvez a pessoa a quem mais ele amou na vida,  o denominou, em crônica de saudade, um “corcel de fogo (…) sem limite para o seu galope”. Por sua vez, disse ele sobre ela, em seu Diário, que se devorava a si mesma enquanto escrevia. Afirmou, então, que “Clarice não delata, não conta, não narra e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido em sua essência inesperada”. E tentando defini-la em sua singularidade, muito próxima, por sinal, da sua própria, afirmou – “ela arde”; e acrescentou – “o que nela queima é nostalgia do que não é – o homem”. E ainda mais:

“Seus livros são muros que circundam perpetuamente uma cidade indefesa – de fora assistimos ao resplendor da sua cólera. Mas nesse mundo, o romancista não penetra: a cidade de Clarice, como essa maçã que brilha melhor se fôr no escuro, ela arde sozinha: dentro dela não há ninguém”.

De si mesmo, ao concluir o seu Diário, disse possuir, envolto em sua inquietação:“Aquela mesma angústia fria, aquela dor sem doer que se espalha pelo corpo inteiro. Arrumo, desarrumo, faço, e refaço. Ah, como é difícil ser calmo. Encho-me de remédios, vou à janela: é a noite dos homens, a minha noite. Ruídos de carros que passam na escuridão. Rádios abertos. Vultos que transitam em apartamentos acesos. E eu, e eu?  Onde vou, que faço?

Ouço a voz de Cornélio Pires – naquele tempo – ´o seu sofrimento é um sofrimento bom, de permanecer à margem`. Não. Não existe, Cornélio, pior sofrimento do que permanecer à margem. Não tenho temperamento para isto. Quero amar, viajar, esquecer – quero terrivelmente a vida, porque não creio que exista nada de mais belo e nem de mais terrível do que a vida. E aqui estou:  tudo o que amo não me ouve mais, e eu passo com a minha lenda, forte sem o ser, príncipe, mas esfarrapado”.

Por duas vezes, ao menos, como constatei ao ler o seu Diário, esteve na Bahia. Numa delas, Humberto Alencar, seu amigo, o levara, à noite, à praia que era, então, tão somente o bairro da  Pituba. Ali se deitou, de costas, na areia,  tendo o céu a cobri-lo.

“Praia em que, uma noite em que já não sei mais – igual,  em si, a tantas noites de febre e inquietação, me deitei na areia, com o vasto céu do Brasil por cima de mim – um céu tão calmo, tão indiferente das ânsias que me dominavam…

Pituba. Repito o nome baixinho, uma, duas vezes, esperando que o encanto se renove. E pergunto a mim mesmo: o que sinto agora é diferente daquela época? É a mesma coisa, sinto-me continuamente fiel aos meus fantasmas. Vi outras praias, algumas mais belas, outras mais sujas, mas todas com essa respiração cheirando a sangue que vem do mar. Lembro porém,  que nunca, nunca fui tão só nem tão desgraçado, como na praia da Pituba”.

Numa outra vez, ao visitar o Convento do Carmo, deixou assombrar-se frente a “um enorme Cristo em tamanho natural, deitado sob um dos seus altares”. Disse, então ser ela – “uma imagem aterrorizante, quase negra de tão massacrada, com os joelhos esfacelados e em sangue, o rosto violáceo”.  Sua obsessão pelo sofrimento, suas reflexões sobre a Paixão de Cristo, seu apego à visão de um Cristo doloroso, então,   se reavivaram e dele fizeram um grande  sofredor, enquanto olhava  aquela imagem que estava a  marcar  sua presença na Bahia.

Quarenta anos depois da sua morte, procurei, sem resultado, romances de Lúcio Cardoso nas livrarias baianas. Eles delas já se ausentaram. Como talvez da memória dos que, um dia, os leram ou nunca fizeram parte da dos que somente ouviram falar, algum dia, da existência de um atormentado escritor mineiro que enchia de sombras os horizontes e inquietava, com seus pensamentos, o mundo dos seus leitores. Quarenta e três anos se completarão, em setembro de 1911, sem a presença de Lúcio Cardoso. Ele nos faz muita  falta.

Ao alcance distante dos meus olhos

wfoWaldir Freitas Oliveira

Je me souviens…  eu estava de pé, sobre o rochedo, com o mar a estender-se sem fim, até o horizonte, e abaixo, aos pés da rocha, ao alcance, embora distante, dos meus braços, agitado  em vagas que fortes se atiravam, levadas pelo ímpeto dos ventos, contra o dorso do penhasco. Era um mar profundamente azul e com águas revoltas que se elevavam e se tornavam enormes, parecendo quererem escalar a rocha onde eu estava; e quando a alcançavam se transformavam, após o baque ruidoso, em magníficas nuvens de espumas.

Já o vira assim muitas vezes; tantos haviam sido os instantes em que ali estivera, em claras manhãs, ou em sombrios finais de tarde, ou em noites com a luz da lua a compor o quadro fantástico do oceano em fúria, abaixo dos meus pés, muito em baixo.

Gostava de vê-lo assim. Ele enchia então meus olhos de beleza, meus ouvidos, de cantos encantados, e eu estendia para frente os meus braços, desejando abraçá-lo. Embora tivesse medo de vir a perder-me entre as suas águas.

Certa vez eu o vi transformar-se num gigante, com sua cabeça coberta por algas verdes e com, braços que tentavam alcançar-me e castigar-me: − o farol era cercado por pedras escuras e enormes, sobre as quais fora um dia erguido por homens do passado. Amontoadas formavam uma imensa platéia, na qual apareciam, vez por outra, lugares que permitiam neles aconchegar-se os que, deles, sozinhos, quisessem deslumbrar-se com a paisagem; ou amantes em busca de um refugio seguro, distante de olhares curiosos, para se beijarem e se abraçarem.

Nem deles estive, uma vez, com Cacilda. Se havia frio nos ventos, queimava os nossos corpos, um calor de fogo. E os nossos lábios se uniam, se esmagavam; nossas bocas se abriam e eram penetradas; e era como se quiséssemos devorar-nos em fome insaciável de amor.  E as minhas mãos apertavam os seus seios; e ela arqueava o corpo, cada vez mais se unindo ao meu, e me pedia, quase em desespero, que eu a penetrasse.

Ouvimos, então, um grito forte e rouco a erguer-se do oceano.  Dele se elevava um rosto com a raiva estampada em seus traços, com olhos lançando raios e mãos com múltiplos dedos que se assemelhavam a garras gigantescas;e o seu dorso alçou-se acima das ondas e pude vê-lo, forte e musculoso, numa aparição fantástica, quando uma onda imensa se quebrou quase aos pés do lugar onde estávamos.

Só então percebi que o ciúme o empolgara; que se excitara, ao ver, de longe, os nossos abraços; e desejara também beijar Cacilda, do mesmo modo como eu a beijava, pretendendo castigar-me pela ousadia de macho e levá-la em seus braços para um leito de areia, no fundo das águas.

Numa outra vez, vi o mar furioso: eu havia construído, em um barranco perto do ponto onde ele costumava chegar, um banco, com tábuas que encontrara, soltas na praia, restos talvez de barcos naufragados. Nele sentávamos, eu e Regina, todas as tardes, a fim de assistir  s lenta chegada da maré de enchente e o também vagaroso escoar das águas da maré de  vazante.

Num mês de março, porém, essas águas avançaram demais. Com um furor imenso, elas se lançaram sobre a costa e destruiram o banco que eu havia ali erguido para vê-las e admirá-las. Não sei se os deuses que as habitam se sentem frustrados com sua condição de sombras sem bocas e braços de verdade; se sofrem não sendo humanos e por desejarem agir como homens; nem se as suas deusas desejariam também ser possuídas, ter os seus corpos etéreos tornados realidade a permitirem que sejam beijados, abraçados e afinal penetrados de verdade. Não sei se são os homens que invejam os deuses; ou se são os deuses que invejam os homens.

Da espécie de cais que havíamos construído, somente haviam restado as pedras sobre as quais fixamos o nosso banco, espalhadas, agora, sobre a areia da praia. E Zeferino, um velho pescador da ilha, ao ver-nos desolados pelo estrago causado pelo mar, aconselhou-nos a construir outro banco, dessa vez mais distante terra a dentro, nos dizendo – “olha bem, doutor, tenha cuidado; o que a maré de março não leva, a de setembro vem buscar! ” Não construímos, porém,  outro banco.  Preferimos, desde então, ir olhar o mar, quando tivéssemos vontade, sentados na areia da praia, em pontos onde as águas das marés nunca haviam chegado.

Agora eu estava, de pé, sobre a rocha, vendo as ondas se desfazerem em espumas sobre o dorso da rocha. A única praia que existia por perto, ficava a cerca de 100 metros de distância. Para alcançá-la, se me atirasse às águas, teria que vencê-la a nado. E sabia que era um mau nadador. Não havia, contudo, qualquer possibilidade de daquelas águas agitadas alguém, regressar à terra, senão buscando aquela praia. Seria impossível aproximar-se dos rochedos sobre os quais as vagas se despedaçavam sem que o corpo de quem tentasse também fosse também feito em pedaços.

Sempre invejara os bons nadadores, aqueles que com braços fortes e corpos lépidos varavam as ondas e pelo mar se iam até lugares distantes onde bem quisessem ir e eu sempre desejei chegar, vencendo o mar. Afugentei, então, de mim, o medo. E me atirei, do alto do rochedo, nas águas embaixo.

Desci até o fundo, no mergulho ousado. E quando voltei à tona, reconheci o perigo que estava correndo, mas que me dispusera a enfrentar. Havia uma única possibilidade de sobreviver – nadar até a praia. Foi o que comecei a fazer.

A correnteza junto à costa era forte e tornava-se necessário empregar mais esforço para vencê-la, que o por mim esperado. E nadei, então; para fora, o quanto pude, para dela escapar. Meus braços, porém, cansaram. Deixei, então, que o meu corpo boiasse sobre as águas E ao sentir-me mais forte, recomecei a nadar na direção da praia.

Passaram-se horas desde o instane em que me atirei do alto do rochedo, até quando senti sob os pés, a areia do fundo do mar. Lutara contra águas que se me encantavam com a sua beleza, me amedrontavam com a sua força de destruição. Eu já aws vencera, uma vez, enquanto beijava Cacilda, sentados que estávamos sobre as pedras que cercam o farol. Fora, em outra ocasião, por elas vencido, quando o mar destruíu o banco que eu construíra, para nele sentar-me com Regina. Agora, porém, eu o vencera. Eu lhe mostrara que o fraco pode vencer o forte, que o final da luta entre um pigmeu e um gigante não está previamente marcado. David vencera Golias, um homem derrotara um deus; fizera com que ele se curvasse aos seus pés.

Meses depois, o mar veio à forra − Regina levara nos braços um ramo de rosas brancas para atirá-lo nas águas; Chegou ao fim da coroa e parou por um instante. Sentiu algo estranho e deixou-se encantar. Uma onda imensa ergueu-se, envolveu o seu corpo e o carregou para o fundo. Jamais o mar o devolveu; ficou com ele para sempre. O mar levou o que de mais caro eu possuía. Não me considero, porém, um derrotado.

E comecei a construir um barco.

Nele irei navegar, com dois panos suspensos dos seus mastros; e com ele irei desafiar o mar. Quero que, na hora maior da luta, estejam soprando ventos fortes e as ondas da maré de enchente a avançar, imensas, seja em março ou setembro. Desejo, firmemente, encontrá-lo forte, pois a minha vitória visará curvá-lo; vencê-lo. Mesmo sabendo que se não sou mais forte que ele, sou maior que ele em minha vontade. Irei castigá-lo, ferindo o seu orgulho, pelo mal que me fez, destruindo meu banco e por ter levado em seus braços, a minha amada. E se as ondas tragarem, afinal, o meu barco e meu corpo, sobreviverei, com certeza, como duende a pairar sobre as suas águas, continuando a desafiá-las, como alma valente de um náufrago afogado.

“De quem”, Da Holanda

wfoWaldir Freitas Oliveira

Quando o conheci, já era bem velho. A pele avermelhada do seu rosto parecia uma folha de papel amassado, tantas eram as rugas que a sulcavam. Seu nariz adunco aproximava-se dos lábios murchos de sua boca que, dada a  sua aparência, parecia não possuir mais dentes. Eram bem poucos, então, os seus cabelos brancos arrumados de um lado e do outro da cabeça calva.  Seus olhos eram azuis, brilhantes, e se fixavam firmes nos rostos das pessoas com as quais conversava. Sua voz era trôpega e enrolada, não fosse ele um gringo, falando mal o português.

Por todos era chamado de “De quem” ou “De quem, da Holanda”. Somente mais tarde entendi porque lhe deram esse nome. Não era, contudo, holandês. Nascera na Irlanda, de onde viera para o Brasil. Mas como dizia ser da Irlanda, lugar que ninguém sabia onde ficava, do qual não havia ali dele quem houvesse ouvido falar, acharam todos que ele era da Holanda, que, segundo contavam os mais velhos,  andaram, no passado, por aquelas bandas.

Morava numa casa pendurada na encosta de um morro, na entrada da cidade, na companhia de uma cabocla forte de corpo, de pele trigueira, chamada Evangelina, que ele tratava, simplesmente, de Eva. No seu quintal eles criavam galinhas que vendiam, aos sábados, na feira livre que se armava, ao lado do Mercado.

Embarcara, um dia, num tempo distante, em Liverpool, e fora bater os costados no Rio de Janeiro; de onde acabara vindo para a Bahia, Fora soldado e perdera dois dedos da mão esquerda lutando, a serviço dos ingleses, contra rebeldes, nas montanhas da Escócia.

Era muito bom no manejo das armas. Possuía uma pistola e uma espingarda, Nunca usara a pistola desde que aqui chegara; mas com a espingarda andara caçando pelas matas próximas da cidade, matando pacas e cotias, que coelhos, como em sua terra existiam aos montes, caça de maior porte nelas não havia.

Somente uma vez atirou num macaco, que veio a morrer, horas depois, em seus braços, por não ter sido atingido pelo tiro que lhe dera, em  parte vital do seu corpo; e desde então jurara a si mesmo nunca mais atirar num macaco, pois lhe dera pena e chorara, ao vê-lo morrer sofrendo; do mesmo modo como acontecera com o escocês  que lhe decepara dois dedos, a quem   atravessara o peito com sua lança,  havendo,  a seguir, o  sepultado.

Um dia, Evangelina fugiu de casa com um moço que trabalhava numa fazenda das vizinhanças; e desde então “De Quem” ficou esperando, mesmo sem esperança, que ela voltasse, sentado a embalar-se  numa cadeira de balanço que colocava na varanda da casa, de onde se avistava, até muito longe, a estrada de barro que ligava a cidade às praias. Passou a viver sozinho; e  assim o conheci, quando andei por lá; e   falando  um português enrolado ele  me contou, várias vezes,  muitas coisas do seu passado. Da sua terra, muitas estórias, onde sempre apareciam anjos e fadas.

Fumava um cachimbo que enchia com fumo de corda que comprava na venda de Totonho, e ele mesmo picava com uma faca afiada. Tinha o seu  cachimbo, um braço  redondo, e o seu  bocal era revestido com placas de prata. Deveriam ser o cachimbo e a sua pistola, as únicas coisas que sempre o acompanharam, desde que deixou a Irlanda e se mandara, mar a fora, para o Brasil.

Ninguém sabia de onde lhe vinha o dinheiro com que comprava os mantimentos ‒ o café, o pão, o açúcar, a  carne seca e as batatas que faziam parte, invariavelmente,  de suas refeições. A cada ano, na Semana Santa, aparecia, porém, na cidade, um gringo, de rosto avermelhado como o dele, que vinha  visitá-lo. Não falava com ninguém. Chegava e ia direto para sua casa. Ali  passava o dia inteiro.  Depois sumia dali, tão ligeiro como havia surgido. Diziam que era seu irmão ou sobrinho; e parecia ser bem mais moço que ele. Talvez fosse aquele gringo que lhe arranjava o dinheiro para as suas compras; pois sempre depois de sua visita, “De Quem” aparecia com roupa nova

Ele pagava a uma preta velha que morava por perto, para ir limpar a casa, lavar sua roupa e preparar sua comida. Ela, porém, nada mais lhe dava que o seu trabalho.

Quando morreu, “De Quem” foi enterrado como indigente; e ninguém apareceu para cuidar do seu funeral. Foi então que acharam em sua casa uns papéis dizendo que ele se chamava Dee Kenson e nascera em Ringsend, na Irlanda, em 1889, tendo saído do seu país, com 21 anos de idade. E o Dee Kenson acabou virando “De Quem”, por ser assim que as pessoas o chamavam, sem que soubessem  pronunciar,  corretamente,   seu nome verdadeiro..

Passei pela casa onde morara, pouco tempo depois da sua morte.  Estava abandonada. Entrei e procurei ali encontrar alguma coisa que me dissesse mais a seu respeito. Achei a sua pistola, guardada num armário; e o seu cachimbo, numa das duas  gavetas da mesa onde fazia as suas refeições.   Mandei então  refazer o assento e o encosto de palhinha da sua cadeira de balanço e fixá-la ao chão de tábuas da varanda, para que ninguém a levasse  E fiquei espantado, no dia seguinte, quando, numa tarde sem vento, sem mesmo uma leve  brisa a soprar, eu a vi balançando, como se alguém estivesse nela sentado.

Passei na casa,  alguns dias; e de noite ouvia, vindo do alto, acima do telhado, um farfalhar de asas que me acordava e impedia de continuar a dormir. Pensei, então, nos anjos que apareciam nas estórias que “De Quem” contava.  E em certa madrugada, vi brilhar no céu, uma estrela que o enchia de uma luz cintilante e que  me inquietou o pensamento. Perguntei a outras pessoas se elas também tinham visto, em  alguma noite,  aquela  estrela;  e elas me disseram que a viam, vez em quando,  e que “De Quem”  dizia que ela era  uma fada,  chamada Morgana, que vinha, às vezes,  visitá-lo.

Quando fui embora, levei comigo a pistola e o cachimbo. Ofereci a pistola a um museu de armas, no Rio de Janeiro. Quanto ao cachimbo, eu o guardei com cuidado; e se, por acaso, for, algum dia, à Irlanda, irei colocá-lo sobre uma pedra, na praia, à beira do mar que banha a cidade onde ele nasceu e  atravessou quando partiu para o Brasil;  tendo toda a certeza de que a fada Morgana irá  encarregar-se  de ali  apanhá-lo e levá-lo de volta ao seu dono, numa noite encantada, quando for, de novo, visitá-lo.

Aprendendo a ler

wfoWaldir Freitas Oliveira

Completei, há relativamente pouco tempo, oitenta anos. Aprendi a ler e escrever, em 1933, aos quatro anos; e se hoje sou capaz de entender o que outros escrevem, por esse mundo afora, em cinco línguas diferentes, isto devo aos que me ensinaram a reconhecer muito cedo a significação das letras e das palavras.

Foi em casa, cobrindo letras minúsculas e maiúsculas desenhadas a lápis, com cuidado, sobre um papel pautado, por minha madrinha de batismo e mãe de criação, que fui iniciado no mundo fascinante da escrita; e foi com a Cartilha Ensino Rápido da Leitura, do Prof.Mariano de Oliveira, que aprendi a reconhecer  minhas cinco primeiras palavras escritas  – asa, ema, ímã, ovo e uva; cada uma delas começando com uma das  vogais;  dali tendo partido para a leitura plena.

Lembro que nesta Cartilha, ao seu final, havia uma longa estória, na qual os principais personagens eram alguns pintinhos. Esforço-me para lembrar o que ela contava; mas mesmo vasculhando a memória, não consigo ir além das figuras meio azuladas dos pintinhos que a ilustravam.

A primeira edição dessa Cartilha circulou em São Paulo,  em 1917, publicada pela editora então denominada “Weiszlog Irmãos”, que veio depois a tornar-se a “Companhia Melhoramentos de São Paulo”; havendo sido  editada 2.230 vezes, durante 79 anos, até o ano de 1996, dela tendo sido vendidos mais de um milhão de exemplares, com uma tiragem média anual, até o ano de 1969, de mais de 100.000 exemplares; passando a decair, drasticamente, essa quantidade, por motivos que desconhecemos, a partir de 1970, tendo, afinal,  passado  a sua tiragem a alcançar somente 1.000 exemplares, em 1996, o   ano da sua última edição.

Quanto ao seu autor, era natural de Piracicaba, onde nasceu a 26 de maio de 1869, havendo se completado, portanto, no ano de 2009, 140 anos desde o seu nascimento. Esperávamos, então, que, ao menos os paulistas, se lembrassem de homenageá-lo nessa data. Tal, infelizmente, não aconteceu.

Um ano antes da edição do Ensino Rápido, em 1916, havia ele publicado, pela mesma editora, a Nova Cartilha analytico-synthetica, que continuou sendo publicada até 1955, quando alcançou sua l85.ª edição, sem que tivesse, no entanto, obtido a mesma aceitação da Cartilha Ensino Rápido, da qual foi considerada uma seqüência natural. Permitindo-nos, no entanto, o autor, saber, pela dedicatória que colocou na folha de rosto da Cartilha analytico-synthetica, o nome e a profissão de sua mãe – Corina Eugênia de Oliveira, professora.

Mariano de Oliveira diplomou-se em 1888, pela Escola Normal de São Paulo; exerceu, a seguir, a partir de data que não consegui apurar, o cargo de Inspetor Escolar, havendo redigido e publicado, em 1911, em parceria com Miguel Carneiro, J. Pinto e Silva e Theodoro de Morais, em edição de Siqueira, Nagel & Cia., a monografia Como ensinar leitura e linguagem nos diversos annos do curso preliminar; e em 1914, publicou, em parceria com Ramon Roca Dordal e Arnaldo de Oliveira Barreto o trabalho Instrucções praticas para o ensino da leitura pelo methodo analytico – Modelos de lições,  na Revista do Ensino, periódico que figurou, em sua primeira fase (1902-1910), como “Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público”, e passou a constituir-se, a partir de 1911, como órgão oficial da Diretoria da Instrução Pública do Estado de São Paulo, então  sob a direção de Oscar Thompson; havendo sido esse trabalho acrescentado, em linguagem adaptada, como anexo, a uma das edições subseqüentes  da Cartilha Analytica de autoria de Arnaldo de Oliveira Barreto, publicada, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, provavelmente em 1909, pela Livraria Francisco Alves.

Em 1916, portanto, como registramos, já publicara Mariano de Oliveira, pela Weiszflog Irmãos, sua Nova Cartilha analytico-synthetica e em 1917, sua famosa Cartilha Ensino Rápido da Leitura; mas dentre as publicações dessa editora, que já então se transformara em “Companhia Melhoramentos de São Paulo”, figura, como informa  registro acrescentado ao final do livro Leitura III, de Erasmo Braga, em sua edição de 1934, ao lado do anúncio desses dois livros, o de um outro, também  de autoria de Mariano de Oliveira – Páginas Infantis, ali  anunciado como – “uma série de lições muito bem graduadas e coordenadas que facilitam sobremaneira o desenvolvimento da leitura corrente e encerra eficazmente os primeiros passos da infância na leitura”. Não conseguimos, contudo, obter um seu exemplar nem identificar o ano de sua publicação.

Em maio de 1917, foi Mariano de Oliveira nomeado Diretor da Escola Normal de São Carlos, em cuja direção permaneceu até abril de 1922, quando requereu sua aposentadoria; sem termos, contudo, encontrado referências que nos permitissem identificar a data do seu falecimento.

As suas duas cartilhas podem ser consideradas como as de maior notoriedade no país, na primeira metade do século passado; ainda que disputando a primazia, com a Cartilha Analytica, de Arnaldo de Oliveira Barreto, que teria sido o seu maior concorrente como autor, neste campo de atividade; acreditando, no entanto, terem sido as cartilhas de Mariano de Oliveira, os principais instrumentos de aprendizagem da leitura, por gerações contínuas  da classe média urbana em vários estados do Brasil.

Faz-nos falta, na Bahia, terra notabilizada pela presença e atuação de professores primários renomados, atuando, principalmente em sua capital, um centro de documentação semelhante ao “Centro de Referência em Educação Mário Covas” existente em São Paulo, donde recolhemos, via Internet, as informações aqui prestadas sobre o autor e as edições da Cartilha Ensino Rápido. Aqui na Bahia são esses nossos professores lembrados apenas por haverem sido os nomes de alguns deles dados, por iniciativa de algum vereador ou prefeito de Salvador, a certas ruas da cidade ou a alguma escola pública localizada em bairros periféricos da capital baiana.  Não sabemos, então, se chegou a ser publicada na Bahia, em começos do século XX, alguma cartilha de autoria de professor baiano ou  radicado na capital baiana,  destinada ao ensino da leitura, principalmente se levarmos em conta a presença ativa,  na Bahia dessa época, da Livraria Catilina, com edições que então alcançavam mercados de  outros estados brasileiros. É tempo, ainda, porém, de resgatar a memória de tantos que se empenharam para permitir a milhares de jovens baianos, o ingresso no mundo fantástico das letras; com a pretensão de  reconstituir-se a história do ensino primário, tanto o público como o particular,  na Bahia; devendo lembrar-nos que neste setor, salientaram-se, no século XIX, Abílio César Borges, o barão de Macaúbas e o extraordinário João Estanislau da Silva Lisboa, o fabuloso protagonista do episódio dramático da “bala de ouro”; seguidos, no século seguinte, por um grande número de outros nomes que se destacaram na capital baiana, na área do magistério.  Após um longo tempo, equivalente a um curso de quase 80 anos, expresso a minha gratidão ao Prof. Mariano de Oliveira e presto-lhe a homenagem que lhe era devida, mas não lhe foi dada, na data em que se completaram  140 anos do seu nascimento.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BERNARDES, Vanessa Cuba. “Um estudo sobre Cartilha Analytica (190?) de Arnaldo de Oliveira Barreto”. Download disponível in vanessa_cubabernardes@yahoo.com.br ( Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia).- Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília.  Universidade Estadual Paulista, Marília, SP)

BUFFA, Ester e NOSELLA, Paolo. Schola Mater – a antiga Escola Normal de São Carlos. EdUFSCar: São Carlos, SP, 2002.

CALMON, Pedro. A Bala de ouro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1947.

NOSELLA, Paolo e BUFFA, Ester. Opus cit..

SOBRAL, Patrícia de Oliveira. “Um estudo sobre Cartilha Analytico-Synthetica (1916), de Mariano de Oliveira”. Download disponível in posobral@yahoo.com.br. (Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia – Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília. Universidade Estadual Paulista. Marília, SP).

La Vorágine – O romance amazônico da Colômbia

wfoWaldir Freitas Oliveira

Há 88 anos, um advogado recém-formado pela Faculdade de Direito e Ciências Políticas da Universidade Nacional de Bogotá, José Eustasio Rivera, iniciava uma das mais extraordinárias viagens já realizadas em seu país

Nomeado membro de uma Comissão encarregada de efetuar a demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela, partiu para o sul do seu país, percorrendo um trajeto que poderá, em nossos dias, ser considerado absurdo, mas que era, em sua época, o mais viável – desceu o rio Madalena, que corre para o norte, na direção do mar das Antilhas, seguiu, costeando o litoral do Caribe, na direção do leste, passou por Port-of-Spain, em Trinidad e chegou à foz do Orenoco, por ali penetrou e subiu o seu curso até sua confluência com o rio Meta, situado na fronteira, pelas bandas  do sul,  desses dois países, e seguiu, então,  para a cidade de San Fernando de Arabapo, ainda mais ao sul,  de onde  começou  a percorrer as terras banhadas pelo rio Inírida, na província colombiana de Guaínia. E quando decidiu regressar a Bogotá, dali retornou ao Orenoco, por ele navegou até o canal de Cassiquiare, por ele navegou até alcançar o rio Negro, principal afluente brasileiro do Amazonas, sendo este rurio por ele percorrido até sua foz, dali havendo seguido, já sobre águas do oceano Atlântico, acompanhando a linha da costa, na direção do mar das Antilhas, indo alcançar, afinal, o mesmo rio Madalena, de onde partira, em sua viagem de ida, por ele então havendo navegado, subindo o seu curso, a fim de  chegar de volta à capital da Colômbia.

De tudo o que viu e ouviu, ao longo dessa sua viagem, resultou a redação de um dos mais extraordinários romances da literatura latino-americana – La vorágine; havendo sido José Eustasio Rivera, o primeiro escritor a revelar as torpezas e injúrias sofridas pelos seringueiros na floresta amazônica, antecipando-se, pois, ao falar desse assunto, ao romance que iria, seis anos depois, aparecer, escrito por Ferreira de Castro – A Selva, este, no entanto, com sua estória a desenvolver-se na Amazônia brasileira. E mesmo que a ação dos personagens de La vorágine se desenvolva tanto nos llanos como na selva, daremos, aqui, realce à parte do texto onde  e quando a mata se torna cenário privilegiado para a narrativa, desempenhando o papel de algoz e, mais que isso, assumindo o caráter de  “voragem” e  abismo.

A selva sádica y vírgen… a selva  vista e idealizada por Rivera, acabou por devorar Arturo Cova, o principal personagem do romance e os seus companheiros. E sendo este, o narrador da estória, e havendo sido também fundamental o seu desempenho, agindo como condutor dos acontecimentos, torna-se Arturo Cova peça essencial para a compreensão do romance; tendo sido através de sua voz, que, como afirmou Montserrat Ordóñez 1,  aprendeu  o século XX “a imaginar e descrever a selva”,  de modo igual,  “a interpretar a relação entre o homem e a natureza”; e, finalmente, a  entender o seu relacionamento com seu próprio mundo interior, condicionado pela presença e influência de “uma natureza mítica, personificada e carnavalizada.” 2  E como resultado da presença simultânea no romance, do autor e do narrador por ele criado, e aqui seguindo  o rumo tomado pela apreciação de Montserrat Ordóñez, irá Rivera, aos poucos,

 

“desaparecendo como pessoa relacionada com sua obra, com sua biografia e com os fatos pitorescos de sua vida, que passam a ser dados de interesse mais histórico que literário, enquanto a voz de Cova, fragmentada e enigmática, nela se mantém e cresce.”

 

Razão pela qual, torna-se essa sua voz, a

 

“versão autorizada e descomprometida da selva americana, a do testemunho da atroz perseguição dos caucheros, a do homem enlouquecido no interior da selva, cárcere verde e locus terribilis.”

 

E em La vorágine, enquanto a voz  de Rivera, no curso da sua narrativa, vai desaparecendo, a de Arturo Cova, apesar de sua condição de personagem contraditório e pouco confiável, nela permanece, mantendo-se, mesmo despedaçada, colocada por Rivera, como “a chave do êxito do livro, a possibilidade de sua sobrevivência”.3

Arturo Cova é um homem da cidade grande, com boa formação em estudos literários, que foge para a região de Casanare, na parte oriental do país, embrenhando-se em seus llanos.4, tendo chegado às matas do sul, em companhia de Alicia, uma jovem que abandonara sua casa, em Bogotá, e com ele partira, por não querer casar-se, forçada pela família, com um rico fazendeiro, pelo qual não sentia qualquer afeição. Não a amando, no entanto, Arturo Cova, de modo tão grande que pudesse  justificar essa fuga; a ela tendo sido levado, em verdade, por seu espírito aventureiro.

Outro personagem possui no romance, voz explícita, e será através dela que iremos saber muito do que nele foi dito sobre os indígenas que habitavam a região das matas, e acerca de  quem eram e como viviam os caucheros – a de Clemente Silva., que  somente aparece na segunda parte do romance, como um elo entre a civilização e a floresta, nela inclusos os seus habitantes,  tornando-se este personagem, a partir de  então, muito importante no contexto da narrativa,   embora haja sido colocado, do ponto de vista cultural, mais perto do branco que do indígena, tanto por seus valores como pelo seu comportamento.

Como vemos, Rivera fala, valendo-se de vozes várias, sabendo delas utilizar-se, nos momentos exatos em que delas necessita, a fim de permitir aos seus leitores entenderem como funcionam os laços que unem os que foram levados a conviver na selva que os domina e quase sempre os anula ‒ o branco, o caboclo e o índio, categorias distintas no conjunto humano de sua narrativa, todos subjugados pelo poder imenso da mata e forçados a ceder, uns aos outros, partes de si mesmos, para que consigam ali sobreviver. E como afirma  Montserrat Ordóñez, a voz de Clemente Silva é “a da sabedoria e da sobrevivência”, mostrando-se capaz de expressar a ética dos brancos – a de que “os fins justificam os meios”. Surgindo a selva, nessa sua fala, habilmente identificada pelo autor, com seu personagem a partir de  quando lhe deu  o sobrenome – Silva, tendo surgido, de forma inesperada, em plena selva, frente aos homens conduzidos por Arturo Cova, passando a sua aparição a assinalar a tomada,  pela estória, de  um novo rumo.

Clemente Silva havia vivido durante dezesseis anos nas montanhas do país. Ele trabalhara como cauchero em suas matas e encarna toda a sabedoria obtida com sua experiência de vida; tornando-se, conforme vimos, o elemento de ligação entre a selva e o mundo civilizado, entre os indígenas e os brancos, ou seja – entre os que antes nela viviam e os que para ali chegaram, destinados ao trabalho da  extração da borracha. E será ele quem dirá a Arturo Cova e aos seus companheiros quem foram esses recém-chegados, de que modo agiram naquelas matas,  tanto quanto  como nelas, desde então,  se passaram as coisas.

Esclarece, a seguir:

 

“Cada dono de seringal tem caneys que servem de moradia e de armazém. (…) Esses depósitos ou barracas jamais estão vazios, porque neles se guarda a borracha com as mercadorias e as provisões, e os capatazes moram ali com suas amantes”

 

E em sua narrativa, prossegue, falando dos que trabalham nos seringais:

 

“O pessoal dos trabalhadores se compõe, em sua maioria, de indígenas e contratados que, segundo as leis da região, não podem mudar de dono antes de dois anos. Cada indivíduo possui uma conta na qual são anotadas as bugigangas que lhes são empurradas – as ferramentas, os alimentos e a borracha extraída, que nela é registrada por um preço irrisório, determinado pelo patrão. Nunca um seringueiro sabe quanto custa o que recebe  nem quanto lhe está sendo pago pela borracha que entrega, pois o segredo do dono do seringal  está no fato de esconder o modo pelo qual o trabalhador continuará a ser seu  devedor. E essa nova forma de escravidão atravessa todo o curso de vida desses homens e se transmite aos seus herdeiros”

 

E diz, ainda, que,

 

“pelo seu lado, os capatazes inventam diversas formas de espoliação, roubam a borracha dos seringueiros, tiram-lhes as filhas e as esposas, mandam-nos para o trabalho em caños paupérrimos, onde não poderiam tirar a borracha que lhes é exigida, e isso dá motivos para insultos e castigos executados a chicote, quando neles não se envolvem tiros de Winchester. E bastará dizer depois que fulano se picureou ou que morreu de febres, para que tudo se arrume”

 

E acrescenta:

 

“Não se devendo esquecer onde entram a traição e o dolo. Nem todos os peões são pombas brancas. Alguns deles pedem para ser contratados somente para roubar o que recebem, ou ir para a mata, a fim de matar um inimigo, ou para ludibriar seus companheiros e acabar por vendê-los para outras barracas.” 5

 

Acaba declarando que viveu em tais condições, naquelas terras, durante dezesseis anos, qur foram por ele considerados “anos de miséria”; desde que a escravidão  que ali é imposta, pelos donos dos seringais,  aos que neles trabalham, valendo-se da indiferença, a  respeito, das autoridades do país, nunca, em verdade, se extingue.

A voz de Rivera soa, então, forte e em alto tom, através da fala de Clemente Silva. Por ela são confirmados, inclusive, os desmandos e o arbítrio mantido por Julio Cesar Arana, sobre as terras do Putumayo, desde que o velho peão declara haver ali trabalhado, em seus seringais, e relata o que por lá se passava.  E ao voltar a falar pela voz de Arturo de Cova, Rivera, considera a selva, como sádica e somente encontra uma solução para dela escapar – a fuga, que ele, contudo, não conseguiu efetuar.

Brada, a seguir, desesperado, que “o homem civilizado é o paladino da destruição.”

Afirma, no entanto, existir “um valor magnífico na epopéia desses piratas que escravizam os seus peões, exploram os índios e lutam contra a selva”

E explica que

. “atropelados pela infelicidade, provindos do anonimato das cidades, lançaram-se nos desertos buscando alcançar um final qualquer para suas vidas estéreis. Delirantes de paludismo, despojaram-se da sua consciência e co-naturalizados com cada risco corrido, sem qualquer outra arma que a Winchester e o machadinho, sofreram as mais atrozes necessidades, ansiando prazeres e abundância, arrostando os rigores das intempéries, sempre famintos e até mesmo desnudos, pois as  suas roupas haviam apodrecido sobre a carne dos seus corpos.” 6

 

E, a seguir, de forma irônica e perversa, revela como esses homens chegaram, um dia, à beira de um penhasco, à margem de um rio qualquer da região, e se declararam, simplesmente, sem qualquer escrúpulo, “donos de empresa”. E mesmo que houvessem entendido ser a selva, sua principal inimiga, eles demonstraram ali  não saber a quem ou como combater; e  por isso acabaram sendo por ela vencidos e destroçados.

Tendo sido  através da voz de Balbino Jacome, outro velho seringueiro, que Rivera  revelara, pouco antes,   a amargura de vida dos que para ali se dirigiram, quando  pede  ao Visitador  que havia chegado ao seringal onde se encontrava, que quando ele  pisasse “terra cristã”, pagasse uma missa  em sua intenção;  valendo  essa missa,  também,  pela “esperança que perdemos.” Revelando, então,  àquela pessoa  que se apresenta  frente a ele,  como uma  autoridade maior, que ‒ “o  crime maior “ a ser  ali por ele apurado, não estava na selva, mas nos livros de escrituração dos seringais; e afirma:

 

“Se Sua Senhoria os conhecesse, encontraria muito mais leitura no Deve que no Haver, já que muitos homens são lesados na conta por simples cálculo, segundo o que informam os capatazes. Acharia, contudo, dados vergonhosos: peões que entregam quilos de borracha por cinco centavos e recebem tecidos de vinte pesos, índios que trabalham há seis anos, e ainda aparecem devendo o mañoco do primeiro mês; crianças que herdam dívidas enormes, procedentes do pai que mataram, da mãe que forçaram, das irmãs que violentaram, dívidas que não saldariam em toda sua vida, porque, quando chegarem à puberdade, só os gastos de sua infância lhes darão meio século de escravidão”. 7

 

Seu tom de denúncia é forte e eloqüente.  E nela chega a envolver a participação conivente das autoridades do Governo da Colômbia, nos crimes ali praticados, quando põe o Visitador a falar , passando, então,  a perguntar –

:

“Que ganharíamos com a evidência de que fulano matou sicrano, roubou mengano, feriu beltrano? (…) Deus nos livre de que se comprove algum crime, porque os patrões conseguiriam realizar o seu maior desejo: a criação de prefeituras e de cadeias, ou melhor, a iniqüidade dirigida por eles mesmos”

 

E ao acrescentar:

 

“… o presidente da República não disse que enviou o general Velazco para licenciar tropas e guardas no Putumayo e no Caquetá, como resposta muda ao pedido de proteção que os colonizadores dos nossos rios lhes faziam diariamente? Paisano, paisaninho, nós estamos perdidos! E o Putumayo e o Caquetá também estão sendo perdidos!” 8

 

E voltando a falar dos indígenas da mata colombiana, deles nos diz Rivera, agora através da voz de Arturo Cova, serem eles povos “rudimentares e nômades” que não possuem “deuses, nem heróis, nem pátria, nem pretérito nem futuro”; não havendo dúvida sobre o fato de ele próprio  considerar-se superior  aos indigenas; mas tornando-se, pelo que, conclui Montserrat Ordóñez, falando  a seu respeito,  “o grande defensor do índio explorado nas caucherias”, sendo,  no fundo de si mesmo, “um triste remendo do conquistador e colonizador europeu”;  ainda mais,tomando por base o que sobre eles disseram, no curso do romance,  o   próprio autor e os  seus personagens Arturo Cova e Clemente Silva, sendo no romance  reconhecido o fato de serem  os índios.  “o grupo humano mais explorado”, pois que “devem entregar suas mulheres e suas filhas, se acham escravizados por dívidas impossíveis de ser pagas, e são torturados e assassinados sem piedade ou por  simples diversão.” 9

Tratemos, finalmente, da selva, como abismo voraz dos homens que a penetram, levando consigo a ilusão de poder dominá-la, segundo a visão do próprio José Eustasio Rivera, expressa através das vozes de Arturo Cova e Clemente Silva.

Segundo eles, como informou Montserrat Ordóñez, “a selva é cárcere e inferno, escura e úmida, sexual e imunda, abismo antropófago, boca que engole os homens e causa da sua crueldade”. Tornando-se claro que para o homem civilizado, estar na selva não é cousa que ele possa desejar; pelo que ele somente deverá cuidar de  atravessá-la,  em viagens imprescindíveis, a fim de explorá-la,  ao tentar vencê-la, mas nunca para nela viver em harmonia. Idéia que vem a ser confirmada, ao final do romance, quando em seu “Epílogo”, encontramos registrada a notícia enviada pelo Cônsul da Colômbia em Manaus, ao Ministro do seu país, a respeito da presumida morte de Arturo Cova e seus companheiros: ‒ “Há cinco meses que Clemente Silva os busca em vão. Nenhum rastro deles. A selva os devorou!”. 10

De todo oportuno, será, então, a transcrição de dois trechos colhidos do romance de José Eustasio Rivera, a\través dos  quais o autor-poeta assume o lugar do autor-novelista, e em prosa repleta de poesia, fala, em primeiro lugar ‒ da selva; e,  a seguir, compõe um  hino  em louvor aos seringueiros.

Aparecem esses textos como aberturas, respectivamente, para a segunda e terceira partes do livro; e sua beleza singular  revela o poeta que convivia com o ficcionista colombiano.

No primeiro, o canto em louvação da selva soa, a um só tempo, triste e grandioso, dando à mata, uma vida própria e uma alma que a transforma em ser mágico que encanta os que a penetram e os que nela buscam abrigo:

 

“Tu és a catedral da amargura, onde deuses desconhecidos falam a meia-voz, na linguagem dos murmúrios, prometendo longevidade às árvores imponentes, contemporâneas do paraíso, que já eram as mais velhas quando as primeiras tribos ali apareceram e hoje aguardam, impassíveis, a submersão nos séculos que virão. . Teus vegetais formam sobre a terra uma poderosa família que nunca se atraiçoa. O abraço que tuas ramadas não podem  dar,  umas às outras, levam-no,  unindo-as,  as trepadeiras e os cipós;  e és solidária até na dor da folha que cai. Tuas vozes multíssonas formam um só eco a  chorar e escorrer pelos troncos que tombam, e em cada brecha da mata, os novos  gérmenes  apressam suas gestações. Tens a austeridade da força cósmica e encarnas um mistério de criação. Apesar disso, meu espírito se ajusta  por completo com o teu caráter instável, desde que ele suporta o peso de sua perpetuidade e,  mais que ao carvalho de galho robusto, ele aprendeu a amar a lânguida orquídea,  por ser ela  fugaz, como o homem,  e por  murchar,  como uma ilusão.” 11

 

Enquanto no segundo, falando através da voz de Clemente Silva, encontramos o elogio trágico de quem, desiludido, vítima da ilusão por ele próprio criada, brada, em desespero, convencido de que nunca deixará de ser um seringueiro:

 

“Quem estabeleceu o desequilíbrio entre a realidade e a alma insaciável? Para que nos deram asas  para voar no vazio?  A nossa madastra foi a pobreza; o nosso tirano, a aspiração! Por olhar  para o alto, tropeçamos nas asperezas do chão; para atender as necessidades do ventre  misérrimo, fracassamos no espírito. A mediocridade nos presenteou com a angústia. Nunca fomos senão os heróis medíocres!”

 

E em tom patético, exclama:

 

“Sonhos irrealizados, triunfos perdidos! Por que sois fantasmas de memória, como se desejásseis envergonhar-se de vós próprios? Vede onde foi deter-se o sonhador  que feriu a árvore inerme, para enriquecer os que não  sonham, a suportar desprezos e vexames em troca de uma migalha recebida a cada anoitecer (…)  Escravo, não te  lamentes da fadiga; prisioneiro, não te queixes da prisão: ignores a tortura de vagar soltos no interior de um cárcere como a selva, cujas abobadas verdes têm como fossos, rios imensos.(…) Eu, porém, não me compadeço daquele que não protesta. Um tremor nas galhadas não é rebeldia que me inspire afeição. Por que não ruge  toda a selva e nos esmaga como répteis para castigar–nos pela  exploração vil? Aqui não sinto tristeza, e sim desespero! .

…………………………………………………………………………………….

Fui cauchero, sou cauchero! E o que fizeram as minhas mãos contra as árvores, podem elas fazer contra os homens!”  12

 

Não encerraremos, contudo, essa nossa apreciação sobre La vorágine, sem registrar o que disse desse romance, Federico Carlos Sainz de Robles, em seu Ensayo de un Diccionario de la Literatura, no verbete – RIVERA, José Eustasio:

 

“Sua única novela, La vorágine (1924), tornou-o famoso em todo o mundo. Para a grande maioria dos críticos, ela é a novela mais formosa e patética que produziram as letras hispano-americanas.” 13

 

Nem deixar de mencionar, em conclusão, como foi por ele registrado, havê-lo considerado Julio A. Leguizamón, em sua Historia de la literatura hispanoamericana (Buenos Aires, 1949), um romance excepcional,  ao  afirmar que nele  José Eustasio Rivera

 

“… narra e descreve, com poderosa força de criação. Seu realismo é de uma extraordinária capacidade evocativa… Mas a maestria do novelista se revela pela criação desse clima de força telúrica, realidade e presença da selva… Ali palpita e estremece um terror biológico e impera uma crueldade selvagem, incomparável e inflexível como a dura lei do triunfo do mais forte.”

 

Nem, de modo especial, a opinião de José Maria Salaverria (1873-1940), a respeito do romance, incluída nesse mesmo verbete, quando afirmou que

 

La vorágine: é o triunfo da árvore, a apoteose da mata impenetrável, a exaltação de uma Natureza incrivelmente vigorosa que cria e mata com assombrosa inexorabilidade. E frente a essa Natureza sublime e monstruosa, o homem refinado da cidade, o poeta José Eustasio Rivera, sente-se arrebatado por uma mescla de terror e entusiasmo, e escreve, afinal, o livro das matas virgens que em nossa literatura de língua espanhola estava ainda por ser escrito”.14

 

La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto, com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, forçados ao trabalho na condição de escravos, caboclos ou índios, se esforçaram ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes, de suas próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos civilizados que ali chegaram, fossem eles estrangeiros ou naturais desses países.

 

Quanto ao colombiano José Eustacio Rivera, autor da novela La Vorágine, publicada em 1924, cuja ação se desenvolve nas florestas do seu país de origem, nasceu em Neiva, (hoje denominada Rivera, em sua homenagem), a 19 de fevereiro de 1888, havendo falecido nos Estados Unidos, em 1928, em New York, antes de completar 40 anos.

Algo importante estabelece, porém, a diferença entre La Vorágine e A Selva.  Em A Selva, o seu autor, o português Ferreira de Castro, viveu, realmente, as situações de vida de Alberto, seu principal personagem; havendo sido, de fato, um seringueiro; enquanto José Eustasio River, o autor de La Vorágine, foi, tão somente, um viajante que colheu, tanto quanto lhe foi possível, informações a respeito das penosas circunstâncias que envolviam a vida dos seringueiros nas matas colombianas, quando as percorreu, na região de Guaínia, província, como registramos, situada nas proximidades do alto curso do rio Negro, afluente brasileiro do Amazonas, na condição de  integrante da Comissão do Governo colombiano encarregada dos trabalhos de demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela.

. Não chegaria La Vorágine a alcançar os mesmos índices de aprovação com que os críticos literários da época iriam receber, anos depois, A Selva, de Ferreira de Castro, publicada em 1930. Podendo isto ser comprovado pela pronta aparição, a partir da primeira edição deste romance, de sucessivas edições em línguas estrangeiras, numa seqüência que se iniciou com a da sua tradução, em 1933, para o alemão, para o inglês, com edições nos Estados Unidos, no Canadá e na Inglaterra; para o italiano, em 1934 e para o francês, em 1938; a essas havendo se  seguido  outras edções,  em  espanhol, romeno, checo, croata, holandês, sueco, norueguês,  búlgaro  e eslovaco, tornando-se  o romance de Ferreira de Castro uma das obras mais  traduzidas em todo o mundo.

La Vorágine foi igualmente traduzida para várias línguas: ‒ para o francês e o alemão, em 1934, para o inglês, em 1935, com edição em New York, para o italiano, em 1941, para o holandês, em 1948, e, a seguir, a partir dos anos 50, para o búlgaro, o checo, o esloveno, o  chinês,  o romeno e  o sueco; podendo com isso comprovar-se o interesse que despertou no mundo intelectual dessa época.  14

Lembramos, então, o fato de haver José Eustasio Rivera vivido somente 40 anos, nascido que foi em 1888, em San Mateo (hoje denominada Rivera, em sua homenagem), cidade  situada nas proximidades de Neiva, ao sul da Colômbia, havendo falecido em New York, em 1928.  Ainda  que  La Vorágine foi editada cinco vezes, entre 1924 e 1928 – a primeira vez, em novembro de 1924, na Colômbia, pela Editorial Cromos, a segunda e a terceira, em 1925 e 1926, ainda na Colômbia, pela Editorial Minerva; havendo a sua quarta edição sido, em verdade, uma reimpressão da terceira, desde que em pouco dela  difere.  Havendo, a seguir, surgido, em 1928 as edições de New York, publicadas pela Editorial Andes, aqui identificadas como sendo a quinta e a sexta, e, a seguir, a sétima, a oitava e a nona, em 1929; todas elas, contudo, a partir da sexta, devendo ser consideradas  reimpressões da quinta, a que foi revista e corrigida pelo próprio autor. 15 E o romance  continuou a ser traduzido, após a morte de José Eustasio Rivera, em 1928, em vários países do mundo, alcançando o número de suas edições em países estrangeiros, quase o mesmo número das de A Selva, havendo surgido em alemão e francês, em 1934; em inglês e russo, em 1935; e, nas décadas dos anos 40 e 50, em búlgaro, checo, esloveno, holandês, romeno, italiano e chinês; e, finalmente, como registramos, em português, no Brasil,  em 1982, ou  antes, talvez, sem que tenhamos tido a oportunidade de comprovar essa precedência.

Da edição de que nos valemos para a releitura do romance, publicada em 2006, sendo ela, provavelmente, a mais recente, consta, organizada por Montserrat Ordoñez, uma coletânea de textos expondo um considerável acervo de informações, tanto sobre José Eustasio Rivera, como acerca do seu romance; da qual destacamos a secção apresentada sob o título Historia de la crítica de ´La Vorágine`“, cuja leitura se torna extremamente útil  para conduzir-nos à compreensão da novela.

Nele, as conclusões dos seus autores indicam que

 

como pocas obras, La vorágine se presta a estudios interdisciplinares, a reflexiones sobre cultura e história,  a estudios sobre  la fragmentación, la incoherencia, el engaño y el sujeto descentrado, a las nuevas lecturas de contradicciones, anmbivalencias y ambiguedades, dentro de una perspectiva de valoración de la historia y de los relatos envolventes, y dentro de una persspectiva de la lectura como proceso de construcción de la obra.” 16

 

E convém registrar que ao redigir o texto “Ciclo nortista”, secção constante do capítulo “O regionalismo na ficção” em A Literatura no Brasil, obra monumental publicada sob a direção de Afrânio Coutinho, no Rio de Janeiro, pela José Olympio Editora e pela Universidade Federal Fluminense, em 1986, Peregrino Junior, autor, por sinal, de Pussanga, um dos mais belos livros de contos já escritos sobre a Amazônia, afirmou que José Eustasio Rivera, em La vorágine,

 

“traz-nos da paisagem e da vida amazônica um quadro belo e poderoso: aquela floresta agressiva, áspera, esmagadora: aquelas águas, numerosas e traiçoeiras; aqueles homens bárbaros e tristes, perdidos na selva sádica y virgen…  Ele também denuncia, como Ferreira de Castro, as torpezas e os crimes que a floresta esconde. O seu livro é um libelo, é protesto, é denúncia e grito de revolta contra o abandono do homem – aquele pária jogado à mercê dos aventureiros, exploradores e frios tiranos sem entranhas, criminosos e rapaces, que exploram os seringais da Amazônia.“ 17

 

Diferem, porém, de modo sensível, os dois romances, quanto ao modo como são considerados pelos seus autores, os indígenas habitantes da floresta; e se tanto em um como no outro, os índios aparecem como seres inferiores, quando são colocados em confronto com os civilizadores, em La Vorágine, José Eustasio Rivera ergue a sua voz para defendê-los; o que não acontece em A Selva, onde os parintintins – a única tribo mencionada em seu romance, por Ferreira de Castro, nos são mostrados como sendo  o terror dos seringueiros, apontados como possuidores de uma enorme crueldade, capazes de realizar festas macabras, durante as quais dançam em torno de varas,  no topo das quais se acham espetadas as cabeças decapitadas de seringueiros por eles atacados, tidos, portanto, pelo autor, como  uma ameaça constante  para esses seringueiros, que então  se mostravam com a disposição de  exterminá-los  à bala.18

La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto, com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, viram-se forçados ao trabalho, na condição de escravos, caboclos ou índios, esforçando-se, ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes, das próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos civilizados que ali chegaram, fossem eles estrangeiros ou naturais desses países.

La vorágine continuará, pois, a nosso ver, a destacar-se como  um dos pontos mais altos já alcançados pela literatura latino-americana, em favor da dignidade humana violentada e ultrajada pela civilização.

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1  MONTSERRAT ORDOÑEZ  (1941-2001), nascida em Barcelon de pai castelhano e mãe colombiana,  residiu na Colômbia durante3 quase toda a sua vida, ali tendo lecionado    na Universidad de Los Andes e na Universidad Nacional de Colômbia. Foi a editora da 6,ª edição de La Vorágine,de José Eustasio Rivera,  lançada,  em 2006, pelas Ediciones Cátedra Fernandez Ciudad, S.L., Espana.

2 MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “El narrador: uma voz rota” in RIVERA, José Eustasio. La Vorágine.

Fernandez Ciudad  S.L.: Cátedra. Letras Hispânicas, 2006. p. 21.

3 Idem, pp. 24/25.

4 Essa região foi mencionada pelo geógrafo francês Jean Gottmann em 1949, 25 anos depois da publicação de La vorágine, como ainda  sendo   – un pays vide d´hommes, onde viviam tribos indígenas  afastadas da civilização; estando, segundo ele,  a sua exploração e cartografia ainda a serem efetuadas. Cf. GOTTMANN, Jean. L´Amérique. Paris:Hachettre, 1949, p. 369); esclarecendo o autor deste trabalho  haver sido por ele i consultada a terceira edição dessa obra, a que foi   lançada em 1960.

5 MONTSERRAT Ordóñez.  Opus cit., pp. 250/251.

6 Idem, p. 297.

7 Idem, ´p.276.

8 Idem, p. 277.

9 MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “Los indígenas: brasas entre las espumas” e “En las caucherias: llamaradas crepitantes” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp. 38 e 48.

10 RIVERA, José Eustasio. Opus cit., p. 385.

11 RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp. 189/190.

12 Idem, pp. 288/289.

12  ROBLES, Federico Carlos Sainz de. Ensayo de un Diccionario de la Literatura. Tomo II.  Escritores españoles e hispanoamericanos”. Madrid: Bolaños y Aguilar  S.L.,1949, pp. 1398/1399.

13 Idem, pp. 288/289.

14 Apud ROBLES, Federico Carlos Sainz de. Opus cit., pp, 1398/1399 Informamos  não haver conseguido localizar  a Historia de la literatura hispanoamericana,  de autoria de Julio A. Leguizamón, citada no referido verbete,  nem a obra citada,  sem referência ao seu título, de José Maria Salaverria,  nelas encontrando-se -se  as menções  feitas por esses autores,  a La vorágine, registradas  por Federico Carlos  Sainz de Robles.

14 Cf. “Traducciones de ´La Vorágine`” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp  67/68. Consta desse texto, referência a uma tradução brasileira, que teria sido feita por José César Borba, no Rio de Janeiro, em 1945, que não conseguimos localizar.  Logramos, contudo, encontrar uma  tradução da novela, se autoria de Reinaldo Guarany, editada no Rio de Janeiro,  em 1982, pela Ediora Francisco Alves, da qual não consta, no entanto, qualquer  indicação sobre a edição em espanhol, que lhe serviu de base.

15 Cf. “Historia editorial de La Vorágine” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit, ´pp. 14/16.

16   RIVERA, José Eustasio.. “Historia de la critica de ´La Vorágine` in Opus cit., pp. 16

 

17  Peregrino Junior. “Ciclo nortista” in “O regionalismo na ficção”. In COUTINHO, Afrânio (Diretor) A Literatura no Brasil.. Era realista. Era de transição. Vol 4. Rio de Janeiro: José Olympio Editora/Universidade Federal Fluminense. UFF-EDUFF, 1986, p. 246. E quanto à expressão sádica y virgen, por ele referida, ela aparece no texto La vorágine, na edição por nós utilizada, à página 297, no parágrafo que se inicia desse modo – Esta selva sádica y virgen procura al ánimo la alucinacón del peligro

18 Cf. CASTRO, Ferreira de. Opus cit., pp.114/115, 117/119, 101.  Cabendo notar que, em 1995, o antropólogo John Hemming, em seu livro Amazon Frontier: Defeat of the Brazilian Indians (Edição brasileira: HEMMING, John. Fronteira Amazônica: A derrota dos índios brasileiros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp. 372/373) confirmou que os índios parintintins, no curso do ciclo de exploração da borracha, foram temidos e que, portanto, “despertaram o medo e a fúria dos seringueiros”.

Ventos que chegam e se vão

wfoWaldir Freitas Oliveira

Por que escrever ainda mais sobre o vento? Talvez por estar ele sempre ligado a todos os que, de mais ou menos perto, viveram ou ainda vivem sentindo, em torno de si, a natureza.

Encarcerados, este é o termo, em apartamentos grandes ou pequenos, o homem comum das cidades  dos nossos dias, procura ignorá-lo – dele se protege e chega a considerá-lo um  intruso em seu cotidiano. Incomoda-lhe o barulho que faz, a assobiar quando se esgueira pelas frestas das janelas ou lhes força as vidraças; e tenta impedir-lhe, de todos os jeitos, a entrada em suas casas, casulos de pedra e cal por ele escolhidos como moradas. Não abandona, contudo, a vontade de senti-lo, quando, quase sempre com grande sacrifício, consegue adquirir um refúgio que irá, pomposamente, intitular de “casa de campo” ou “casa de praia”, levado, talvez,  pela saudade que sente do vento, do ar fresco soprando do mar, a revolver-lhe as ondas, de um céu estrelado,  vazio, no entanto,  de estrelas, nas  cidades fartamente iluminadas.

De íntimo que foi dos homens, em longínquo passado, passou o vento a ser,então,  considerado coisa incômoda,  que perturba o dia-a-dia monótono dos moradores dessas cidades – aglomerações imensas  de prédios que se estendem, metros a fio, ladeando ruas e avenidas, com escassas praças,  em baixo, negras,  cobertas de asfalto,  no alto, brilhantes, com focos de luz  fosforescente  presos nas extremidades de postes altos; ou se empilham,  céu acima, blocos enormes de concreto,  como   espectros sombrios dos quais nem mesmo a arquitetura moderna lhes  consegue  tirar o  ar sombreado, por alguns chamados “torres”, “vilas” ou “mansões”, em tentativa vã de conseguir que lhes seja   restituído o caráter ameno  perdido das antigas moradas.

Os que convivem, porém, com a natureza, convivem com os ventos e os conhecem bem. Sua presença é temida quando chegam, por vezes, de forma inesperada, com fúria desabrida, varando os ares, e tudo destruindo  sobre a  terra ou  o mar; sendo, no entanto, por outros aguardados com extremo carinho, como rescaldo a um  calor que maltrata,  carícia branda, o que lhes dá um ar sagrado; capazes, portanto, de inspirarem  medo ou serem  considerados como um  gesto de amor ou de  afago.

Vento é coisa de Deus, dizem os antigos; assim como o sol, a lua, a chuva; o céu ou o mar. É força que anima ou castiga, acaricia ou maltrata; que chega para dar vida ou conduzir à morte; para fazer o bem ou o mal. Amado e ainda  respeitado pelos homens do mar – os que restaram  dos que estendiam, à sua espera, as velas de seus barcos,  para que fossem   levados  a transpor distâncias incríveis,  lhes permitindo alcançarem  novos mundos, talvez encantados; pelos que  viram, também, seus panos rasgados nos naufrágios, por suas garras afiadas de gigantes, por elas desfeitos como barreiras colocadas à frente dos seus rumos, sem quererem os ventos  se sentir  escravos dos que pretendessem domá-los.

Os dos tempos de antanho imaginaram os ventos como deuses.  Principalmente os gregos, aqueles  que nos legaram quase tudo que hoje sabemos sobre nós mesmos, em um mundo hoje impropriamente chamado de Ocidente –  que veio a ser depois entendido como Europa e América, excluídas, de modo preconceituoso, por ser  consideradas bárbaras, as terras da África. Quanto aos gregos, não os de hoje, mas os de outro tempo, os entenderam, levados por sua imaginação prodigiosa, como estando sob a guarda de um dos deuses nos quais acreditavam – Eolo, que aparece na Odisséia, como o  senhor dos ventos,  e   teria recebido  de Zeus, a incumbência de guardá-los.

Eolo vivia numa ilha flutuante, com seus filhos e filhas.  Mantinha os ventos encarcerados em um antro profundo, dele os libertando somente quando julgasse necessário, sendo por eles obedecido, quando os livrava dos ferros que os aprisionavam; pois fortes como eram, seria preciso que alguém mais forte os dominasse, impedindo-os de causarem danos em suas caminhadas.

Desse modo, com o controle que exercia sobre os ventos, Eolo tinha em suas mãos, os do bom tempo e os das tempestades. Por isso, os outros deuses e os heróis lhe solicitaram, muitas vezes, ajuda, como fez Hera, quando lhe pediu que os ventos impedissem o desembarque nas praias de Tróia,  dos  soldados que chegavam,  comandados por Eneas, em seu socorro; ou quando se dispôs a  atender ao pedido que lhe fez  Ulisses, que o foi visitar em sua ilha da Eólia, para   que os ventos o ajudassem, em sua viagem de volta, a alcançar  Ítaca, sua terra natal. Acontecendo, porém, dessa vez, que lhe havendo Eolo entregue um odre onde estavam trancados todos os ventos,  alertou-o  para o perigo que correria se os libertasse; o que foi feito, no entanto,  de modo imprudente, pela tripulação do seu barco, supondo  estar o odre  a guardar  tesouros, provocando,  com isso, a chegada de uma grande tempestade que  ameaçou  as embarcações com o naufrágio.    

Por nomes diversos eram os ventos então chamados. Em seu conjunto, eram os Anemoi, vindos de cada um dos pontos cardeais, também dos colaterais, e recebiam por isso, nomes particulares:  Boreas era o que vinha do norte, trazendo consigo o frio do inverno; Notos, o que chegava do sul, conduzindo as tormentas do fim do verão; Zéfiro, o do oeste, que vinha acompanhado pelas brisas suaves da primavera; Euros, o do leste, o único não associado, na Teogonia de Hesíodo, a alguma das estações do ano. E quando chegaram os latinos, os Anemoi passaram a ser chamados Venti (ventus);  mas não mudaram seus feitios nem modos de ação.

Em vários pontos das obras dos escritores gregos e romanos, os ventos aparecem. Foram citados por Homero e Hesíodo, este registrando, dos quatro mais importantes, por ele considerados benéficos, a presença de Tífon  ou Tifeu,  por ele apontado como um vento destrutivo, mas que não era,  propriamente,  um vento, mas um monstro, um ser intermediário entre um homem e uma fera, filho de Hera, que possuía um corpo alado e olhos que lançavam chamas, sendo  capaz de desencadear tempestades;  também  por Aristóteles; e, a seguir, também  por Ovídio e Filóstrato, Aristófanes  e Virgílio, em suas obras literárias.

Andronicus, de Ciros, natural da Macedônia, construiu, em Atenas, na primeira metade do século I a.C., o edifício que ficou conhecido como “a Torre dos Ventos”, e resiste, ainda hoje, ao desgaste do tempo. Possuindo cerca de 12m. de altura, construída em mármore branco pentélico, tendo forma octogonal, erguida sobre uma  base com  três degraus,  apresenta gravadas em relevo sobre a  frisa que no alto a contorna,  em  cada uma de suas oito faces, as figuras dos oito principais ventos, identificados por seus nomes e atributos – Boreas, o vento do norte, Kaikias, o do nordeste, Apeliotes, o do leste, Euros, o do sudeste, Notos, o do sul, Lips, o do sudoeste, Zefiros, o do oeste e Skiron, o do noroeste (o mesmo Siroco, que sopra da África) .

Todas essas figuras trazem asas nos ombros e ostentam em suas vestes e rostos, os atributos de cada um deles. Boreas aparece coberto por um manto pesado, mostrando-se prestes a soprar atravessando uma  longa  concha  encaracolada; Kaikias traz  um cesto cheio com  pequenos objetos redondos; Apeliotes surge como um jovem coberto por espécie de cesto cm  frutos e grãos; Euros, como um ancião, fortemente agasalhado,  assim  protegido contra os elementos; Notus  derrama  de um vaso que conduz, chuvas copiosas; Lips aparece como um rapaz  a empurrar pela popa, uma embarcação, parecendo anunciar com esse gesto, a esperança da chegada de bons ventos para a navegação;  Zefiros surge  também como um jovem,  carregando flores, e, finalmente, Skiros como um homem com  longas barbas,  trazendo  nos braços, um vaso cheio de cinzas e carvões.

Em tempos passados possuiu essa “torre dos ventos”, em seu interior, um relógio de água (clepsidra), movido pela água que descia da Acrópole, e ao centro do seu teto,  em  formato cônico, a figura móvel de     Tritão, em bronze,  a indicar, ao apontar, a cada momento, com uma longa vara, para um certo ponto,  a direção  em que   estava o  vento a soprar.

O hábito de serem, então, os ventos representados por figuras humanas com asas nos ombros deverá ter inspirado Ovídio, quando  em suas Metamorfoses, descreveu Notus, o vento do Sul,  como alguém que possuía – “longas, as penas mádidas, envolta // em  densa escuridão, a atroz carranca (…) barbas com pejadas nuvens”, “a melena encanecida” a gotejar,  com  névoas pousadas na “cabeça horrenda”, com as asas e o peito orvalhando os céus.

 

Madidis  Notus evolat alis,

terribilem picea tectus caligine vultum:

barba gravis nimbis, canis fluit unda capillis;

fronte sedent nebulae, rorant pennaque sinusque.

 

(Metamorphosis, I, 265-267).

 

De todos esses ventos, o que melhor conservou a identidade, foi Zefiro, o vento do oeste, cujo nome sobreviveu graças à sua aceitação como símbolo amoroso, pelos autores românticos dos séculos posteriores, por suas características de aragem, vento suave e brando, sem aspectos trágicos.  

Os ventos surgem, freqüentemente, como tema, cenário ou mesmo como personagem, a partir da literatura européia do século XIX; incluídos, entre outros, nos “romances do mar”. Victor Hugo, na França, Joseph Conrad, na Ingalaterra, Henry Melville, nos Estados Unidos, souberam bem valorizá-los; e,  ainda na prosa inglesa, Emily Brontë, em Wuthering Heights (Morro dos Ventos Uivantes), tanto quanto  na poesia, Alfred Tennyson, em seu monumental poema In Memoriam, e Shelley, em sua Ode to the West Wind os consagraram  como assunto temático e mesmo como personagem,  ao associarem sua ação, a momentos decisivos na trama dos seus textos  e a seus próprios estados de espírito, ousando Shelley com eles dialogar, pedindo ao “vento do Oeste” que o transporte, como folha morta ou nuvem, e o torne companheiro em suas andanças (O,  lift  me as a wave, a leaf, a cloud! // I fall upon the thorns of life! I bleed! ). E em tempos mais recentes, pelo surpreendente romancista e pensador francês, Michel Tournier, que publicou, em 1979, Le Vent Paraclet, uma autobiografia, na qual faz  alusão direta à presença e ação como vento,  do Espírito Santo.  

Não devemos, porém, esquecer que, antes deles, Camões, em Os Lusíadas, se referiu aos “ventos hórridos de Eolo” (II,105.3); e, ao relacioná-los com os “montes Hiperbóreos”,  sobre os quais afirmou serem o lugar  – “onde sempre sopra Eolo” (III.83); também mencionou as tormentas e opressões “que sempre faz no mar, o irado Eolo” (V.15.6);  e, ainda registrou que  – “ao grande Eolo”,  mandaram os deuses,  em certa ocasião, recado, da parte de Netuno, a fim de soltar “as fúrias dos ventos repugnantes”, para que “não haja no mar mais navegantes” (VI.35.5/8).

Já, no entanto, a partir do século XVII, haviam os ventos encontrado na tradição popular dos povos europeus, um novo guardião que mesmo sem possuir  poderes divinos, teve os da  santidade – Lourenço, diácono  em Roma, transformado em santo pela Igreja de Roma,  após o seu martírio,  em  começos da era cristã. Sobre o seu culto nos países europeus e no Brasil, já escrevemos  várias vezes,  pelo que não voltaremos a ele  referir-nos. Desejo, porém, lembrar, guardar o vento, entre nós, outro mistério – o da crença popular de que os redemoinhos que se formam sobre o chão limpo, forçando a se enrolarem,  girando velozmente sobre si mesmas, folhas secas e poeira, são causados por um ser fantástico  – o saci pererê, que pulando e girando sobre sua única perna, faz com que  eles apareçam. Sem poder  esquecer haver  .Monteiro Lobato permitido  que seu grande  herói infantil – Pedrinho, aprisionasse um saci, enquanto dançava, invisível, num  redemoinho, cobrindo-o com  uma  peneira que possuía suas duas taquaras mais largas,  trançadas,  ao centro,  em forma de cruz. Dessa captura  havendo nascido uma grande  amizade  entre o saci e o menino, tão bela e forte que transformou seu livro – O Saci (São Paulo: Comp. Editora Nacional, 1934), num  autêntico  poema, nos quadros da literatura infantil brasileira.

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Waldir Freitas Oliveira é escritor e pertence à Academia de Letras da Bahia.

 

LEGENDAS

1)      Zéfiro e Flora (1875). Adolphe-William Bouguereau (La Rochelle,1825- id.1905), Paris.

2)      A “Torre dos Ventos”, Agora Romana (Atenas). Andrônico de Khyrros (Sec. I a.C).

3)      Boreas, o vento do Norte. Detalhe da “Torre dos Ventos”

4)      Zéfiro, o vento do Oeste. Detalhe da “Torre dos Ventos”.

5)      Da composição do  célebre quadro de Boticelli – “O nascimento de Venus” (cerca de 1485), participa Zéfiro, que aparece, ao alto,  à esquerda, abraçado pela ninfa Clori, enviando à deusa seu sopro fecundador, fazendo com que balancem para um lado, os seus cabelos, enquanto surge a ninfa, como símbolo do ato físico do amor.