Aleilton Fonseca em entrevista para o Perfil Literário da Rádio Unesp

Aleilton Fonseca em entrevista by direitodopovo

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Entrevista de Paulo Costa Lima

Entrevista concedida à revista Muito. Uma publicação semanal do Jornal A Tarde (BA).

Revista MUITO #126 29/08/2010
TEXTO: VITOR PAMPLONA FOTO:MARCO AURELIO MARTINS

Paulo Costa Lima

Paulo Costa Lima


Um dos maiores nomes da música erudita na Bahia, o compositor Paulo Costa Lima é um dos remanescentes do movimento que colocou Salvador no mapa da vanguarda musical entre as décadas de 1950 e 1970, quando a Universidade Federal da Bahia atraiu músicos como Walter Smetak, Hans-Joachim Koellreutter e Ernst Widmer. Ligado ao chamado Grupo de Compositores da Bahia, ele comemorou em 2009 quatro décadas de música, nas quais compôs mais de 80 obras.

Em meio ao trabalho de compositor e professor, exerceu cargos na direção da universidade e na Prefeitura de Salvador, onde presidiu a Fundação Gregório de Mattos entre 2005 e 2008. Pensador da educação e da cultura, foi o primeiro músico eleito para uma vaga na Academia de Letras da Bahia, há sete meses.

No prédio da Escola de Música da Ufba, o compositor de 55 anos falou da carreira, do desafio de ensinar arte, das dificuldades na gestão da cultura em Salvador e de sua mais nova criação: uma sinfonia inspirada num pagode. “Uma ideia musical pode estar em qualquer lugar“, diz. Leia a entrevista.

O senhor completou 40 anos de música no ano passado. Qual balanço faz? É, já estou parecendo um fantasma na Escola deMúsica. As paredes daqui têm cheiro, e era um cheiro muito forte em 1969, quando entrei. Diminuiu, mas às vezes ainda consigo sentir. Começa nessas coisas menores e vai até o arco geral. Ter visto, aos 14 anos, Ernst Widmer atuando.

Ter estudado com Lindembergue Cardoso, Jamary Oliveira, Fernando Cerqueira (integrantes do Grupo de Compositores da Bahia). Depois, ter ido estudar nos EUA, voltar como professor, assumir a liderança da escola e exercer postos na universidade. São muitas fases. Me sinto jovem, mas ao mesmo tempo maduro.

Compositor é uma profissão que trabalha com a esperança de que os sistemas artísticos não virem meramente comunicativos.

Trabalha contra essa tendência maldita de a arte virar publicidade, que acaba fazendo aparecer só o lado do mercado, de vender. Esse processo dá a sensação de que é preciso lutar, mas como? Não adianta se fechar em vanguardas e fazer patrulhas. É preciso lutar de uma forma inventada.

Como? É possível ensinar arte? A rigor, não se ensina a criar. Mas a verdade é que se aprende. Então, se se aprende, é possível de ser ensinado.

Veja o caso de Agnaldo Ribeiro, compositor daqui, nosso professor.

Ele entrou na escola um pouco antes de mim. De 1969 para 1973, Agnaldo virou um compositor que todo mundo olhava, principalmente depois da obra Korpus-et-Antikorpus.

Aquilo aconteceu. Quem teve ideia de que ia acontecer? Só Ernst Widmer (diretor da Escola deMúsica na época). Agnaldo não tocava piano direito. Não queriam que ele entrasse na escola. Widmer insistiu, pois via o outro lado. Portanto, é delicada essa questão do ensino da arte. Porque, de alguma forma, nosso destino como sociedade está amarrado à capacidade de criar. Você cria um ambiente, apresenta coisas e, de repente, um aluno está fazendo o que você não esperava. É misterioso.

O senhor foi pró-reitor de Extensão da Ufba de 1996 a 2002, quando desenvolveu projetos de interação social, como o Ufba em Campo. A academia continua distante da sociedade? Já houve uma mudança relevante. Mas a natureza do problema é reconhecer que o conhecimento está em todos os lugares. A origem das universidades está nos mosteiros da Idade Média. Entrava-se para se isolar, ler os clássicos e meditar. Depois passou a ser uma coisa ligada à produção capitalista. Mas agora estamos entrando numa fase em que tudo vai depender da relação com o conhecimento.

Quando você tem conhecimento de que em Salvador há 1.250 terreiros de candomblé, você tem uma rede de formação em percussão de 1.250 centros.

Apergunta é: devemos dialogar com esta rede? Ela pode ser feita em outras áreas.

Devem as faculdades de engenharia e arquitetura dialogar com a arquitetura de informais, que na verdade fizeram a cidade quase toda? Como dialogar de forma que todos ganhem? É uma questão ainda em aberto, embora tenha havido avanços.

Acho, por exemplo, que as cotas são um passo importante nesse sentido porque, embora não toquem na metodologia, incluem um público com experiências diferentes.

Mas a própria Escola de Música ignora, de certa forma, a música popular.

Não tenha dúvida de que a resistência é também interna. Mas nada impede que possa haver mais diálogo com a chamada música popular e disso resultar novas experiências.

O senhor foi presidente da Fundação Gregório de Mattos no primeiro mandato do prefeito João Henrique. A área cultural tem sido problemática no município e está há quase um ano com um gestor interino, o secretário da Educação. Desconfia do porquê dos problemas? Existe um problema grande na questão do orçamento. Comparando Recife com Salvador, a verba de cultura lá é 30 vezes maior. Quando eu era gestor, eram R$ 60 milhões, enquanto aqui R$ 6 milhões, mas só se aplicavam R$ 2 milhões. E há um déficit enorme na estrutura. Por que isso aconteceu? Houve mais investimento no Estado quando o grupo político era o mesmo? É uma hipótese.

O fato é que a estrutura municipal ficou pequena. Quando se colocam nessa problemática 3 milhões de pessoas com direito a ações culturais, o problema fica ainda maior.

Somos uma cidade cultural por excelência, e isso pode ter influência enorme sobre geração de empregos, turismo, tudo. Quando vamos ter essas transformações? Não sei.

Como foi sua infância? O senhor tinha músicos na família? Não. A música entrou em minha casa com o violão. No começo dos anos 60, com os Beatles, Jovem Guarda e MPB, meu irmão começou a aprender violão. Eu tinha 11 anos e meu pai me obrigou a aprender também. Mas rapidamente fiquei fã do violão.

Aí, aos 14 anos, quis aprender piano. Mas quando cheguei à Escola de Música, o piano era muito disputado, não tinha vaga. Aí disseram que se eu aprendesse trompa me ensinavam piano suplementar. Ora, precisavam de quem tocasse trompa! E lá fui eu para a trompa (risos).

Depois, as bancas de revistas começaram a vender discos de grandes compositores. Quando Bach entrou na minha casa, foi um impacto. Essa é a minha experiência. Se houver acesso a outras coisas, é preciso muito esforço para que as pessoas gostem apenas das mesmas coisas. Ouvir só um tipo de música é na verdade industrial.

Temos que lutar contra a homogeneização.

O senhor é cronista, teve coluna em A TARDE e colabora com o site Terra Magazine. Quando começou a escrever? Comecei em 1981, em A TARDE, com uma coluna chamada Música em Pauta. O que determinou minha vontade de escrever foi um professor que tive nos EUA, chamado Herbert Brün, alemão judeu que fugiu do nazismo. Ele trabalhava com a ideia de que composição é uma coisa só, seja onde for. É imaginar sistemas que não foram ainda realizados. Daí, quando voltei para Salvador, criei um grupo de composição com a fala, o Fala Massa, que fez muito sucesso. E a palavra ficou. Já escrevi mais de 300 crônicas. Virou uma forma de conversa.

Numa crônica recente, o senhor fala da questão de ter discípulos. É uma preocupação? Essa é uma questão forte na música popular, cujos líderes deixam seguidores. Por exemplo, Caetano Veloso fala de fulano, que fica associado a ele. Na música erudita, há um mito maior, o da imortalidade. O compositor quer que sua obra fique, sei lá para quê. Mas ninguém precisa deixar discípulos.
Estou muito contente com meus não-discípulos, por exemplo, os da OCA (Oficina de Composição Agora, grupo de compositores criado por Paulo Lima): PauloRios, Alex Pochat, Joélio Santos, Túlio Augusto. Prometem muito.

Mas se tiver discípulos, que obra sua gostaria que ficasse? Rapaz… (pensa). A próxima! (risos).

Amúsica erudita está em menor atividade em Salvador? No mundo, há uma certa crise da música chamada erudita, ao menos nos formatos tradicionais. Mas não acho que haja menos interesse. Estamos numa fase de arrumação. Precisamos de mais gente na base da pirâmide tocando, para no topo aparecer a qualidade. O projeto Neojibá, por exemplo, é interessante. O fator limitante maior é a educação.

Mas nos círculos ditos mais cultos, a música erudita não tem estado menos presente? Minha produção tem rodado por aí. Ziriguidum, uma peça minha, foi executada este ano em vários concertos na Europa e EUA. Não acho que a luta deva ser por um estilo, contra o que está na mídia. Tratada com carinho, Rebolation pode ser uma sinfonia. Estou compondo uma peça que se chama justamente Rebolatio (corruptela de Rebolationem latim). É baseada num pagode de meu filho Maurício, compositor demúsica para Carnaval. Ouvi amúsica e falei: isso pode virar outra coisa. Ou seja, u ma ideia musical pode estar em qualquer lugar e conversar com outras, resultando em visões críticas. É disso que precisamos.